Mulheres Negras na Pós: Sub-representação Real
A sub-representação de mulheres negras entre docentes da pós-graduação brasileira é um fato documentado. Entenda as causas, os dados e o que está em jogo para a ciência.
O número que precisa ser dito em voz alta
Olha só: se você olhar para as fotos dos docentes permanentes dos programas de pós-graduação das principais universidades brasileiras, vai notar algo. A maioria é branca. Uma parcela significativa é masculina. E quando você cruza os dois recortes, mulheres negras aparecem em um número que não reflete em nada a composição da população brasileira.
O Brasil é um país majoritariamente negro. Mais de 56% da população se declara preta ou parda, segundo o IBGE. E mulheres negras são parte significativa dessa maioria. Mas nas cadeiras permanentes dos programas de pós-graduação, elas são uma minoria dentro da minoria.
Isso não é acidente. É um resultado de processos históricos e contemporâneos que vale entender.
Por que esse dado importa para a ciência
Antes de falar sobre causas, quero falar sobre por que isso importa para a própria ciência, não só para a equidade.
A ciência é produzida por pessoas. E as perguntas que essas pessoas fazem, os problemas que escolhem estudar, as populações que enxergam como relevantes dependem, em parte, de quem são essas pessoas.
Quando as mulheres negras são sistematicamente ausentes dos espaços de produção de conhecimento, algumas perguntas simplesmente não são feitas. Algumas experiências não são consideradas objeto válido de pesquisa. Alguns grupos populacionais ficam invisíveis na literatura científica, o que depois retroalimenta políticas públicas que também os ignoram.
Isso não é especulação. Pesquisadores que estudam saúde da mulher negra no Brasil documentaram que a falta de dados desagregados por raça e gênero gerava desigualdades no atendimento que permaneciam invisíveis porque o sistema não as media.
A sub-representação tem consequências reais para a qualidade e a abrangência do conhecimento produzido.
Os mecanismos que explicam a sub-representação
Não existe uma causa única. Existe uma cadeia de causas que se reforçam.
O ponto de partida: acesso desigual ao ensino superior. Historicamente, a população negra brasileira teve acesso muito mais restrito à educação de qualidade em todos os níveis. As cotas na graduação, implementadas a partir da Lei nº 12.711/2012, começaram a mudar esse quadro, mas os efeitos demoram a chegar ao topo da carreira acadêmica.
A barreira da permanência. Acesso não é permanência. Estudantes negros no ensino superior enfrentam com mais frequência a necessidade de trabalhar em paralelo, a falta de condições financeiras para se dedicar exclusivamente aos estudos, e ambientes que podem ser hostis ou indiferentes às suas experiências. Isso afeta o desempenho e a continuidade.
A pós-graduação como filtro adicional. Mesmo entre os que concluem a graduação, a passagem para o mestrado e o doutorado implica novos filtros: seleção por currículo, redes de indicação, acesso a financiamento. Em cada um desses filtros, as desigualdades prévias se acumulam.
A solidão na academia branca. Pesquisadores negros em programas predominantemente brancos descrevem experiências de isolamento, de ter que provar competência com mais frequência do que os colegas brancos, de sentir que não pertencem ao espaço. Esse custo emocional e psicológico é real e tem efeito sobre a trajetória.
A dupla jornada de gênero. Para as mulheres negras, soma-se ao racismo o sexismo institucional que discutimos quando falamos de teto de vidro. A intersecção cria um conjunto de barreiras que é mais do que a soma das partes.
O que dizem os dados disponíveis
Dados precisos e desagregados sobre raça na pós-graduação brasileira são ainda limitados. O Censo da Educação Superior do INEP coletou dados de cor/raça de docentes de forma consistente apenas nos últimos anos, e a série histórica é curta.
O que os dados disponíveis mostram é consistente com o que a observação qualitativa indica: a representação de pretos e pardos entre docentes do ensino superior é significativamente menor do que na população. Entre mulheres negras especificamente, em posições de docência permanente na pós-graduação, a sub-representação é ainda mais acentuada.
Iniciativas como o banco de dados Comprova, que sistematiza informações sobre diversidade na academia brasileira, e pesquisas de grupos como o Afroatitude têm produzido diagnósticos mais detalhados nos últimos anos. Mas o campo ainda precisa de mais dados desagregados e de séries históricas mais longas para monitorar o impacto de políticas afirmativas.
