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Epistemicídio: o Saber que a Academia Apagou

O que é epistemicídio, por que esse conceito importa para pesquisadoras brasileiras e como a academia sistematicamente apaga saberes de grupos marginalizados.

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Um conceito que incomoda por uma razão

Olha só: quando eu falo em epistemicídio em espaços acadêmicos tradicionais, a reação costuma ser de dois tipos. Um grupo entende imediatamente e quer aprofundar. O outro se desconforta, acha que é política demais para dentro da ciência, ou simplesmente não reconhece o fenômeno que o conceito nomeia.

Esse desconforto diz algo.

Epistemicídio é um conceito pesado porque nomeia um processo pesado: a destruição sistemática de formas de conhecer o mundo que não se encaixam no modelo hegemônico de ciência. É sobre o que foi apagado, sobre quem não aparece nos livros, sobre que perguntas nunca chegaram a ser feitas porque as pessoas que as fariam não tinham acesso aos espaços de produção de conhecimento.

Para pesquisadoras no Brasil, especialmente pesquisadoras negras, indígenas, periféricas ou que trabalham com populações marginalizadas, isso não é abstrato. É cotidiano.

De onde vem o conceito

O termo epistemicídio foi introduzido pelo sociólogo e filósofo português Boaventura de Sousa Santos, que o utilizou para descrever o processo colonial de destruição dos saberes dos povos colonizados como parte da dominação política. Não bastava dominar os corpos e os territórios: era necessário dominar o modo como os colonizados compreendiam o mundo, a natureza, o humano, o sagrado.

No contexto brasileiro, a intelectual e ativista Sueli Carneiro aprofundou e ressignificou o conceito a partir da perspectiva do racismo estrutural. Em seu trabalho, epistemicídio é o processo pelo qual a imposição do padrão branco europeu como norma de humanidade nega à população negra a condição de sujeito de conhecimento. Não é só que as pessoas negras foram excluídas dos espaços acadêmicos. É que, mesmo quando presentes, seus saberes e perspectivas foram sistematicamente tratados como menos válidos, menos rigorosos, menos científicos.

Essas contribuições diferentes, Santos e Carneiro, apontam para dimensões diferentes do mesmo problema: o sistema de produção de conhecimento não é neutro em relação a quem produz, de onde produz e em que língua produz.

O que foi apagado e como

O epistemicídio na história brasileira tem formas concretas.

Saberes indígenas sobre ecologia, medicina, gestão territorial, astronomia: durante séculos foram tratados como superstição ou primitivismos, enquanto a “ciência” europeia os coletava, às vezes sem nenhuma atribuição, e construía seu próprio conhecimento sobre eles. A biodiversidade da Amazônia foi catalogada por botânicos europeus com nomenclaturas latinas. Os nomes que os povos originários davam a essas plantas raramente sobreviveram na literatura científica.

Saberes das mulheres sobre saúde, parto e cura: parteiras, curandeiras, benzedeiras acumularam durante gerações um conhecimento empírico sobre o corpo, sobre ervas, sobre o processo do nascimento. A medicina acadêmica, dominada por homens até muito recentemente, frequentemente perseguiu ou ignorou esses saberes em vez de dialogar com eles.

Saberes afrodiaspóricos sobre filosofia, espiritualidade, cosmologia: terreiros de candomblé e umbanda preservaram sistemas filosóficos complexos que a academia durante décadas tratou como objeto de estudo antropológico, mas raramente como fonte legítima de pensamento sobre o mundo.

Conhecimento popular em geral: técnicas agrícolas tradicionais, medicina popular, arquitetura vernacular, organização comunitária. Tudo isso representa formas de conhecimento sistemático que não passaram pelo crivo da publicação científica indexada, e que por isso são tratados como inexistentes no mapa do que se sabe.

A academia brasileira hoje

Não estou dizendo que a academia brasileira é imutável. O processo de redemocratização, as políticas de cotas raciais nas universidades públicas, a expansão de programas de pós-graduação para além dos grandes centros, os movimentos de professoras e pesquisadoras negras, indígenas e periféricas: tudo isso mudou algo.

Mas mudou em superfície mais do que em estrutura.

Pesquisadoras negras acessam mais as universidades do que antes. Mas ainda são sub-representadas nos programas de pós-graduação, especialmente nos mais bem avaliados. Ainda são menos citadas. Ainda têm que justificar a legitimidade das suas perguntas de pesquisa de formas que colegas brancas não precisam.

A diversidade de rostos numa sala de aula não muda automaticamente os currículos. As leituras obrigatórias na maioria dos programas ainda são majoritariamente de autores homens, brancos, europeus e norte-americanos. Questionar isso ainda é visto, em muitos contextos, como politização da ciência.

Por que isso importa pra mim como pesquisadora

Aqui está o que eu penso sobre isso.

Se você é pesquisadora no Brasil e trabalha com qualquer questão que envolva populações marginalizadas, saúde coletiva, educação em contextos periféricos, direitos de povos originários, relações raciais, você já está, queira ou não, num campo onde o epistemicídio é parte do contexto da pesquisa.

