Método

Como escrever artigo científico em inglês: guia prático

Guia para pesquisadores brasileiros que precisam escrever artigos científicos em inglês: estrutura, vocabulary acadêmico, recursos e erros comuns.

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O inglês que a ciência pede não é o inglês do cotidiano

Vamos lá. Quando pesquisadores brasileiros dizem que têm dificuldade para escrever em inglês acadêmico, o problema raramente é que não sabem inglês. O problema, na maioria dos casos, é que o inglês científico é um dialeto próprio, com convenções específicas que não são ensinadas em cursos de inglês gerais e que você só aprende lendo muito e escrevendo muito nesse contexto.

Um pesquisador com nível intermediário de inglês mas muita leitura de artigos científicos na área geralmente escreve melhor em inglês acadêmico do que alguém com nível avançado de inglês geral mas pouca exposição a esse tipo de texto.

A boa notícia é que o inglês científico tem padrões previsíveis. Isso pode parecer limitante, mas na prática é uma ajuda: você pode estudar como os artigos do seu campo são escritos e adaptar esses padrões ao seu próprio texto.

Entender a estrutura antes de escrever

O artigo científico em inglês segue, na maioria das áreas, uma estrutura que tem o nome de IMRAD: Introduction, Methods, Results, and Discussion. Com abstract antes e referências depois.

Cada seção tem uma função específica e uma lógica interna própria.

Abstract

O abstract é escrito por último, mas lido primeiro. Em muitos casos, é a única parte que o revisor ou leitor vai ler antes de decidir se continua. Ele deve, em geralmente 150 a 300 palavras, responder: qual o problema, como você investigou, o que encontrou e o que isso significa.

Abstracts em inglês científico tendem a ser mais diretos e menos retóricos do que os que pesquisadores brasileiros costumam escrever. Menos contexto histórico, mais afirmação direta do problema e do resultado.

Introduction

A introdução em inglês científico segue um padrão que o linguista John Swales descreveu como CARS (Create a Research Space): você estabelece o território (o que se sabe sobre o tema), identifica a lacuna (o que ainda não se sabe ou o que está em disputa), e ocupa a lacuna (anuncia como seu artigo preenche esse espaço).

Essa estrutura é amplamente usada em artigos de ciências da vida, saúde e ciências sociais. Se você ler a introdução dos artigos do periódico onde quer publicar, vai reconhecer esse padrão repetido.

Methods

A seção de métodos deve ser suficientemente detalhada para que outro pesquisador possa replicar seu estudo. Em inglês, o tempo verbal mais comum nessa seção é o passado simples (past simple): “We recruited 45 participants…”, “Participants completed the questionnaire…”.

Um erro frequente de pesquisadores brasileiros é misturar tempos verbais nessa seção. Escolha o padrão do periódico onde quer publicar e seja consistente.

Results

Apresente os resultados sem interpretação. A interpretação fica na discussão. Essa separação é mais rígida em inglês científico do que costuma ser em artigos em português.

Use gráficos e tabelas com legendas claras. As legendas em inglês científico são geralmente mais longas e descritivas do que em português, incluindo informações suficientes para que o leitor entenda a figura sem precisar ler o texto.

Discussion

Aqui você interpreta os resultados, relaciona com a literatura existente, aponta limitações e indica implicações. A discussão é onde a sua voz como pesquisador aparece mais claramente, e é também onde a qualidade do inglês importa mais, porque você precisa construir argumentos matizados.

Vocabulário: como aprender o que realmente usar

Existe um banco de expressões de escrita acadêmica em inglês que é uma das melhores ferramentas gratuitas disponíveis: o Academic Phrasebank da Universidade de Manchester (phrasebank.manchester.ac.uk).

Ele organiza expressões por função: como introduzir um tema, como descrever métodos, como apresentar resultados, como discutir implicações, como admitir limitações. É baseado em como pesquisadores reais escrevem em inglês acadêmico, não em inglês idealizado.

Ao invés de memorizar listas de palavras, leia os artigos da sua área e crie seu próprio banco de expressões. Quando você encontrar uma forma de dizer algo que você queria dizer mas não sabia como, copie a expressão para um arquivo pessoal. Com o tempo, esse banco cresce e fica mais rico que qualquer lista pronta.

Alguns padrões frequentes que valem atenção:

Para apresentar o que a literatura sabe: “Previous studies have shown that…”, “A growing body of evidence suggests…”, “Research has consistently demonstrated…”

Para identificar lacunas: “However, little attention has been paid to…”, “To date, no study has examined…”, “This question remains poorly understood.”

Para descrever o que você fez: “This study aimed to…”, “We conducted…”, “Data were analyzed using…”

Para apresentar resultados: “The results indicate…”, “We found that…”, “A significant difference was observed between…”

Para discutir implicações: “These findings suggest…”, “This may be explained by…”, “The implications of these results are…”

Erros comuns de pesquisadores brasileiros em inglês científico

Alguns padrões que aparecem com frequência nos artigos de pesquisadores não nativos.

