Jornada & Bastidores

Ouvir 'parabéns, mestra' pela primeira vez

Tem um momento na defesa em que o presidente da banca te chama de mestra pela primeira vez. O que acontece nesse instante e por que demora para processar que é real.

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Aquele segundo exato

Vamos lá. Tem um segundo muito específico na defesa de mestrado. Você acabou de sair da sala para aguardar a deliberação da banca. Ficou do lado de fora, na cadeira do corredor, ou no café, ou no banheiro, ou em pé encostada na parede porque sentar não era possível.

Os minutos passam devagar.

Aí a porta abre. O presidente da banca faz um gesto para você entrar. Você entra. Percorre os rostos tentando ler alguma coisa antes que a palavra saia.

E então vem: “A banca decide pela aprovação da candidata. Parabéns, mestra.”

Esse segundo é esquisito. Você não chora imediatamente. Você não ri imediatamente. Existe um momento de processamento que parece ser lento demais para o que acabou de acontecer. Como se a informação chegasse antes do sentimento.

É assim para muita gente. E ninguém fala sobre isso.

Os dias antes da defesa que ninguém descreve

Para entender por que aquele segundo é tão intenso, ajuda entender o estado em que você chega nele.

Nas semanas antes da defesa, existe uma qualidade de atenção que é diferente do estresse normal da pós-graduação. É uma vigília. Você continua fazendo tudo o que precisa ser feito, mas uma parte da cabeça está sempre ensaiando a defesa. A apresentação. As possíveis perguntas. As respostas. Os buracos que você sabe que existem no trabalho e que a banca pode achar.

Nos últimos dias, essa vigília fica mais intensa. O sono muda. O apetite muda. Você relê partes da dissertação que já conhece de cor procurando erros que de alguma forma ainda não apareceram.

Na manhã da defesa, existe um estado que eu descreveria como hiperalerta calmo. Você está presente demais. Cada detalhe tem nitidez demais. O trajeto até a universidade. O café antes. A roupa escolhida com tanto cuidado.

Tudo isso é o corpo se preparando para algo que importa muito.

A defesa em si: o que ninguém prepara você para sentir

A defesa começa, e algo curioso acontece. O nervosismo muda de qualidade.

Antes de começar, é um nervosismo difuso, voltado para o futuro desconhecido. Quando você abre a boca e começa a apresentação, o nervosismo se transforma em presença. Você está ali. Está fazendo. O medo do que pode acontecer é substituído pelo que está acontecendo.

A apresentação passa. As perguntas chegam. Algumas você esperava. Algumas são novas. Algumas são mais fáceis do que você temia. Algumas te fazem pensar na hora e você se surpreende com o que encontra quando pensa.

E então a banca pede que você deixe a sala.

Esse momento de espera fora é um dos mais estranhos. Você fez a sua parte. Não tem mais nada a fazer. Só esperar. E você não sabe quanto tempo vai demorar.

Cinco minutos se transformam em vinte. Cada passada de alguém pelo corredor te faz olhar.

O anúncio e o processamento que demora

Quando você entra de volta na sala e ouve a aprovação, o que acontece é diferente para cada pessoa. Mas tem um padrão que aparece muito nas conversas: não parece real imediatamente.

A emoção que você imaginava ter, aquele alívio dramático, pode demorar. Às vezes vem em ondas durante horas. Às vezes só aparece no dia seguinte, quando você acorda e lembra que está aprovada e que pode dormir tranquila.

O abraço com o orientador. Os cumprimentos da banca. As fotos. O jantar de celebração. Tudo isso acontece, mas ainda tem um vidro fino entre você e o sentido pleno de que acabou.

Isso não é ingratidão. Não é insensibilidade. É o sistema nervoso normalizando depois de semanas de tensão acumulada. Leva tempo.

O primeiro dia em que você acredita

Para muita gente, o momento em que a aprovação realmente “cai” não é na defesa. É depois.

Pode ser quando você liga para a família e precisa dizer em voz alta “passei”. Pode ser quando você atualiza o currículo Lattes e coloca a titulação. Pode ser quando alguém te chama de mestra pela primeira vez em contexto real, não na formalidade da banca, e você percebe que esse é o nome certo.

