Posicionamento

Currículo Lattes: o documento mais inflado do Brasil

O Lattes virou um jogo de palavras, não de substância. Por que isso prejudica a ciência brasileira e o que você pode fazer diferente.

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O Lattes virou um esporte de resistência

Olha só: tem pesquisadora no Brasil com mais de trezentos itens no Currículo Lattes. Resumos em congressos regionais que ninguém nunca leu. Participações em eventos como ouvinte registradas como “participação em evento científico”. Organização de mesas-redondas em eventos internos da própria universidade. Capítulos em livros editados pelos próprios autores, publicados por editoras sem nenhum processo de revisão.

Esse é o Lattes inflado. E ele existe porque o sistema estimula.

A lógica é simples: se você vai ser avaliado por quantidade de itens no currículo, vai produzir quantidade de itens. Não necessariamente substância. Quantidade.

O problema é que todo mundo faz isso, então a inflação perdeu o poder de diferenciação. E sobrou para quem produz com qualidade real o ônus de parecer menos produtivo do que é, num sistema que ainda conta tudo no mesmo balaio.

Como chegamos aqui

A Plataforma Lattes foi criada em 1999 pelo CNPq. Na época, foi um avanço enorme. Pela primeira vez, havia um registro sistematizado da produção científica brasileira, acessível a qualquer pessoa com acesso à internet. Para pesquisadores, orientadores e instituições, ter tudo num só lugar era conveniente.

O problema não é a plataforma. O problema é o que a cultura acadêmica fez com ela.

Processos seletivos para bolsas, concursos e programas de pós-graduação passaram a usar o Lattes como critério principal. Ao longo do tempo, ficou claro que certos tipos de produção tinham mais peso do que outros em determinados contextos. E pesquisadores aprenderam a jogar. Isso não é desonestidade. É resposta racional a incentivos mal desenhados.

O resultado é um documento que se tornou mais complexo de ler do que um artigo científico, com dezenas de categorias e subcategorias que poucos fora da academia entendem, e que precisam ser interpretadas com muito cuidado para dizer alguma coisa sobre quem é a pesquisadora por trás daqueles números.

O que a inflação do Lattes faz com a ciência

Existe um custo real para esse jogo de palavras.

O primeiro custo é de tempo. Pesquisadores gastam horas organizando, atualizando e formatando o Lattes. Tempo que poderia estar em pesquisa, orientação ou ensino vai para gestão de currículo. Isso não é exagero, é uma reclamação consistente que aparece em praticamente qualquer conversa honesta sobre vida acadêmica no Brasil.

O segundo custo é de clareza. Quando tudo tem o mesmo peso aparente, fica difícil saber quem realmente está produzindo conhecimento com relevância. Avaliadores com experiência sabem ler um Lattes e identificar o que tem substância. Mas sistemas automatizados não conseguem fazer essa distinção, e muitas decisões importantes passam por filtros automatizados antes de chegar a comitês.

O terceiro custo é de modelo. Pesquisadores mais jovens olham para Lattes inflados como referência do que precisam alcançar. Eles veem que “funciona” em certos contextos e concluem que é o que devem fazer também. Perpetua-se um padrão que ninguém defende abertamente, mas que todo mundo pratica.

O que avaliadores que conhecem o jogo olham

Vou ser direta porque isso pode economizar muito tempo e angústia.

Quando um avaliador experiente abre um Lattes, as primeiras coisas que ele olha são: artigos em periódicos qualificados A1 e A2, número de citações concentrado em poucas obras relevantes, orientações concluídas com defesa, e projetos com financiamento aprovado por processo seletivo competitivo.

O que ele ignora, ou lê com suspeita: centenas de resumos em eventos, capítulos em coletâneas sem revisão por pares, organização de eventos internos, participações que não geraram produto acadêmico identificável.

Isso não significa que eventos não têm valor. Apresentar trabalho em congresso é parte legítima da vida acadêmica. O problema é o volume desproporcional em relação à produção substantiva, e o uso desse volume como estratégia de inflação.

Faz sentido? Você pode ter dez artigos publicados em ótimos periódicos e um Lattes muito mais enxuto do que colegas com trezentos itens. E ainda assim ser considerada mais produtiva pelos comitês que realmente importam.

Uma posição incômoda mas necessária

Aqui está o incômodo: parte significativa da responsabilidade por isso está nas próprias instituições.

Programas de pós-graduação que avaliam produção docente por número de artigos, sem considerar qualidade ou relevância, estão incentivando a inflação. Comissões de concurso que usam pontuação por item do Lattes sem análise qualitativa estão fazendo o mesmo. Bolsas de produtividade que têm thresholds numéricos como filtro inicial também contribuem.

Não é útil colocar toda a culpa no pesquisador individual. A pessoa que enfrenta um concurso com 200 candidatos e um sistema de pontuação por volume faz o que o sistema pede. Isso é racional.

