Por que pesquisadores brasileiros estão indo embora
Pesquisadores brasileiros estão deixando o país em número crescente. O que está por trás dessa saída e o que isso significa para a ciência nacional.
Uma saída que não é novidade, mas está acelerando
Vamos lá. A evasão de pesquisadores brasileiros para outros países não é um fenômeno novo. O que é novo, ou pelo menos mais visível nos últimos anos, é a percepção de que não se trata mais só de casos isolados de pesquisadores brilhantes que buscam laboratórios de excelência lá fora. É um fluxo constante, que inclui perfis diversos, e que as pessoas do campo científico reconhecem como tendência preocupante.
Não estou falando de números precisos aqui porque os dados sobre evasão de pesquisadores são fragmentados, difíceis de rastrear, e variam muito dependendo da fonte e metodologia. O que tenho são relatos, que se acumulam, de pessoas que formaram com anos de bolsa pública, desenvolveram expertise em universidades brasileiras, e hoje trabalham em Portugal, na Alemanha, nos Estados Unidos, no Canadá.
Isso importa. E não estou convicta de que estamos sendo honestos sobre o porquê.
O que as pessoas dizem quando partem
Quando converso com pesquisadores que saíram ou que estão considerando sair, as razões raramente envolvem “quero ganhar dinheiro”. Quase sempre envolvem condições de trabalho.
“Não consigo fazer a pesquisa que quero fazer aqui.” Isso aparece muito. Falta de equipamentos, falta de insumos, burocracia para importar reagentes ou softwares, grupos de pesquisa que funcionam com recursos insuficientes ou erráticos.
“A instabilidade é insustentável.” Bolsas que foram cortadas, editais que não saíram, programas que foram descontinuados sem aviso. Fazer planejamento de carreira ou de pesquisa quando as regras mudam com cada governo é exaustivo.
“Não tenho como manter uma família com esse salário.” Professores universitários e pesquisadores de carreira no Brasil ganham significativamente menos do que equivalentes em países com economias comparáveis. E a defasagem foi aprofundada nos últimos anos.
“Fui bem recebido lá fora.” Isso é importante de dizer: muitos pesquisadores brasileiros são competitivos internacionalmente. A formação aqui, apesar de tudo, produz ciência de qualidade. O problema não é a capacidade das pessoas, é o ambiente que não sustenta esse talento.
O que o país perde quando um pesquisador vai embora
Existe uma falácia que aparece às vezes nas discussões sobre esse tema: a de que “ciência é global” e que um pesquisador brasileiro fazendo pesquisa na Alemanha ainda contribui para o conhecimento humano. Isso é verdade em parte, mas ignora o que o Brasil especificamente perde.
Cada pesquisador que vai embora leva junto anos de formação financiados com dinheiro público. Leva junto redes de colaboração que poderiam ter ficado no país. Leva junto a possibilidade de orientar a próxima geração de pesquisadores brasileiros.
Grupos de pesquisa levam tempo para se consolidar. Quando um pesquisador sênior parte, o grupo pode simplesmente deixar de existir como núcleo coeso. Isso é uma perda que não aparece em nenhuma linha de planilha orçamentária, mas que tem impacto real na capacidade científica do país a médio prazo.
Há também um efeito simbólico. Quando jovens pesquisadores veem que pesquisadores mais experientes não conseguem construir uma carreira sustentável no Brasil, o cálculo sobre se vale começar essa trajetória aqui muda. A fuga de cérebros alimenta a si própria.
O que não estamos dizendo claramente
Olha só: tem uma conversa que não está sendo feita com a honestidade necessária, nem nas políticas públicas, nem nas universidades, nem nas associações científicas.
A academia brasileira, em muitos dos seus aspectos, não está adaptada para manter pesquisadores com as condições mínimas para uma vida sustentável. Os salários do magistério superior não foram atualizados de forma compatível com a inflação e com o custo de vida nas cidades onde estão as principais universidades. Os valores das bolsas de pós-graduação ficaram muito abaixo do que permitem um nível de vida digno.
