LGBTQIA+ na Pós-Graduação: Os Dados Que Não Existem
Pesquisadores LGBTQIA+ na pós-graduação brasileira enfrentam barreiras que a academia mal consegue nomear porque ainda não sabe medir. Uma reflexão necessária.
Antes de Tudo: Uma Questão Sobre Dados
Olha só: quando queremos falar sobre desigualdade de gênero na academia, existem dados. Proporção de mulheres entre doutoras, entre docentes, entre pesquisadoras com bolsa de produtividade. Os números são melhores em alguns campos do que em outros, mas existem. Dá para mostrar uma tabela, uma curva, um gráfico.
Quando queremos falar sobre pesquisadores LGBTQIA+ na pós-graduação brasileira, o problema começa antes de qualquer análise: os dados não existem. A CAPES não coleta informações sobre orientação sexual ou identidade de gênero nos seus registros. O CNPq tampouco. As universidades, na maioria esmagadora, também não.
Como é possível discutir a realidade de um grupo cuja existência as instituições oficialmente não enxergam?
Essa é a questão central deste texto. Não é sobre exigir dados e acabou. É sobre o que significa para as pessoas dessa comunidade que a academia não tenha sequer o instrumento de medi-las.
O Que a Invisibilidade de Dados Produz
Quando uma população não é contada, ela deixa de existir nas políticas. Não dá para formular uma ação afirmativa para pesquisadores LGBTQIA+ se você não sabe quantos são, onde estão, em que áreas, em que fase da carreira, com que distribuição regional.
Não dá para avaliar se uma política de inclusão funcionou se você não tem linha de base. Não dá para argumentar por recursos específicos se não há números que justifiquem a demanda. A ausência de dados não é neutra. Ela mantém o status quo sem precisar de nenhuma decisão ativa de excluir.
Isso é diferente de dizer que as instituições decidiram discriminar pesquisadores LGBTQIA+. É dizer que a estrutura não foi construída com eles em mente. O que, em termos práticos, tem efeitos parecidos com uma decisão de excluir.
O Que a Literatura Internacional Diz
Sem dados brasileiros sistemáticos, olhamos para a literatura internacional. E ela é consistente em apontar que pesquisadores LGBTQIA+ relatam experiências de discriminação, micro agressões e exclusão de redes informais em ambientes acadêmicos em taxas mais altas do que pesquisadores heterossexuais e cisgênero.
Estudos norte-americanos e europeus documentam que pesquisadores LGBTQIA+ frequentemente calculam o custo de visibilidade: quanto de sua identidade revelar em quais contextos profissionais. Congressos com coquetel à noite, ambientes de laboratório com socialização intensa, reuniões de grupo de pesquisa onde a vida pessoal circula como conversa, todos esses espaços exigem uma gestão da visibilidade que não é demandada de pesquisadores heterossexuais e cisgênero.
Esse cálculo tem custo. Cognitivo, emocional, social. E esse custo não aparece em nenhuma métrica de produtividade acadêmica.
A Questão das Redes Informais
Voltamos a um ponto que já apareceu em outro contexto neste blog: as redes informais de poder na academia são parte central de como as carreiras são construídas. Quem convida quem para o projeto, quem indica quem para o cargo, quem circula em quais eventos.
Redes informais são permeadas por afinidade social. Quando os espaços de socialização acadêmica são, informal mas efetivamente, hostis a determinadas identidades, a exclusão das redes não precisa ser declarada para acontecer.
Um pesquisador que evita determinados congressos porque já viveu situações de discriminação neles. Uma pesquisadora trans que não sabe como o orientador vai reagir ao seu processo de transição no meio do doutorado. Um doutorando que oculta sua família homoafetiva nos contextos onde julga que a visibilidade pode afetar sua avaliação.
Essas situações acontecem. E acontecem sem que nenhum regulamento as proíba, sem que nenhuma política as incentive, e sem que os dados existam para mostrar o quanto são comuns.
A Questão da Área do Conhecimento
Há uma variação importante dentro desse cenário que vale nomear: a experiência de um pesquisador LGBTQIA+ varia muito dependendo da área do conhecimento.
Em alguns campos das humanidades, das ciências sociais e das artes, há maior abertura histórica para discussão de diversidade e mais pesquisadores abertamente LGBTQIA+ em posições visíveis. O ambiente, sem ser perfeito, tende a ser menos hostil.