O que é possível fazer, individualmente, é optar por não inflar quando você tem margem para isso. Manter um Lattes limpo, com o que realmente representa sua produção, é uma forma de integridade que não aparece nos rankings mas que aparece nas conversas que importam.

O que você pode fazer diferente

Não vou dizer para você “não coloque resumo de congresso no Lattes”. Você vai colocar se o sistema pedir, e o sistema às vezes pede.

O que sugiro é uma perspectiva diferente: trate o Lattes como documento de sua trajetória, não como documento de sua pontuação. Quando você for atualizar, pergunte para cada item: “Isso representa algo que me orgulha ter feito?” Se a resposta for não, você pode colocar, mas saiba que está colocando para o sistema, não para você.

E invista mais tempo naquilo que tem substância real. Artigo publicado em periódico bem avaliado, mesmo que único no ano, pesa mais do que vinte resumos em eventos pequenos. Orientação concluída com defesa bem-sucedida é um produto de longa duração que aparece nas conversas sobre quem são os bons orientadores.

A construção de uma reputação acadêmica real é mais lenta do que a construção de um Lattes inflado. Mas é mais durável e, no fim das contas, mais satisfatória.

Se você quiser pensar mais sobre como posicionamento na academia funciona além dos números, tem algumas reflexões no /sobre que podem ajudar a localizar esse debate no contexto mais amplo do que significa fazer pesquisa com integridade.

O Lattes como espelho da cultura que criamos

Existe uma última coisa que vale dizer, e talvez seja a mais desconfortável.

O Lattes inflado não é uma anomalia. Ele é um reflexo fiel da cultura acadêmica que foi construída ao longo de décadas de políticas de avaliação que priorizaram o que é mensurável sobre o que é significativo. É mais fácil contar artigos do que avaliar impacto. É mais fácil somar itens do que julgar relevância. Então os sistemas foram construídos em torno do que é contável, e as pessoas responderam ao que o sistema pede.

Isso não é único ao Brasil. A literatura internacional sobre métricas acadêmicas documenta o mesmo fenômeno em países com sistemas de avaliação fortemente quantitativos. A diferença é que aqui o Lattes é o documento central que articula toda essa lógica.

A pergunta que fica é: o que vai mudar? A resposta honesta é que mudanças sistêmicas dependem de decisões que estão fora do controle individual. O CNPq, a CAPES, os programas de pós-graduação e as comissões de concurso precisariam coordenar uma revisão dos critérios de avaliação para que algo mude estruturalmente.

Enquanto isso não acontece, o que cada pesquisadora pode fazer é escolher conscientemente o tipo de produção em que vai investir seu tempo. Não como ingenuidade de ignorar o sistema, mas como clareza sobre o que realmente importa para a pesquisa que você quer fazer.

Algumas perguntas para a sua próxima atualização do Lattes

Antes de fechar, algumas perguntas que podem ajudar a pensar com mais clareza sobre o seu currículo:

Qual item do seu Lattes você mais se orgulha? Por quê? Esse item está destacado ou enterrado entre outros de menor relevância?

Se alguém lesse só os três primeiros itens de cada categoria do seu Lattes, que impressão teria de você como pesquisadora?

Existe produção que você considera central para sua trajetória mas que não aparece adequadamente no formato atual do Lattes? Orientações informais, contribuições metodológicas não publicadas, trabalho de campo que gerou relatórios não indexados? Onde você registra isso?

E a pergunta mais direta: você está satisfeita com a pesquisa que está fazendo, ou está produzindo para o currículo? São objetivos que podem coexistir, mas quando divergem demais, vale notar.

Essas perguntas não têm resposta certa. Mas ajudam a sair da lógica de acumulação automática e entrar na lógica de trajetória com intenção. Que é, no fim das contas, o que separa um currículo de um pesquisador que sabe para onde está indo de um catálogo de itens sem fio condutor.

Perguntas frequentes

O que colocar no Currículo Lattes para se destacar?
Qualidade supera quantidade. Destaque publicações em periódicos com Qualis A1 e A2, orientações concluídas, projetos financiados por agências nacionais e internacionais, e participação em bancas de pós-graduação. Evite inflar com dezenas de resumos em eventos de baixa circulação.
Resumo em anais de congresso conta no Lattes?
Conta como produção, mas tem peso menor do que artigo completo em periódico. O problema é quando pesquisadores acumulam centenas de resumos em eventos locais para aparentar produtividade alta. Avaliadores experientes sabem distinguir.
Como a CNPq e a CAPES avaliam o Currículo Lattes?
Usam métricas quantitativas como número de artigos, fator de impacto dos periódicos, índice H e número de citações. Mas comitês de assessoria especializada fazem análise qualitativa. Lattes inflado pode funcionar em contextos automatizados, mas falha na avaliação humana direta.
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