Ignorar isso não torna a pesquisa mais neutra. Torna ela menos informada sobre os sujeitos com os quais trabalha.

E se você é uma pesquisadora que vem de uma dessas populações, ou que trouxe para a academia perguntas nascidas de experiências que o mainstream acadêmico não reconhecia como perguntas legítimas, então você provavelmente já sentiu alguma versão desse processo na pele, mesmo que não tivesse essa palavra para nomeá-lo.

Nomear é o começo de entender.

O epistemicídio nos currículos acadêmicos

Um teste simples: pegue o currículo de uma disciplina do seu programa de pós-graduação e conte quantas autoras há nas referências. Depois conte quantas são negras, indígenas ou latinoamericanas.

Se o resultado for próximo de zero, você está olhando pra um currículo que reflete uma hierarquia epistemológica muito específica, e que dificilmente questiona a si mesmo.

Isso não é culpa do professor que organizou a disciplina na maioria dos casos. É reprodução de um padrão que funciona por inércia. As referências que aparecem são as que apareciam na disciplina anterior, que vieram das disciplinas da geração anterior de professores, que foram formados numa academia ainda mais excludente do que a atual.

Quebrar esse ciclo exige esforço ativo: buscar autoras que não aparecem nos primeiros resultados de busca, incluir pensadoras que a literatura mainstream não cita, perguntar quem está faltando.

Não é sobre substituir os clássicos por autoras “de cota”. É sobre reconhecer que o cânone acadêmico foi construído por exclusão, e que ampliar as referências enriquece o pensamento, não o enfraquece.

O epistemicídio como tema de pesquisa

Se você trabalha com educação, ciências sociais, saúde coletiva, direito ou qualquer área que lide com desigualdade estrutural, o epistemicídio pode ser um conceito útil para nomear fenômenos que você observa.

Pesquisas sobre como saberes tradicionais são tratados em políticas públicas, sobre como estudantes negros e indígenas experienciam os currículos universitários, sobre como a medicina popular dialoga (ou não) com a saúde formal, sobre como comunidades periféricas constroem conhecimento sobre seus próprios territórios: todas essas pesquisas têm no epistemicídio um referencial analítico potente.

Não como panfleto, mas como categoria explicativa que tem suporte teórico sólido e empírico crescente. Você não está sendo ativista ao usar esse conceito. Está usando uma ferramenta conceitual para entender algo real.

Não é sobre culpa

Quero ser clara sobre isso: o conceito de epistemicídio não é uma acusação dirigida a pesquisadoras individualmente. É uma análise estrutural de como o sistema de produção de conhecimento foi construído e como opera até hoje.

Você pode ser uma pesquisadora branca, formada nas melhores universidades, com toda a boa intenção do mundo, e ainda assim reproduzir inconscientemente as hierarquias epistemológicas que o sistema produziu. Isso não te faz má pessoa. Te faz alguém que está operando num sistema que precisa ser transformado.

E a transformação começa em escolhas pequenas: quem você cita, que autoras você inclui no seu marco teórico, que vozes você convida para o diálogo da sua pesquisa, como você trata o conhecimento dos seus sujeitos de pesquisa quando ele não coincide com o que a teoria diz.

O que a pesquisa pode fazer

Ciência não resolve sozinha o epistemicídio. Mas pesquisadoras fazem escolhas que importam.

Incluir autoras negras, indígenas e latinoamericanas nas referências não é tokenismo. É reconhecer que o campo é mais amplo do que o círculo de citações habitual.

Levar a sério o conhecimento dos sujeitos de pesquisa, não só como dado a ser analisado, mas como perspectiva epistemológica que pode iluminar o problema de pesquisa, é uma postura metodológica com consequências reais.

Perguntar “quem está faltando nessa conversa?” quando você está construindo o referencial teórico é uma pergunta que melhora a pesquisa, não só que a torna politicamente correta.

A ciência que se recusa a examinar suas próprias bases não está sendo mais objetiva. Está sendo menos.

Perguntas frequentes

O que é epistemicídio?
Epistemicídio é o processo de deslegitimação, apagamento ou destruição de formas de conhecimento de grupos subalternizados, especialmente saberes indígenas, africanos, populares e femininos, pela imposição de um modelo hegemônico de ciência. O conceito foi popularizado pelo filósofo Boaventura de Sousa Santos e aprofundado no contexto brasileiro pela intelectual Sueli Carneiro.
Epistemicídio é o mesmo que racismo epistêmico?
São conceitos próximos mas não idênticos. Racismo epistêmico, desenvolvido por Ramón Grosfoguel, enfoca especificamente como a hierarquia racial produz hierarquia de saberes, desqualificando o conhecimento produzido por pessoas negras e não-brancas. Epistemicídio é mais amplo, incluindo também saberes femininos, indígenas e populares de diferentes origens.
Como o epistemicídio se manifesta nas universidades brasileiras hoje?
Manifesta-se na ausência de autoras negras e indígenas nos currículos, na desvalorização de conhecimentos tradicionais como temas 'não científicos', na exigência de que saberes locais sejam validados por teorias estrangeiras para serem levados a sério, e na sub-representação de pesquisadoras negras e indígenas nos programas de pós-graduação.
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