Método

Normas Vancouver na Dissertação: Guia Completo

Como usar as normas Vancouver para citar e referenciar na sua dissertação ou tese, especialmente em áreas da saúde onde esse sistema é padrão.

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Vancouver não é complicado, mas tem lógica própria

Vamos lá. Se você está numa área da saúde, como medicina, enfermagem, farmácia, fisioterapia, odontologia, ou ciências biomédicas, provavelmente vai se deparar com as normas Vancouver em algum momento. Seja na sua dissertação, seja nos artigos que vai escrever.

O sistema Vancouver foi criado em 1978 por um grupo de editores de periódicos biomédicos reunidos em Vancouver, no Canadá, e se tornou o padrão de citação mais usado em periódicos de saúde no mundo. O guia oficial é o ICMJE (International Committee of Medical Journal Editors), disponível gratuitamente em icmje.org.

A lógica do sistema é diferente do que a maioria das pesquisadoras brasileiras aprendeu na graduação, porque ABNT é o padrão geral aqui. Mas a diferença não é complexidade, é convenção. Com algumas horas de leitura e prática, o sistema se torna intuitivo.

A lógica central do sistema Vancouver

O sistema Vancouver é numérico. Isso significa que toda vez que você cita uma fonte no texto, coloca um número, não o sobrenome do autor e o ano.

Esse número aparece entre parênteses (1) ou como sobrescrito¹, dependendo da norma específica do seu periódico ou programa. Os dois formatos são aceitos pelo ICMJE.

As referências, ao final do trabalho, aparecem em ordem numérica, na sequência em que as fontes foram citadas pela primeira vez. Isso é fundamental: não é ordem alfabética de autor, não é ordem cronológica, é ordem de aparecimento no texto.

Se ao longo do texto você cita a mesma fonte mais de uma vez, ela recebe sempre o mesmo número que recebeu na primeira vez que foi citada. Faz sentido? Uma fonte, um número, para sempre no trabalho.

Como formatar as referências no sistema Vancouver

As referências têm um formato específico que varia um pouco dependendo do tipo de documento (artigo, livro, capítulo, tese). Vou mostrar os formatos mais comuns.

Para artigo de periódico:

Sobrenome Iniciais, Sobrenome Iniciais. Título do artigo. Abreviatura do periódico. Ano;Volume(Número):Página inicial-Página final.

Exemplo: Silva AB, Santos CD. Fatores associados à hipertensão em adultos jovens. Rev Saude Publica. 2023;57(3):45-52.

Alguns pontos importantes: os nomes dos autores usam apenas as iniciais dos nomes, sem ponto entre elas e sem vírgula entre nome e sobrenome. O título do artigo não vai em itálico. O nome do periódico vai abreviado conforme a lista NLM (National Library of Medicine) e em itálico. Ano, volume, número e páginas seguem aquele formato compacto sem espaço.

Para livro:

Sobrenome Iniciais. Título do livro. Edição (se não for a primeira). Cidade: Editora; Ano.

Exemplo: Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 14a ed. São Paulo: Hucitec; 2014.

Para capítulo de livro:

Sobrenome Iniciais. Título do capítulo. In: Sobrenome Iniciais, organizador. Título do livro. Cidade: Editora; Ano. p. Página inicial-Página final.

Para dissertação ou tese:

Sobrenome Iniciais. Título [dissertação/tese]. Cidade: Nome da Universidade; Ano.

Para fonte eletrônica:

Segue o formato do tipo de documento, acrescentando “[Internet]” após o título, e ao final: “Disponível em: URL. Acesso em: data.”

Quantos autores listar?

Uma dúvida frequente. O ICMJE estabelece que quando o trabalho tem até seis autores, todos são listados. Quando tem sete ou mais autores, lista-se os seis primeiros seguidos de “et al.”

Exemplo com muitos autores: Pereira MF, Costa JS, Lima AR, Santos RF, Oliveira TK, Martins BG, et al. Prevalência de diabetes tipo 2 em populações urbanas. Arq Bras Endocrinol Metab. 2022;66(2):123-30.

Isso vale para artigos e para outras produções com múltiplos autores.

A abreviação dos periódicos

Essa é uma parte que gera bastante dúvida. No sistema Vancouver, os nomes dos periódicos são abreviados de acordo com uma lista padronizada.

Você não precisa memorizar. Mas precisa saber como encontrar.

A melhor fonte é o catálogo de revistas indexadas na MEDLINE/PubMed. Cada periódico listado tem sua abreviação oficial. Para encontrar: acesse o PubMed, pesquise pelo nome do periódico, e nas informações do journal você encontra o título abreviado.

Se o periódico não está indexado na MEDLINE, você pode usar as regras de abreviação do NLM (Listadas no documento ISO 4) para criar a abreviação, ou usar o nome completo seguido de “[Internet]” quando for um periódico online não indexado.

