Marco Teórico vs Referencial Teórico: Diferenças
Marco teórico e referencial teórico são conceitos diferentes com funções distintas na pesquisa. Entenda o que é cada um e quando usar cada termo corretamente.
Uma confusão que aparece mais cedo do que deveria
Vamos lá. Se você está na pós-graduação e chegou até a fase de construir o fundamento teórico da sua pesquisa, provavelmente já ouviu os dois termos: marco teórico e referencial teórico. E provavelmente também ficou confusa sobre qual é qual e se são a mesma coisa.
Não são. E a diferença entre eles tem consequências práticas para como você constrói e apresenta o arcabouço teórico da sua dissertação ou tese.
Esse post explica cada conceito, mostra como se relacionam, e aponta o que costuma confundir mais as pesquisadoras nessa fase.
O que é o marco teórico
Marco teórico é a perspectiva epistemológica ou paradigmática ampla que orienta sua pesquisa. É a grande lente pela qual você enxerga o fenômeno que está estudando.
Quando uma pesquisadora diz que sua pesquisa tem como marco teórico o materialismo histórico dialético, ela está dizendo: as categorias com que analiso a realidade social vêm dessa tradição intelectual. A forma como entendo causalidade, mudança social, relação entre estrutura e sujeito, tudo isso é moldado por esse paradigma.
Outros exemplos de marcos teóricos comuns nas ciências humanas e sociais: a fenomenologia (Husserl, Heidegger, Merleau-Ponty), a hermenêutica, o pós-estruturalismo, a teoria crítica da Escola de Frankfurt, o interacionismo simbólico, o realismo crítico.
O marco teórico responde a uma pergunta filosófica: de que lugar epistemológico você fala? Com que concepção de conhecimento, de realidade, de sujeito?
O que é o referencial teórico
Referencial teórico é o conjunto de autores, obras e conceitos específicos que você mobiliza diretamente para analisar seu objeto de pesquisa. É a instrumentação da perspectiva teórica que você adotou.
Enquanto o marco teórico é amplo e filosófico, o referencial teórico é específico e operacional. Se o marco é a lente, o referencial são as ferramentas de análise que você vai usar com essa lente.
Por exemplo: uma pesquisadora com marco teórico no materialismo histórico dialético pode ter como referencial teórico os conceitos gramscianos de hegemonia e bloco histórico, porque esses conceitos específicos são os que ela vai usar para analisar as relações de poder no seu objeto.
O referencial teórico responde a uma pergunta analítica: que conceitos teóricos específicos você vai usar para interpretar os dados e construir o argumento?
Como os dois se relacionam
O marco teórico orienta a escolha do referencial teórico. Se você adota a fenomenologia como marco, faz sentido que seu referencial teórico inclua autores e conceitos fenomenológicos. Se há incoerência entre o marco e o referencial, a banca vai notar.
Mas isso não é uma relação mecânica. Pesquisas com o mesmo marco teórico podem ter referenciais muito diferentes, dependendo do objeto. O que importa é que os conceitos do referencial sejam compatíveis com os pressupostos do marco.
Uma forma de pensar: o marco teórico sustenta o referencial teórico de forma lógica. Se você precisar justificar por que está usando determinado autor ou conceito, a resposta vai remontar ao marco que adotou.
O que costuma confundir na prática
Há situações que tornam essa distinção mais difícil na prática:
Programas que usam os termos de forma intercambiável. Em algumas áreas e programas, “marco teórico” e “referencial teórico” são usados como sinônimos, referindo-se a tudo que compõe o fundamento teórico da pesquisa. Se seu programa usa assim, não há problema, desde que você saiba o que cada elemento está fazendo no texto.
Pesquisas interdisciplinares. Quando a pesquisa cruza mais de uma tradição teórica, pode ser difícil identificar um único marco. Nesses casos, algumas pesquisadoras trabalham com o conceito de perspectivas teóricas múltiplas, explicitando como cada uma contribui para aspectos distintos da análise.
O risco do “despejo de autores”. Referencial teórico não é uma lista de todos os textos que você leu sobre o tema. É uma seleção dos conceitos que você vai usar. Incluir autores no referencial sem indicar quais conceitos deles você vai mobilizar é um erro comum que enfraquece a coerência teórica da pesquisa.
