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Impacto Social da Pesquisa: A CAPES Agora Cobra

A CAPES passou a exigir impacto social dos programas de pós-graduação. Mas o que isso significa na prática e o que muda para pesquisadores?

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A academia não opera num vácuo

Olha só: durante décadas, a lógica dominante da pós-graduação brasileira foi simples. Produza artigos em revistas qualificadas, aumente o fator de impacto, suba no Qualis. O resto era considerado periférico.

Isso está mudando. Não de forma revolucionária e imediata, mas de forma real o suficiente para quem está dentro do sistema.

A CAPES, que define os critérios de avaliação dos programas de pós-graduação no Brasil, passou a incorporar indicadores de impacto social em suas avaliações. Programas que antes eram medidos quase exclusivamente pela quantidade e qualidade de publicações passaram a ser cobrados por outro tipo de contribuição.

Este post não é sobre defender ou criticar essa mudança. É sobre entender o que ela significa de fato e o que muda para pesquisadoras no dia a dia.

O que mudou na avaliação da CAPES

A avaliação quadrienal da CAPES organiza os programas em critérios específicos que incluem corpo discente, produção intelectual, inserção social e internacionalização, entre outros.

A inserção social sempre esteve presente, mas ganhou peso diferente nas avaliações mais recentes. O que a CAPES chama de impacto social não é um conceito único, mas um conjunto de evidências que mostram que um programa contribui com algo além das fronteiras acadêmicas.

Isso pode ser: produção de conhecimento que subsidia políticas públicas, desenvolvimento de tecnologias com aplicação social, formação de profissionais que atuam em áreas de necessidade coletiva, articulação com organizações comunitárias ou governamentais, publicações de acesso aberto que chegam a um público mais amplo.

O ponto central é que a academia passou a ser questionada sobre sua relevância além de si mesma. E essa pergunta tem mais peso institucional do que tinha antes.

Por que isso é mais complicado do que parece

A ideia de que pesquisa deve ter impacto social parece razoável à primeira vista. Quem poderia ser contra? Mas quando você começa a operacionalizar esse conceito, surgem problemas sérios.

O problema da mensuração. Como você mede que sua pesquisa influenciou uma política pública? Que seu artigo chegou a um gestor que tomou uma decisão diferente por causa dele? Essas cadeias causais são longas e difusas. As métricas disponíveis hoje capturam mal esses processos.

O problema do prazo. Pesquisa básica pode ter impacto enorme, mas em décadas, não em quatro anos. A avaliação quadrienal é, por definição, de curto prazo. Isso cria pressão para tipos de pesquisa cujo impacto é mais imediato e mensurável, potencialmente em detrimento de trabalhos de longo prazo e alta relevância futura.

O problema da desigualdade temática. Pesquisa sobre saneamento básico em comunidades periféricas tem impacto social mais visível do que pesquisa sobre literatura medieval ou física de altas energias. Isso não significa que a segunda é menos importante. Mas, dentro de um sistema de incentivos que valoriza o impacto social demonstrável, pesquisas de algumas áreas ficam sistematicamente em desvantagem.

O problema do uso político. Quem define o que é “relevante” para a sociedade? Esse critério pode ser distorcido para privilegiar pesquisas alinhadas com agendas políticas específicas em detrimento de pesquisa crítica e independente. A autonomia universitária é um bem que não deve ser comprometido em nome de relevância social de curto prazo.

O que funciona e o que não funciona nesse debate

Há uma tensão real aqui que vale reconhecer.

Por um lado, a crítica de que a academia produz conhecimento que fica trancado em revistas pagas, escritas em inglês, acessíveis a poucos, tem substância. Existe uma distância entre o que é produzido em laboratórios e departamentos e o que chega à vida das pessoas. Reduzir essa distância tem valor.

Por outro lado, a cobrança de impacto social como critério de avaliação institucional cria perversos incentivos. Pode levar pesquisadores a comunicar resultados prematuros como se fossem conclusivos, para ganhar visibilidade. Pode levar programas a priorizar projetos com parceiros industriais em detrimento de pesquisa crítica. Pode transformar a ciência em assessoria, o que não é ciência.

Não é preciso escolher um lado como se houvesse apenas dois. Pesquisa pode ter relevância social sem precisar de um critério de avaliação simplificador. E os critérios de avaliação podem ser melhorados para capturar formas de contribuição que o modelo atual não enxerga.