O que as cotas na pós-graduação mudam (e o que não mudam)
A Resolução CNE/CES nº 1/2019 estabeleceu diretrizes para que programas de pós-graduação implementem ações afirmativas. Desde então, vários programas adotaram cotas para candidatos pretos, pardos e indígenas.
Isso é relevante. Acesso importa. Mas as cotas no acesso resolvem só uma parte do problema.
O que não resolve: a estrutura do ambiente após o ingresso. Um programa com cotas mas sem políticas de permanência, sem rede de apoio para estudantes em situação econômica vulnerável, sem cultura institucional de acolhimento à diversidade, vai atrair pesquisadores negros para um ambiente que vai continuar sendo hostil ou indiferente.
A pesquisa sobre políticas afirmativas no ensino superior indica que as cotas na graduação levaram décadas para começar a produzir efeitos no perfil dos estudantes concluintes. A pós-graduação é mais nova nesse processo. Os efeitos de longo prazo ainda estão por ser observados.
O papel das pesquisadoras negras que já estão lá
Tem um fenômeno importante que acontece quando a representação começa a mudar, mesmo que lentamente: as pesquisadoras negras que chegam às posições de poder tendem a criar espaço para outras.
Não porque haja uma obrigação essencialista de solidariedade de grupo. Mas porque, como discutimos, os grupos mais diversos tendem a selecionar com critérios mais amplos, a enxergar mais tipos de trajectórias como legítimas, a valorizar perguntas de pesquisa que a academia branca historicamente ignorou.
Cada pesquisadora negra que orienta outras, que participa de comissões de seleção, que lidera grupos de pesquisa, que publica em periódicos de alto impacto, está mudando, mesmo que aos poucos, a composição do espaço.
Isso não substitui mudança estrutural. Mas faz parte dela.
O que você pode fazer com essa informação
Se você é pesquisadora negra lendo isso: o que você está vivendo tem nome, tem causas, e não é problema individual seu. A dificuldade de pertencer a esses espaços não é reflexo da sua capacidade. É reflexo de um sistema que não foi construído com você em mente.
Se você é pesquisadora branca lendo isso: essa é uma questão que também te diz respeito. Você ocupa espaço em uma estrutura que se beneficiou historicamente da exclusão de outras pessoas. Isso não é culpa individual, mas implica responsabilidade. O que você faz com o poder que tem no seu espaço?
Se você coordena um programa ou participa de decisões sobre seleção, orientação, financiamento: as decisões individuais importam. Quem você convida? Quem você orienta? Quais trajetórias você considera legítimas?
A invisibilidade nos dados
Tem um aspecto metodológico que também precisa ser discutido: durante muitos anos, a academia brasileira não coletava dados sobre raça de docentes e pesquisadores de forma sistemática. Isso não é neutro.
Quando você não mede, você não enxerga. E quando você não enxerga, o problema não entra na agenda política. A ausência de dados é uma forma de manutenção do status quo.
Nos últimos anos, com a pressão de movimentos sociais e de pesquisadores que estudam desigualdade racial, a coleta de dados sobre raça no sistema de ciência e tecnologia melhorou. O INEP passou a incluir dados de cor/raça no Censo da Educação Superior de forma mais completa. A CAPES e o CNPq começaram a reportar dados sobre distribuição de bolsas por raça.
Isso importa porque só o que é medido pode ser gerenciado. A produção de dados desagregados por raça e gênero é um pré-requisito para políticas eficazes. E é também, por si só, um ato político: colocar no mapa o que antes era invisível.
Conclusão: a ciência precisa de todos os olhares
A diversidade não é um benefício adicional que a ciência pode ou não ter. É uma condição de qualidade.
Uma ciência produzida por um grupo demográfico estreito vai ter pontos cegos proporcionais a esse estreitamento. Ampliar quem produz ciência é ampliar o que a ciência enxerga.
A sub-representação de mulheres negras na pós-graduação brasileira não é fato menor de diversidade e inclusão. É um problema de qualidade do conhecimento que o Brasil produz sobre si mesmo.
Aqui no blog, a conversa sobre quem tem acesso ao espaço acadêmico e em que condições faz parte do que entendemos como posicionamento. Dá uma olhada em outros posts sobre academia, IA e ética para continuar essa discussão.