Design Science Research: Pesquisa de Artefatos Explicada
Entenda o que é a Design Science Research, como essa metodologia de pesquisa funciona na prática e quando ela é a escolha mais adequada para dissertações e teses.
Quando a pesquisa constrói coisas
Vamos lá. Existe uma tensão clássica nos programas de pós-graduação brasileiros entre pesquisa básica e pesquisa aplicada. De um lado, a busca pelo conhecimento puro; do outro, a pressão por resultados que gerem impacto imediato. No meio dessa tensão, surge uma metodologia que propõe algo diferente: e se a construção de um artefato útil for, em si, uma forma legítima de produção de conhecimento científico?
Essa é a proposta da Design Science Research (DSR), ou Pesquisa em Design, como alguns autores brasileiros chamam. Ela não é nova, mas ainda é desconhecida de muitos mestrandos que estão em áreas que seriam perfeitamente adequadas para ela.
O que é a Design Science Research
A DSR parte de uma premissa diferente da maioria das metodologias de pesquisa que você provavelmente conhece. Enquanto a pesquisa descritiva busca explicar como as coisas são, e a pesquisa explicativa busca entender por que as coisas são como são, a DSR busca criar algo que deveria existir para resolver um problema que ainda não tem solução adequada.
Esse “algo que deveria existir” é o artefato. Na terminologia da DSR, artefatos podem ser:
- Construtos: conceitos e linguagem para descrever e entender um problema (ex: uma taxonomia nova)
- Modelos: representações que simplificam e organizam um domínio complexo (ex: um modelo de maturidade)
- Métodos: conjuntos de passos e orientações para fazer algo (ex: um protocolo, um guia de boas práticas)
- Instâncias: sistemas ou produtos concretos que implementam uma solução (ex: um software, um sistema de gestão)
- Design theories: teorias prescritivas sobre como construir artefatos para uma classe de problemas
Percebe que o escopo é mais amplo do que parece? Um framework de avaliação, um instrumento diagnóstico, um modelo de gestão, uma proposta curricular, um protocolo de atendimento, todos podem ser artefatos no sentido da DSR.
Por que a DSR é uma contribuição científica
A crítica que pesquisadores mais tradicionais fazem à DSR é: mas criar uma coisa não é engenharia, não é ciência. O argumento da DSR é que a ciência sempre foi também sobre criar: criar experimentos, criar instrumentos de medição, criar modelos teóricos. O que muda é que na DSR a criação do artefato é o objeto central da investigação, não um meio para outro fim.
A contribuição científica da DSR está em dois lugares:
No artefato em si: uma solução que funciona para um problema real e que pode ser generalizada ou adaptada para contextos similares.
No conhecimento sobre como construir: a DSR gera aprendizados sobre o processo de design, sobre o que funcionou e o que não funcionou, sobre quais princípios guiaram a construção. Esse conhecimento é transferível para outros pesquisadores e profissionais que enfrentarem problemas similares.
Quando a avaliação do artefato é rigorosa e os princípios de design são explicitados, a DSR produz conhecimento científico genuíno. Quando o pesquisador apenas descreve o que construiu sem avaliação e sem reflexão sobre os princípios subjacentes, não passa de um relatório técnico.
O ciclo da Design Science Research
A DSR não tem um processo linear único, mas o modelo proposto por Hevner (2007) e o framework de Peffers (2007) são os mais citados. De forma simplificada, o processo passa por estas etapas:
Identificação do problema: articular claramente qual problema prático motivou a pesquisa e por que ele é relevante. Qual a lacuna existente? Por que as soluções atuais são insuficientes?
Definição dos objetivos da solução: o que o artefato precisa fazer para resolver o problema? Quais são os critérios de sucesso? Essa etapa envolve revisão de literatura para entender as bases teóricas disponíveis.
Design e desenvolvimento: construção do artefato, com documentação das decisões de design. Por que esse modelo foi escolhido e não outro? Por que essa estrutura e não aquela?
Demonstração: mostrar que o artefato funciona em pelo menos um contexto específico. Isso pode envolver um estudo de caso, um experimento controlado, um piloto com usuários reais ou uma simulação.
Avaliação: avaliar se o artefato resolve o problema de forma adequada, usando critérios definidos previamente. A avaliação pode ser funcional (faz o que deveria fazer?), de qualidade (faz bem?), de impacto (gerou os resultados esperados?) ou de utilidade (foi útil para quem deveria usar?).
Comunicação: reportar o processo, o artefato e os aprendizados de forma que outros pesquisadores possam replicar, adaptar ou construir sobre o que foi feito.
Quando a DSR é a escolha certa
A DSR faz sentido quando você pode responder sim às seguintes perguntas:
Existe um problema prático real, relevante e relativamente bem delimitado que motiva a pesquisa? Se você está investigando um fenômeno difuso ou uma questão puramente teórica, provavelmente não é DSR.
A solução ainda não existe de forma adequada? Se já existe um modelo consagrado que resolve o problema, o diferencial do seu artefato precisa ser explicitado.
Você consegue avaliar rigorosamente se o artefato resolve o problema? A avaliação é o que distingue a DSR de um simples projeto de desenvolvimento. Sem avaliação rigorosa, não há pesquisa.
O artefato pode gerar conhecimento transferível? Não apenas “isso funcionou para essa empresa” ou “esse modelo serviu para esse contexto”, mas princípios que podem guiar o design de soluções similares em outros contextos.
Áreas onde a DSR é bem estabelecida incluem sistemas de informação, engenharia de produção, administração e gestão, ciências da computação, e cada vez mais educação e saúde coletiva.
Desafios comuns de quem usa DSR no mestrado
O maior erro que mestrandos cometem com a DSR é construir o artefato sem critérios claros de avaliação. A pergunta “como você vai saber se funcionou?” precisa ter resposta antes de começar a construir.
Outro erro comum é não delimitar o escopo do artefato. Se o modelo proposto pretende resolver todos os problemas de uma área, ele provavelmente não vai resolver nenhum bem. A delimitação clara do problema que o artefato resolve é fundamental.
Há também a dificuldade de articular a contribuição teórica. “Criei um modelo para empresa X” não é suficiente para uma dissertação acadêmica. É preciso mostrar que princípios de design foram derivados, que conhecimento é transferível e como esse artefato avança o estado da arte na área.
Por fim, a revisão de literatura na DSR precisa cumprir dois papéis: fundamentar o problema e fundamentar o design. Você precisa mostrar tanto que o problema é real quanto que as escolhas de design são baseadas em conhecimento existente.
DSR e Método V.O.E.: uma conexão natural
O Método V.O.E. valoriza a clareza sobre o que está sendo construído, por que e com que critérios de avaliação. Essa postura dialoga diretamente com a DSR: você não constrói um artefato por intuição; você constrói com base em princípios teóricos, documenta as decisões e avalia os resultados.
Se você está em uma área aplicada e tem um problema real que motivou sua pesquisa, talvez valha a pena conversar com sua orientadora sobre se a DSR seria a abordagem mais adequada. Não é a metodologia mais simples de conduzir, mas quando o problema pede um artefato como resposta, é a mais honesta.
Porque no fim, pesquisa boa é a que responde bem à pergunta que vale a pena perguntar.