O Que Fazer Depois da Defesa de Mestrado: Primeiros 90 Dias
Defendeu o mestrado. E agora? Veja o que fazer nos primeiros 90 dias após a defesa: correções, titulação, atualização do Lattes e próximos passos.
Você defendeu. Agora o que?
Vamos lá. A defesa acabou, a banca assinou, você ouviu “aprovada” e o adrenalina começou a baixar. Dependendo de como foi, você pode estar se sentindo aliviada, exausta, eufórica, ou as três coisas ao mesmo tempo.
O que pouca gente te conta é que os dias depois da defesa têm sua própria lista de tarefas. Não é dramático, mas é real: o processo de formalizar o título, depositar a dissertação, e começar a transição para o que vem depois tem etapas concretas que você precisa cumprir para que o investimento dos últimos anos se converta em credencial efetiva.
Esse post organiza o que fazer nos primeiros 90 dias após a defesa de mestrado.
Nos primeiros dias: as correções da banca
A maioria das bancas pede algum tipo de correção após a defesa. Raramente um mestrado é aprovado sem ajustes. O espectro vai de pequenas correções ortográficas e de formatação até revisões mais substanciais de capítulos ou metodologia.
O prazo para as correções varia por programa, mas costuma ser de 30 a 60 dias. Leia o documento de resultado da defesa com atenção: as exigências de correção devem estar descritas lá, às vezes de forma genérica (“ajustes sugeridos pela banca”), às vezes com mais especificidade.
A relação com o orientador importa muito nesse momento. Não assuma que você sabe exatamente o que a banca quis dizer com cada solicitação. Se ficou alguma dúvida, pergunte ao orientador antes de começar as correções. É muito menos frustrante corrigir uma vez do que entregar uma versão revisada que precisa voltar.
Depois de fazer as correções, envie para o orientador para aprovação. Em muitos programas, o orientador precisa assinar formalmente que as correções foram feitas conforme solicitado.
O depósito da dissertação
Depois das correções aprovadas, você precisa depositar a versão final da dissertação no repositório institucional do programa ou da biblioteca.
Cada universidade tem um sistema diferente. Pode ser um repositório digital (como o Saber da USP, ou o LUME da UFRGS), pode ser entrega de CD ou pen drive, pode ser envio por sistema interno. Verifique com a secretaria do programa qual o procedimento da sua instituição.
A versão depositada precisa estar formatada conforme as normas da universidade (geralmente ABNT ou norma interna), com ficha catalográfica. A ficha catalográfica é gerada pela biblioteca da universidade. Em muitas instituições, você solicita ela pelo site da biblioteca com os dados da dissertação.
Esse passo é importante não apenas burocrático: o repositório institucional é onde sua pesquisa fica disponível para outros pesquisadores. A Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) agrega o conteúdo de repositórios institucionais de todo o país. Quando você deposita, sua dissertação se torna buscável e citável.
Documentação e certificado
Depois do depósito, você entra com o pedido formal de certificado de conclusão ou diploma na secretaria do programa. A documentação exigida varia, mas geralmente inclui cópia do RG e CPF, comprovante de depósito da dissertação, e formulário de solicitação.
O certificado de conclusão é diferente do diploma. O certificado é emitido pela secretaria do programa e comprova que você concluiu o mestrado. Ele pode ser usado imediatamente para candidaturas, processo docente, e comprovação em concursos. O diploma é o documento formal emitido pela reitoria, com prazo de emissão mais longo.
Para a maioria dos fins práticos imediatos (concursos, bolsas, candidaturas) o certificado já funciona. Se você precisa do diploma por algum prazo específico, converse com a secretaria do programa sobre o andamento.
Atualizar o Lattes imediatamente
Esse passo é mais prático do que parece. Atualizar o currículo Lattes com a dissertação defendida é algo que você pode e deve fazer assim que a defesa acontece, antes mesmo do certificado.
No campo de formação acadêmica, altere o status de “em andamento” para “concluído” e registre a data de defesa. Inclua o título da dissertação, o nome do orientador, o nome da banca, e o nome do programa.