Como seu programa provavelmente usa esses termos
Uma orientação prática: verifique as dissertações e teses aprovadas recentemente no seu programa. Como os títulos das seções são organizados? Como os autores da área nomeiam essas partes?
A terminologia varia entre áreas do conhecimento. Na Educação, “referencial teórico” é muito comum. Na Psicologia, você vai encontrar bastante “marco teórico”. Em Ciências Sociais, “perspectiva teórica” e “quadro analítico” também aparecem. Adaptar ao vocabulário do seu campo e programa é parte da socialização acadêmica.
O que vale perguntar para a orientadora: “Como o programa espera que eu organize o fundamento teórico? Existe uma distinção entre marco e referencial aqui, ou trabalhamos com um único capítulo teórico?”
O que você deve conseguir explicar
No momento da qualificação ou da defesa, você deve conseguir responder com clareza:
“Qual é o seu marco teórico?” Resposta: o paradigma ou perspectiva epistemológica que orienta toda a pesquisa.
“Quais são os principais conceitos do seu referencial?” Resposta: os conceitos específicos que você vai usar na análise, de quais autores, e como eles se articulam.
“Por que você escolheu esse marco e esse referencial?” Resposta: porque eles são os mais adequados para analisar o seu objeto específico, dada a natureza do fenômeno e das perguntas de pesquisa.
Se você consegue responder essas três perguntas com clareza, a estrutura teórica da sua pesquisa está sólida.
Uma nota sobre o Método V.O.E.
O trabalho de construção teórica, que envolve tanto a definição do marco quanto a seleção e articulação do referencial, é uma das partes mais intelectualmente exigentes da escrita acadêmica. No Método V.O.E., esse processo tem fases específicas: primeiro a leitura exploratória ampla, depois o retorno ao problema de pesquisa, e só então a seleção do que vai compor o referencial.
Tentar definir o referencial teórico antes de ter clareza suficiente sobre o problema de pesquisa costuma gerar um referencial desconectado do que você vai de fato analisar. A ordem importa.
Se você está nessa fase e está travada, talvez o problema não seja o referencial, mas uma definição ainda pouco precisa do seu objeto. Essa é uma hipótese que vale verificar antes de continuar.
Revisão de literatura não é o mesmo que referencial teórico
Um último ponto que aparece com frequência: revisão de literatura e referencial teórico são partes distintas da dissertação, com funções distintas.
A revisão de literatura mapeia o que já foi pesquisado sobre o seu tema. Mostra o estado da arte, identifica lacunas, posiciona sua pesquisa em relação ao que já existe. É descritiva e analítica do campo.
O referencial teórico apresenta os conceitos que você vai usar para analisar. Não é sobre o que outros pesquisaram, mas sobre quais ferramentas teóricas você está adotando.
Misturar as duas coisas num mesmo capítulo é uma estratégia que algumas pesquisadoras adotam (e alguns programas pedem), mas precisa ser feita com clareza interna sobre o que está fazendo cada coisa. A revisão posiciona. O referencial instrumenta.
Essa distinção parece pequena, mas muda a estrutura do texto e a lógica do argumento. Vale ter ela clara antes de começar a escrever o capítulo teórico da sua dissertação.
E se você não tem certeza de qual estrutura seu programa espera: veja as dissertações aprovadas. Pergunte para a orientadora. Não adivinhe.
Qual a diferença que faz para a banca
Por que isso importa além de nomenclatura? Porque a banca, ao avaliar sua dissertação, vai olhar para a coerência interna do texto.
Se você diz que seu marco é a fenomenologia, mas usa categorias de análise marxistas sem explicar a articulação, a banca vai questionar. Se seu referencial teórico apresenta oito autores mas apenas três aparecem na análise, a banca vai perguntar o que os outros cinco fizeram ali.
Coerência teórica não é rigidez. Você pode articular perspectivas teóricas diferentes, e muitas pesquisas de qualidade fazem isso. Mas a articulação precisa ser explicitada. O leitor (e a banca) precisa entender as razões pelas quais você está usando o que está usando.
Quando você tem clareza sobre a distinção entre marco e referencial, é mais fácil manter essa coerência ao longo do texto. Você sabe de onde vem sua perspectiva epistemológica, sabe quais ferramentas conceituais está usando, e sabe por que essas escolhas fazem sentido juntas para o seu objeto específico.
Isso é o que diferencia um capítulo teórico de uma lista de leituras.