Para periódicos brasileiros que você usa com frequência, vale criar uma lista pessoal com as abreviações corretas, para não precisar verificar toda vez.

Vancouver versus ABNT: quando usar cada um

A regra geral é simples: use o que o seu programa ou o periódico exige.

A maioria dos programas de pós-graduação em saúde no Brasil aceita ou exige Vancouver. Mas alguns programas interdisciplinares ou da área de humanidades aplicadas à saúde podem usar ABNT.

Periódicos nacionais como a Revista de Saúde Pública, Cadernos de Saúde Pública e Ciência e Saúde Coletiva seguem Vancouver. A maioria dos periódicos internacionais de saúde também.

Se você está escrevendo uma dissertação e vai publicar capítulos como artigos, o mais prático pode ser já escrever em Vancouver se seus periódicos-alvo usam esse sistema. Menos trabalho de conversão depois.

E sim, existem gerenciadores de referências que automatizam muito disso.

Gerenciadores de referências para facilitar

Fazer referências manualmente é processo que gera erros, consome tempo e cansa. Para qualquer pesquisadora com mais de vinte referências, um gerenciador de referências deixa de ser luxo e vira necessidade.

Os principais que funcionam bem com Vancouver:

Zotero: gratuito, open source, tem plugin para Word e Google Docs. Tem o estilo Vancouver disponível. Para a maioria das pesquisadoras é suficiente.

Mendeley: tem versão gratuita, funciona bem para organizar PDFs, tem suporte a Vancouver. A Elsevier comprou e algumas funções foram restringidas na versão gratuita nos últimos anos.

EndNote: muito usado em instituições, especialmente nos EUA. Versão paga, mas muitas universidades brasileiras têm licença institucional.

Qualquer um desses resolve. A curva de aprendizado é pequena, o benefício é grande.

Pontos de atenção na hora de revisar

Antes de entregar qualquer trabalho com sistema Vancouver, faça uma revisão específica para isso.

Verifique se todos os números no texto têm referência correspondente na lista. Nenhum número pode estar sem referência, e nenhuma referência pode estar sem número no texto.

Verifique se a numeração está em ordem sequencial no texto. O número 1 precisa aparecer antes do 2, que precisa aparecer antes do 3.

Confira se a formatação das referências está consistente: todos os artigos no mesmo formato, todos os livros no mesmo formato, etc.

Verifique as abreviações dos periódicos. Um erro que aparece muito é abreviação incorreta ou inexistente.

O Método V.O.E. tem uma etapa específica de revisão estruturada antes da entrega de qualquer manuscrito, e essa checagem das referências faz parte do processo. Não é etapa para o final, quando você está cansada. É trabalho que vai ao longo de toda a escrita.

Uma observação sobre rigor e detalhe

Tem pesquisadoras que acham que cuidar desses detalhes de formatação é trabalho menor, coisa para secretária, e não para quem pensa.

Discordo. A forma como você cuida das referências é parte da forma como você cuida da sua pesquisa. Uma referência errada pode levar quem te lê a um artigo que não existe, ou a uma fonte diferente da que você usou. Isso compromete a rastreabilidade do seu trabalho.

Não é preciosismo. É responsabilidade com o conhecimento que você está construindo e com quem vai usar o que você escreveu.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre as normas Vancouver e as normas ABNT para citações?
As normas ABNT (especialmente NBR 10520 e NBR 6023) são o padrão oficial brasileiro para citações e referências bibliográficas, com citações pelo sistema autor-data (sobrenome, ano). As normas Vancouver usam citações numéricas no texto (números entre parênteses ou sobrescritos) com lista de referências ao final na ordem de aparecimento, sem ordenação alfabética. Vancouver é usado principalmente em áreas da saúde e ciências biomédicas, enquanto ABNT é o padrão geral para trabalhos acadêmicos brasileiros.
O sistema Vancouver usa ordem alfabética nas referências?
Não. Esta é uma das diferenças mais importantes. No sistema Vancouver, as referências aparecem na lista em ordem numérica, pela ordem em que foram citadas pela primeira vez no texto. Se você cita o artigo de Smith primeiro e o de Jones segundo, Smith recebe o número 1 e Jones o número 2, independentemente da ordem alfabética dos sobrenomes.
Posso usar Vancouver na minha dissertação se meu programa exige ABNT?
Não, a menos que haja permissão explícita no regimento do programa ou orientação da sua orientadora. Você deve seguir as normas exigidas pelo seu programa. Se o programa exige ABNT, use ABNT. Se o programa segue as normas da área de saúde e permite Vancouver, use Vancouver. Em caso de dúvida, consulte o manual de normas da sua instituição ou pergunte diretamente para a secretaria do programa.
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