Pode ser semanas depois, em uma conversa, e você fala “quando eu fiz o mestrado” sem pensar, e percebe que está falando no passado.

Esses momentos de processamento tardio são tão reais quanto o anúncio formal. Às vezes mais, porque acontecem sem a adrenalina da defesa, quando você está sendo você mesma.

As correções e o período liminar

Depois da defesa vem um período que é ao mesmo tempo de alívio e de trabalho. A banca aprovou, mas provavelmente indicou correções. Você precisa revisá-las dentro de um prazo.

Tem algo psicologicamente curioso nessa fase. Você está aprovada. A pressão maior foi embora. E exatamente por isso, fazer as correções exige uma disciplina diferente da disciplina que você tinha antes da defesa. Antes havia urgência emocional. Agora a urgência é só de prazo.

O nome que os pesquisadores às vezes usam para isso é período liminar. Liminar, do latim, significa “sobre a soleira”. Você não está mais dentro do mestrado no sentido pleno, mas ainda não está completamente do outro lado. As correções, o depósito, a emissão do diploma são os passos que fecham essa travessia.

Durante esse período, é comum sentir uma espécie de vazio produtivo. A dissertação ocupou tanto espaço mental por tanto tempo que quando ela deixa de ser urgente, o espaço fica estranho. Como uma sala redecorada que você ainda não se acostumou.

Isso também passa.

A conversa com a família que nenhum roteiro prepara

Tem uma cena que acontece em versões diferentes mas com o mesmo núcleo. Você liga para quem mais quer bem e diz “passei”. E do outro lado vem uma alegria que é genuína mas que às vezes não sabe exatamente o que comemorar, porque a outra pessoa não estava lá, não leu a dissertação, não sabe o que a banca perguntou.

E você tenta explicar o que aconteceu, mas as palavras ficam aquém do que foi.

Isso não é distância. É o fato de que parte da trajetória do mestrado acontece em um espaço que é difícil de compartilhar com quem não está dentro dele. A solidão acadêmica que às vezes se sente ao longo do programa encontra uma versão suave também na celebração.

O abraço é real. A alegria compartilhada é real. E ao mesmo tempo, uma parte da dimensão do que você fez só cabe na sua própria experiência.

O que fica depois da titulação

Olha, tem uma coisa que ninguém fala com clareza: a titulação não resolve as dúvidas que você tinha antes da defesa. O mestre ou doutora que entra no exame com síndrome de impostor continua com síndrome de impostor depois. A aprovação não apaga a voz que diz “mas será que eu mereço?”.

O que muda é que você tem uma evidência concreta contra essa voz. Uma banca que leu seu trabalho, fez perguntas, deliberou, e concluiu que você é qualificada. Isso não cala a voz para sempre. Mas é uma referência que você pode usar quando ela aparecer.

E ela vai aparecer menos com o tempo. À medida que você avança, orienta outros, publica, vai construindo evidências de que você pertence onde está. Mas esse processo é mais longo do que a defesa. E também faz parte da trajetória.

Para ler mais sobre como é o período depois da defesa, veja entregar a versão final da dissertação: esse alívio e sobre a trajetória da Dra. Nathalia.

Perguntas frequentes

O que acontece exatamente no momento em que a banca anuncia o resultado da defesa?
Após a deliberação em sessão fechada, o presidente da banca retorna à sala, pede que o mestrando entre, e anuncia o resultado. Em caso de aprovação, é nesse momento que você recebe o título de mestre ou mestra oficialmente, mesmo que o diploma físico ainda leve meses para ser emitido.
É normal não conseguir processar que foi aprovada logo após a defesa?
Sim, é muito comum. O estado de hipervigilância que dura horas ou dias antes da defesa não desaparece de uma hora para outra. Muitas pessoas descrevem uma sensação de desconexão ou irrealidade logo após a aprovação, que só vai sendo substituída pelo alívio ao longo das horas seguintes.
O que significa ser aprovada com louvor em uma defesa de mestrado?
A aprovação com louvor é uma distinção especial concedida por unanimidade da banca quando consideram que o trabalho tem qualidade excepcionalmente alta. Não é um requisito de todas as defesas e os critérios variam por programa, mas representa o reconhecimento máximo que uma banca pode dar ao trabalho.
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