Tradução literal de estruturas do português. “Despite of” em vez de “Despite”. “In function of” em vez de “Based on” ou “As a function of”. “In according to” em vez de “According to”. Essas construções delatam a influência do português e podem dificultar a compreensão.

Uso inconsistente de “the” e ausência onde deveria estar. O artigo definido em inglês funciona de forma diferente do português. Seu uso é um dos pontos mais difíceis do inglês para falantes de línguas românicas. A regra geral: “the” é usado quando tanto o escritor quanto o leitor sabem a qual entidade específica estão se referindo.

Frases muito longas com muitas orações subordinadas. O inglês acadêmico, especialmente nas áreas de ciências exatas e da saúde, tende a frases mais curtas e estruturas mais diretas do que o português acadêmico. Frases longas são mais difíceis de processar para leitores não nativos que estão sendo seus revisores.

Mistura de inglês britânico e americano. Escolha uma variante e seja consistente. Se o periódico é americano, use grafia americana (“analyze”, não “analyse”). Se é britânico, o oposto. Verificar a política do periódico resolve isso.

Ferramentas de revisão linguística: o que funciona

Grammarly é a ferramenta mais conhecida para revisão de inglês. Identifica erros gramaticais, sugere melhorias de estilo e tem um modo específico para inglês acadêmico. A versão gratuita já é útil; a versão paga tem recursos mais avançados.

DeepL tem uma função de escrita (DeepL Write) que sugere reformulações de frases em inglês. É útil quando você sabe que a frase está estranha mas não sabe exatamente como melhorá-la.

Writefull foi desenvolvido especificamente para escrita acadêmica e usa bancos de dados de artigos científicos para sugerir linguagem. Tem integração com editores de texto como Word e Overleaf.

Todas essas ferramentas têm limitações: elas não entendem o conteúdo científico do que você está escrevendo, então podem sugerir mudanças que alteram o significado técnico de uma afirmação. Revise com cuidado qualquer sugestão antes de aceitar.

A revisão por um profissional: quando vale

Para artigos que você vai submeter a periódicos de alto impacto, considerar a revisão linguística por um falante nativo ou profissional de edição científica é um investimento com retorno real.

Muitos periódicos internacionais recomendam explicitamente revisão linguística profissional para autores não nativos. Alguns até oferecem esse serviço (geralmente pago). Existem também empresas especializadas em edição de manuscritos científicos que podem revisar o inglês sem tocar no conteúdo.

O custo existe, mas precisa ser pesado contra o custo de ter um artigo rejeitado por problemas de linguagem ou adiado para uma rodada extra de revisão por esse motivo.

Inglês científico é uma habilidade que se desenvolve

A última coisa que vale dizer é a mais importante: escrever em inglês científico é uma habilidade, não um dom ou uma questão de nível de inglês geral.

Pesquisadores que publicam consistentemente em inglês melhoram com cada artigo que escrevem. Os que leem muito em inglês científico constroem um repertório que facilita a escrita. Os que solicitam feedback dos revisores sobre a linguagem (não só sobre o conteúdo) aprendem com os pareceres.

O caminho não é ter inglês perfeito antes de começar. É começar, aceitar que o texto inicial vai ser imperfeito, usar as ferramentas disponíveis, pedir revisão quando necessário, e melhorar progressivamente.

Seu contribuição científica não é menos válida porque você não é falante nativo de inglês. O trabalho é tornar essa contribuição acessível a quem precisa

Perguntas frequentes

Meu inglês precisa ser perfeito para publicar em periódico internacional?
Não perfeito, mas precisa ser claro e correto o suficiente para que a mensagem científica seja compreendida sem ambiguidade. Erros gramaticais menores raramente impedem a publicação se o conteúdo científico é sólido, mas problemas sérios de clareza ou precisão linguística podem motivar os revisores a recomendar revisão linguística antes da publicação. Usar ferramentas de revisão e, se possível, ter o texto revisado por um falante nativo ou profissional de edição científica ajuda muito.
Como aprender vocabulário científico em inglês de forma eficiente?
A forma mais eficiente é ler muito na sua área, especialmente artigos dos periódicos onde você quer publicar. O vocabulário científico do inglês acadêmico é bastante padronizado por área: as mesmas expressões aparecem repetidamente. Identificar e catalogar essas expressões nos textos que você lê é mais eficiente do que estudar listas genéricas de vocabulário acadêmico.
Quais ferramentas ajudam a escrever em inglês científico?
Algumas ferramentas úteis: Grammarly (revisão gramatical e estilística), DeepL Write (sugestões de reescrita em inglês), Academic Phrasebank da Universidade de Manchester (banco de expressões para escrita acadêmica, gratuito), e Writefull (desenvolvido especificamente para escrita acadêmica em inglês). Nenhuma substitui a leitura intensa de artigos da sua área.
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