O que eu faria diferente se começasse a pós hoje
Reflexões honestas sobre erros, aprendizados e o que mudaria na trajetória na pós-graduação, da escolha do orientador à gestão do tempo de escrita.
O que eu sei agora que gostaria de ter sabido antes
Vamos lá. Se eu pudesse voltar ao começo da pós-graduação com o que sei hoje, algumas coisas seriam muito diferentes. Não porque eu faria tudo certo desta vez. Mas porque erraria diferente, e com muito menos sofrimento desnecessário.
Este post não é conselho universal. Cada trajetória é única, cada programa tem sua dinâmica, cada orientador tem seu jeito. Mas há alguns padrões que aparecem em muitas histórias, incluindo a minha, e que vale compartilhar.
Eu começaria a escrever muito mais cedo
Essa é a que eu mais me arrependo. Fiquei meses “me preparando para escrever”. Lendo, fichando, organizando. Convencida de que precisava saber mais antes de poder escrever qualquer coisa.
O que eu não entendia então: a escrita também é forma de pensar. Você não escreve porque já sabe. Você escreve para descobrir o que sabe e o que ainda não sabe. O texto que você escreve cedo vai ser reescrito. Provavelmente mais de uma vez. Mas ele existe. É algo concreto que você pode melhorar.
Uma página por dia. Qualquer coisa. Um fichamento mais elaborado, um parágrafo tentativo sobre a metodologia, um brainstorm que depois vai para o lixo. Pouco importa. O hábito de escrever todo dia vale mais do que a qualidade do que você escreve no começo.
Eu conversaria mais com o orientador antes de fechar a orientação
Escolhi o orientador pela linha de pesquisa. Fazia sentido na época. Mas o estilo de orientação importa tanto quanto a área, e isso eu não avaliei direito.
Alguns orientadores dão feedback detalhado e rápido. Outros entregam um capítulo revisado três meses depois. Alguns gostam de encontros frequentes. Outros preferem autonomia total do orientando. Não existe certo e errado aqui. Mas existe compatibilidade ou incompatibilidade com o seu jeito de trabalhar.
O que eu faria hoje: conversar com dois ou três ex-orientandos do professor antes de decidir. Perguntar como foi a experiência. Se o orientador entregava feedback no prazo. Se estava disponível em momentos de crise. Se respeitava o ritmo do orientando. Essas conversas valem mais do que qualquer descrição no currículo Lattes.
Eu teria pedido ajuda mais cedo
Fiquei com dúvidas que eu poderia ter resolvido em meses carregando por mais de um ano. Por quê? Parte foi orgulho. Parte foi medo de parecer incompetente. Parte foi a cultura da pós que passa a mensagem de que você precisa saber tudo sozinha.
A pós-graduação tem uma cultura estranha de autossuficiência forçada. Todo mundo está com dificuldade, mas a performance que se espera é de quem está mandando bem.
Pedir ajuda ao orientador, aos colegas, a professores de outros programas, a pesquisadores que você admira, isso não é fraqueza. É como a ciência funciona. Colaboração. Troca. Você não precisa inventar a roda que alguém já inventou.
Eu teria construído rotina de escrita mais cedo, não no final
A dissertação não se escreve em sprints de pânico nas últimas semanas antes do prazo. Quem te disser que fez isso e funcionou está te contando metade da história. A outra metade são as noites sem dormir, o texto que precisou ser reescrito na defesa, o nível de qualidade que poderia ser outro.
Escrita consistente, regular, com hora de começo e de fim definidos, produz um texto diferente. E produz uma pessoa diferente no final do processo.
Não precisava ser muito. Uma hora e meia pela manhã, antes de qualquer outra coisa. Teria feito uma diferença enorme.
Eu teria cuidado melhor da saúde desde o início
A pós-graduação tem um jeito de te convencer de que você não tem tempo para nada além da pesquisa. Que dormir oito horas é luxo. Que se exercitar é postergável. Que socializar pode esperar.
Não pode.