Se você produziu publicações durante o mestrado (artigos em congressos, capítulos de livro, artigos em periódicos), certifique-se de que estão todos registrados e atualizados no Lattes. O currículo Lattes é seu principal cartão de visitas no sistema de pesquisa brasileiro, e uma defesa é um bom momento para fazer uma atualização completa.
Os 30-90 dias: o que vem depois do imediato
Depois que as correções estão entregues, o depósito feito, e o certificado solicitado, você entra em uma fase diferente. É a fase de pensar o que vem depois.
Algumas perguntas que vale começar a responder nesse período:
A dissertação tem potencial para virar artigo publicável? Muitas dissertações contêm ao menos um artigo de periódico em potencial. Agora que a correria da defesa acabou, é um bom momento para avaliar isso com o orientador. Transformar a dissertação em publicação é uma extensão do trabalho que já foi feito, não um projeto novo do zero.
Você quer seguir para o doutorado? Se sim, o pós-defesa é o momento certo para começar a pensar nos programas e nos prazos de seleção. Se não, esse é também o momento de pensar como o mestrado vai se integrar à sua carreira fora da academia.
Você mantém alguma conexão com o programa? Orientadores às vezes continuam colaborando com ex-orientandos, especialmente se há projetos em andamento onde você pode contribuir como pesquisadora associada. Essa continuidade, quando existe, pode gerar publicações e fortalecer o currículo.
Uma palavra sobre o vazio pós-defesa
Tem uma coisa que acontece com muita gente depois da defesa e que raramente aparece nas orientações práticas: um período de desorientação.
Você passou meses, talvez anos, com o mestrado como eixo central da sua rotina intelectual. A defesa resolve isso, mas também cria um espaço que de repente fica sem preenchimento. O que as pessoas descrevem como “vazio pós-defesa” é real, e é esperado.
Não é sinal de que algo está errado. É um período de transição. Com os prazos práticos encaminhados, dá para também dar espaço para processar o que o mestrado representou, o que você aprendeu sobre si mesma como pesquisadora, e o que você quer fazer com isso daqui para frente.
Convertendo a dissertação em artigo: por onde começar
Se você decidiu que quer transformar a dissertação em publicação, os primeiros 90 dias são o melhor momento para começar, enquanto o material ainda está fresco na sua cabeça.
O processo não é simplesmente pegar a dissertação e reduzir o tamanho. Um artigo tem estrutura diferente de uma dissertação. A revisão de literatura, que ocupa capítulos inteiros na dissertação, em um artigo fica condensada na introdução e na discussão. O que precisa de ajuste geralmente é a argumentação central: qual é a contribuição específica que este artigo faz para a literatura?
A conversa com o orientador sobre isso é quase sempre o primeiro passo. Ele tem mais experiência em identificar qual parte da dissertação tem potencial de artigo, e para qual periódico o trabalho seria adequado.
Um caminho comum: o artigo emerge da combinação de um capítulo de metodologia robusto com os resultados mais significativos. Não necessariamente tudo da dissertação vai para o mesmo artigo. Uma dissertação bem estruturada pode render dois artigos diferentes com abordagens complementares.
Se a dissertação foi desenvolvida dentro de um projeto de pesquisa do grupo do orientador, há uma conversa sobre autoria que precisa acontecer antes de submeter: quem assina o artigo, em que ordem, e com que contribuição declarada de cada autor.
O que fazer com o networking que você construiu
O mestrado constrói conexões que têm valor além do programa. Colegas de turma, professores da banca, pesquisadores que você conheceu em eventos. Esse capital social se dilui rapidamente se não for mantido.
Nos primeiros meses pós-defesa, considere manter contato com as pessoas que fizeram parte do processo. Não de forma artificial, mas com propósito: compartilhar a versão final da dissertação com os membros da banca, atualizar o orientador sobre os passos seguintes, participar de pelo menos um evento ou seminário da área mesmo depois de formalmente formado.
A rede acadêmica que você constrói no mestrado é muitas vezes o que abre as portas do doutorado, de oportunidades de publicação colaborativa, e de posições na área. Não deixar essa rede esfriar é mais fácil de fazer logo depois da defesa do que tentar reativar meses ou anos depois.
Faz sentido? Para quem está se preparando para a defesa em si (não o depois), o post sobre defesa de mestrado: o que esperar cobre o que acontece naquele dia.