O que muda para você como pesquisadora

Na prática, essa cobrança da CAPES se manifesta de algumas formas que afetam quem está dentro dos programas:

Orientadores e coordenadores de programa passaram a valorizar atividades que antes eram vistas como extracurriculares. Você fez uma consultoria para uma secretaria municipal? Apresentou resultados de pesquisa para gestores? Contribuiu com um relatório técnico? Essas ações passaram a ter visibilidade institucional diferente.

Publicações de acesso aberto ganharam relevância estratégica, porque são um caminho para demonstrar alcance além da academia. O número de downloads, citações em documentos de política e menções em mídia passaram a interessar como indicadores.

A articulação de projetos com parceiros externos, que antes era algo que dependia do interesse individual do pesquisador, passou a ser incentivada institucionalmente.

Isso não significa que você precisa abandonar sua pesquisa básica para fazer assessoria. Mas significa que saber comunicar o valor do seu trabalho para públicos fora da academia se tornou uma competência que conta.

Comunicar pesquisa não é simplificar pesquisa

Aqui vai algo que eu acho importante dizer: comunicar pesquisa para públicos amplos não é a mesma coisa que simplificar ou vulgarizar a pesquisa.

É possível falar sobre achados de pesquisa com clareza e acessibilidade sem perder o rigor. É possível escrever um texto para leigos que não trai as nuances do trabalho. É possível participar de um debate público sobre uma questão que sua pesquisa aborda sem abrir mão da incerteza e da complexidade que são próprias da ciência.

O que muda é a linguagem, não o conteúdo. E desenvolver essa capacidade é parte do que torna um pesquisador relevante em múltiplos contextos.

Uma leitura honesta do momento

Minha leitura do que está acontecendo é esta: a pressão por impacto social é um sinal de que a academia precisa se relacionar com o mundo de forma mais explícita. Isso tem partes legítimas e partes problemáticas.

As partes legítimas: universidades são financiadas com recursos públicos e têm uma responsabilidade com a sociedade que as sustenta. A ciência não pode viver completamente alheia ao mundo que a circunda. Comunicar resultados, engajar com comunidades e contribuir com políticas são atividades que fazem sentido.

As partes problemáticas: métricas de impacto social mal desenhadas podem distorcer incentivos, prejudicar pesquisa básica, e abrir espaço para interferência política na definição do que conta como relevante. Isso é sério.

O caminho não é ignorar essa tensão. É participar do debate sobre como ela deve ser resolvida. Pesquisadoras têm voz nesse processo, dentro dos programas, nas associações científicas, nos conselhos de área.

Pesquisa que importa

Existe uma pergunta que vale fazer sobre qualquer trabalho de pesquisa: a quem isso serve? Não como critério exclusivo de validade, mas como reflexão necessária.

Você não precisa ter uma resposta imediata e clara para cada projeto. Pesquisa exploratória existe porque não sabemos de antemão onde vamos chegar. Mas ao longo da trajetória, saber para que serve o que você produz é uma fonte de clareza, de motivação e de capacidade de comunicar o valor do trabalho.

E saber comunicar esse valor, para diferentes públicos, com diferentes linguagens, é uma habilidade que a academia passou a cobrar mais explicitamente e que faz sentido cultivar independentemente da pressão institucional.

Se você quiser pensar sobre como estruturar sua trajetória de pesquisa e comunicação acadêmica, o Método V.O.E. pode ser um ponto de partida, e há mais recursos sobre carreira acadêmica em /recursos.

Perguntas frequentes

O que a CAPES considera como impacto social de uma pesquisa?
A CAPES avalia impacto social como a capacidade de uma pesquisa ou programa de gerar resultados que beneficiem a sociedade além do ambiente acadêmico. Isso inclui contribuições para políticas públicas, transferência de tecnologia, inovação, formação de recursos humanos com aplicação social e engajamento com comunidades e organizações externas.
Como a cobrança de impacto social mudou a avaliação dos programas de pós-graduação?
A partir das mudanças nos critérios de avaliação quadrienal, a CAPES incorporou indicadores de impacto social e econômico como parte da avaliação dos programas. Programas que antes eram avaliados quase exclusivamente pela produção bibliográfica passaram a precisar demonstrar outros tipos de contribuição.
O que um pesquisador individual pode fazer para demonstrar impacto social do seu trabalho?
As ações possíveis incluem publicar em revistas de acesso aberto, comunicar resultados em linguagem acessível para o público geral, participar de audiências públicas ou consultas sobre políticas, colaborar com organizações da sociedade civil, e registrar patentes ou desenvolver produtos derivados da pesquisa.
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