Você não vai produzir mais trabalhando mais horas em detrimento de tudo o mais. Vai produzir menos, com mais erro, mais lentamente, e vai demorar mais para recuperar quando estiver esgotada. Isso não é motivação. É fisiologia.
Cuidar do corpo não é pausa da pesquisa. É parte do que torna a pesquisa possível.
Eu teria valorizado mais os grupos de pesquisa
Durante a maior parte do mestrado, fui a reuniões do grupo de pesquisa porque era obrigatório. Não porque entendia o valor.
Entendo agora. O grupo de pesquisa é onde você aprende a pensar como pesquisadora. Onde você vê como colegas mais experientes lidam com problemas parecidos com os seus. Onde você aprende a ouvir crítica, a defender argumento, a distinguir o que é essencial do que é periférico.
Se você está em um grupo bom e participa de verdade, está aproveitando um recurso que muita gente ignora.
Eu não teria esperado que a pós fosse diferente do que era
Essa é talvez a mais importante. Fui para a pós-graduação com uma ideia romantizada de como seria. Professores profundos, debates intelectuais acalorados, descobertas que mudam a perspectiva.
Tem um pouco disso. Mas tem muito mais de burocracia, de reuniões que poderiam ter sido e-mails, de textos que você lê e nunca mais vai precisar, de espera interminável por um parecer do CEP.
Aceitar que a pós é um processo humano, com todas as imperfeições que isso implica, sem a expectativa de que seria diferente, teria tornado muita coisa mais suportável. Não porque você baixa o padrão. Mas porque você para de gastar energia se frustrando com o que não pode mudar.
Fechando
Não existe jeito certo de fazer a pós. Existe aprender com o processo, com os próprios erros, e com o que outros pesquisadores compartilham com honestidade.
Se você está no começo, espero que alguma coisa aqui seja útil. Se você está no meio, espero que seja reconfortante saber que você não é a única a ter tido essas dificuldades. Se você já passou, espero que faça sentido olhando para trás.
Para entender mais sobre como estruturar o processo de escrita de forma mais consciente, veja também sobre o Método V.O.E., que surgiu exatamente desse tipo de reflexão sobre o que funciona e o que não funciona na escrita acadêmica.
O que não mudaria
Não quero que este post pareça que a pós-graduação foi um erro. Não foi.
Tem coisas que não mudaria. A escolha do tema de pesquisa, que era algo que eu de fato queria entender. A decisão de entrar na pós mesmo sem ter certeza de que conseguiria terminar. Os colegas que viraram amigos de verdade. O momento em que um argumento finalmente fechou, depois de semanas tentando.
A pós-graduação muda como você pensa. Muda como você lê. Muda como você enfrenta problemas. Isso não tem preço.
O que eu mudaria é como atravessei o processo. Com menos sofrimento desnecessário. Com mais clareza sobre o que importa e o que é ruído. Com mais cuidado comigo mesma ao longo do caminho.
Essa é a diferença entre o que eu faria igual e o que eu faria diferente.
Uma coisa sobre comparação
Existe uma coisa específica que me consumiu mais tempo do que deveria: comparar meu progresso com o dos outros.
Fulano estava no mesmo semestre e já tinha três artigos publicados. Ciclana tinha acabado de apresentar no congresso internacional. Beltrano tinha conseguido bolsa para o doutorado sanduíche.
O problema de comparar seu bastidor com o palco dos outros é que você nunca tem acesso à história completa. Fulano com três artigos pode ter uma saúde mental no limite. Ciclana pode ter feito o congresso internacional em vez de revisitar a metodologia que estava com problema. Beltrano pode estar passando por dificuldades que você não sabe.
E mesmo que não estejam, mesmo que tudo realmente esteja bem para eles, isso não diz nada sobre o que é possível para você com o seu contexto, seu ritmo, sua vida fora da pós.
Pesquisa não é corrida. O metro que importa é o quanto você avançou em relação a onde você estava, não em relação a onde os outros estão.