Em algumas áreas das ciências exatas, das engenharias e das ciências da saúde, a cultura de trabalho mais técnica, menos reflexiva sobre suas próprias práticas sociais, tende a criar ambientes onde as identidades são menos discutidas e as microagressões são menos nomeadas como tal.
Isso não é uma regra absoluta. Há laboratórios de bioquímica radicalmente inclusivos e departamentos de letras com dinâmicas conservadoras. Mas a área do conhecimento é uma variável relevante quando pensamos em que tipo de suporte um pesquisador vai encontrar, se sua identidade vai ser um tema que pode circular abertamente ou algo que precisa ser gerenciado.
O Argumento do “Isso Não Acontece Aqui”
Quando esse tipo de discussão chega às instituições, uma resposta comum é “isso não acontece aqui, somos uma universidade inclusiva, respeitamos a diversidade.”
O problema desse argumento é que ele depende de que as pessoas que vivem as experiências de discriminação as reportem. E elas frequentemente não reportam, porque os canais de denúncia não existem ou não oferecem proteção real, porque o custo de denunciar pode ser o da relação com o orientador ou com o laboratório, porque a estrutura de poder está muito próxima do problema.
A ausência de denúncias não é evidência de ausência de problema. Às vezes é evidência de que o ambiente torna as denúncias custosas demais.
Pesquisar Sobre Si Mesmo: Um Dilema Específico
Há um grupo dentro do grupo que merece atenção própria: os pesquisadores LGBTQIA+ que estudam temas diretamente relacionados às suas identidades. Pesquisadores que fazem dissertações e teses sobre diversidade sexual, sobre famílias homoafetivas, sobre saúde LGBTQIA+, sobre movimento social.
Esses pesquisadores vivem um paradoxo. Ao mesmo tempo em que têm posição privilegiada de insider para pesquisar aquelas realidades, estão mais expostos a questionamentos sobre a legitimidade da pesquisa. “Você está pesquisando isso porque você mesmo é gay?” é uma pergunta que não seria feita a um pesquisador heterossexual estudando heterossexualidade.
A objetividade exigida de pesquisadores LGBTQIA+ que pesquisam suas próprias comunidades costuma ser de uma ordem diferente da objetividade exigida de pesquisadores do grupo dominante que pesquisam seus próprios contextos. Isso também é um viés estrutural. Também é invisível para quem não está sujeito a ele.
O Que Isso Tem a Ver Com Qualidade da Ciência
Pesquisa de qualidade inclui pesquisadores capazes de trazer perspectivas diversas. Quando determinadas identidades são sistematicamente excluídas ou invisibilizadas no processo científico, as perguntas que não são feitas se acumulam.
Que campos de pesquisa ficam sub-representados porque os pesquisadores que os praticariam preferiram sair da academia? Que metodologias nunca foram questionadas porque os pesquisadores que as questionariam não conseguiram avançar na carreira? Que populações continuam sub-estudadas porque os pesquisadores mais próximos dessas realidades não tinham as condições de chegar ao doutorado ou de nele permanecer?
Não consigo responder essas perguntas com dados, porque os dados não existem. Mas a pergunta, por si só, já revela algo sobre a estrutura.
Uma Posição Sobre o Que Precisa Mudar
Vou ser direta: acho que as instituições de ensino superior e os órgãos de fomento à pesquisa no Brasil precisam começar a coletar dados sobre diversidade de orientação sexual e identidade de gênero na pós-graduação e na carreira docente, de forma voluntária, com garantias claras de confidencialidade e sem uso punitivo das informações.
Acho que os programas de pós-graduação precisam incluir explicitamente a proteção de pesquisadores LGBTQIA+ em suas normas de convivência, não como decoração de documento, mas com mecanismos reais de denúncia e com responsabilização efetiva.
E acho que vale nomeie o problema quando existe, mesmo sem dados perfeitos para embasar a nomeação. A exigência de dados perfeitos para discutir uma questão é, às vezes, ela mesma uma forma de adiar a discussão indefinidamente.
Os dados que não existem precisam ser criados. Enquanto isso, a realidade das pessoas continua existindo, com ou sem planilha.
Se você quer pensar mais sobre estrutura acadêmica, representação e o que está por trás das normas da pós-graduação, explore os recursos disponíveis e a página sobre o trabalho desenvolvido aqui.