E ao mesmo tempo em que isso acontece, exige-se do pesquisador um volume de produção crescente: publicações, captação de recursos, orientação, ensino, extensão, cargos administrativos. O produtivismo acadêmico não diminuiu; os recursos para sustentá-lo, sim.
Não estou dizendo que isso é uma conspiração. Estou dizendo que é o resultado de décadas de escolhas sobre onde alocar recursos públicos, e de uma narrativa que romantiza o pesquisador como alguém que faz ciência “por amor” e portanto não precisa de condições materiais adequadas.
Essa narrativa é falsa. E o custo dela é a evasão que estamos vendo.
O que mudaria as coisas
Não tenho uma fórmula mágica, mas algumas coisas são razoavelmente claras.
Financiamento estável e previsível importa mais do que grandes anúncios pontuais. Pesquisa se faz a médio e longo prazo. Um edital grandioso seguido de cortes no ano seguinte não constrói ciência; cria frustração.
Revisão real dos valores de bolsas e salários. Não ajuste cosmético: revisão que leve em conta o custo de vida real e que reposicione a carreira científica como uma opção profissional sustentável.
Desburocratização da gestão de projetos. Parte do tempo que pesquisadores deveriam dedicar à pesquisa é consumido em prestações de contas, processos de compra que demoram meses, e regras que parecem projetadas para dificultar o trabalho, não para garantir transparência.
Políticas de ciência que atravessem governos. Isso é difícil, mas é o que permite que grupos de pesquisa existam por décadas, que orientadores formem gerações, que a ciência brasileira construa identidade e acumulação de conhecimento.
Minha posição
Acho que precisamos parar de tratar a saída de pesquisadores como uma fatalidade ou como uma escolha individual que diz algo sobre o comprometimento das pessoas com o país.
Pesquisadores saem porque as condições para ficar são inadequadas. E ficamos quando as condições permitem.
Isso não é traição. É uma resposta racional a um ambiente que não sustenta o trabalho que queremos fazer. E enquanto não nomearmos isso com clareza, as conversas sobre “valorizar a ciência brasileira” vão continuar sendo mais retórica do que política pública.
Para quem está na pós-graduação agora: você não precisa ter uma resposta pronta sobre se vai ficar ou sair. Mas mereça fazer essa escolha com base em condições reais, não em culpa ou em romantização. A ciência brasileira precisa de pesquisadores comprometidos e, para isso, precisa ser um lugar onde vale a pena estar.
O que você pode fazer enquanto pesquisador em formação
Diante de um cenário estrutural tão complexo, é natural se sentir paralisado ou impotente. Mas há algumas coisas que estão dentro do seu alcance.
Construa redes de colaboração internacionais sem necessariamente abandonar o Brasil. O doutorado sanduíche, intercâmbios, coautorias com pesquisadores de outros países: tudo isso amplia suas opções de carreira sem fechar a porta de voltar. Muitos pesquisadores formam vínculos lá fora e voltam quando surgem condições melhores.
Participe das associações e fóruns que discutem política científica. A ANPG (Associação Nacional de Pós-Graduandos) e as associações de área específica têm papel importante nas negociações com CAPES e CNPq sobre valores de bolsas e condições da pós-graduação. Não é ingenuidade: é parte de como políticas se transformam.
Não abandone o registro da sua trajetória. Lattes atualizado, ORCID completo, publicações acessíveis. Isso não serve só para o mercado de trabalho; serve para mostrar o que a ciência brasileira produz mesmo com os recursos que tem. É evidência.
E fale sobre isso. Com colegas, com orientadores, nas redes sociais quando fizer sentido. A cultura de que o sofrimento acadêmico é privado e individual é parte do problema. Quando mais pesquisadores nomeiam as condições em que trabalham, fica mais difícil fingir que tudo está bem.
Não estou dizendo que isso resolve o problema estrutural. Estou dizendo que esperar em silêncio por condições melhores também não resolve. E que sua voz, junto com a de outros, faz diferença ao longo do tempo.
A pergunta “você vai ficar ou vai embora?” merece uma resposta baseada em informação real e em condições reais. Não em romantização de quem fica nem em glorificação de quem parte.