A Pós-Graduação Brasileira Perdeu o Rumo?
Cortes de verba, pressão por publicação, adoecimento de pesquisadores, internacionalização a qualquer custo. A pós-graduação brasileira tem um problema estrutural que precisa ser nomeado.
Vamos lá: essa conversa precisa acontecer sem eufemismos
Há um consenso implícito em partes da academia brasileira de que críticas ao sistema precisam ser feitas com cautela. Você não quer parecer que não reconhece o valor da pesquisa pública brasileira. Não quer ser mal interpretada como alguém contra a universidade pública.
Então as críticas ficam nas conversas de corredor, nos grupos de WhatsApp, nas piadas amargas dos congressos.
Não vou fazer isso aqui.
A pós-graduação brasileira construiu algo notável nas últimas décadas. E ao mesmo tempo tem problemas estruturais sérios que precisam ser nomeados, debatidos e reformados. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo.
O que foi construído
O Brasil criou um sistema de pós-graduação stricto sensu que, em termos de escala, é um dos maiores do mundo. Temos centenas de programas reconhecidos, uma agência de fomento (CAPES) com capacidade de avaliação sistemática, e uma produção científica que cresceu significativamente nas últimas décadas em termos absolutos.
Em algumas áreas e instituições específicas, temos pesquisa de padrão internacional genuíno, especialmente nas ciências agrárias, medicina tropical, física e matemática.
Esse sistema não foi construído por acaso. É resultado de décadas de investimento, de pessoas que escolheram trabalhar em universidades públicas quando poderiam ter ganho mais em outros setores, e de uma aposta pública na ciência como bem coletivo.
Reconhecer isso importa. Não para defender o sistema contra qualquer crítica, mas para ter clareza sobre o que vale salvar enquanto se reforma o que não funciona.
Os problemas que não dá mais para ignorar
O adoecimento
Pesquisas sobre saúde mental de pós-graduandos no Brasil indicam prevalências alarmantes de ansiedade, depressão e burnout. Não estou citando um número específico porque os estudos variam, mas a direção é consistente: pesquisadores adoecem em taxas significativamente acima da população geral.
Isso não é apenas um problema humanitário, embora já devesse ser suficiente por isso. É um problema de qualidade da ciência. Pesquisadoras adoecidas produzem menos, com menor criatividade, e saem do campo antes de chegar ao auge da sua contribuição.
O sistema que pressiona por produção sem considerar as condições humanas dessa produção está destruindo o recurso que pretende maximizar.
A cultura do publicar ou perecer
O sistema de avaliação da CAPES é baseado fortemente em indicadores bibliométricos. Quantos artigos em Qualis A1 e A2. Quantos artigos em periódicos indexados internacionalmente. Qual o índice h dos docentes permanentes.
Isso criou uma cultura onde a publicação frequente substituiu a pesquisa cuidadosa como objetivo central. Pesquisadoras tomam decisões metodológicas com base no que vai ser mais fácil de publicar, não no que vai responder melhor a questões relevantes. Pesquisas longas, de campo extenso, sobre problemas difíceis, são preteridas porque demoram demais para produzir artigos.
A ironia é que o sistema que deveria garantir qualidade está incentivando produção rápida sobre qualidade reflexiva.
A desigualdade regional
O financiamento da ciência no Brasil é profundamente desigual geograficamente. FAPESP financia pesquisa em São Paulo com recursos que nenhuma outra FAP estadual pode igualar. Os programas mais bem avaliados e com maior acesso a recursos estão concentrados no Sul e Sudeste.
Isso não é apenas injusto. É desperdício. O Brasil tem problemas regionais específicos que precisam de pesquisa feita por pessoas que vivem esses contextos, com financiamento adequado para isso. A concentração geográfica do investimento em ciência limita a diversidade de perspectivas e de questões que a pesquisa brasileira consegue abordar.
A internacionalização como fim, não como meio
A internacionalização entrou nos critérios de avaliação com um pressuposto implícito problemático: pesquisa boa é pesquisa que o Norte global reconhece. Publicar em periódicos ingleses de alto fator de impacto virou o objetivo. Pesquisar problemas brasileiros em português, mesmo quando o problema é genuinamente brasileiro e a audiência relevante é brasileira, é penalizado nos critérios de avaliação.
Isso cria uma situação paradoxal: pesquisadoras brasileiras produzindo sobre problemas brasileiros em inglês, para audiências que raramente vão usar esse conhecimento, enquanto as pessoas que mais precisariam desse conhecimento não têm acesso a ele.
Internacionalização genuína seria trazer perspectivas e metodologias diversas, publicar em múltiplos idiomas, e ser reconhecida internacionalmente por trabalho relevante, não por adequação a métricas de periódicos estrangeiros.
Minha posição
Não acho que o sistema está perdido ou que precisa ser demolido. Acho que precisa de reformas corajosas que o próprio campo tem dificuldade de fazer porque as pessoas que estão bem posicionadas no sistema atual têm pouco incentivo para mudá-lo.
O que mais me importa: o adoecimento de pesquisadores é inaceitável e precisa ser tratado como emergência. Os critérios de avaliação precisam ser repensados para incluir qualidade formativa, impacto social e saúde do ambiente de pesquisa. A desigualdade regional precisa de ação deliberada, não apenas de editais universais que competições inequitativas.
E precisamos parar de defender o sistema como um todo quando alguém critica partes dele. Defender a universidade pública brasileira e criticar suas disfunções não são posições contraditórias. São a mesma posição, levada a sério.
O que os dados sobre saúde mental dizem e o que o sistema faz com isso
Estudos realizados em programas brasileiros nas últimas décadas mostram prevalências de transtornos de ansiedade e depressão entre pós-graduandos significativamente acima da média da população geral de mesma faixa etária. Alguns estudos indicam que a orientação é um fator mediador importante: quando a relação de orientação é percebida como de apoio, os indicadores de saúde mental são melhores.
O que o sistema faz com essas evidências? Na maioria dos programas, relativamente pouco.
Algumas IES criaram serviços de apoio psicológico com acesso para pós-graduandos. Alguns programas têm comissões de acompanhamento de alunos. Mas não há, no sistema CAPES, nenhum indicador de saúde do ambiente que entre na avaliação dos programas.
Isso é uma escolha. Você avalia o que importa para você. Se saúde mental de pesquisadores não entra nos critérios de avaliação, é porque não foi decidido que deveria entrar. Isso pode mudar.
A ciência que o Brasil precisa não é necessariamente a que o sistema financia
Uma última questão que quero nomear: há uma tensão entre a ciência que os critérios atuais incentivam e a ciência que o Brasil precisa.
O Brasil tem problemas específicos, alguns urgentes: desigualdade, saúde pública, segurança alimentar, mudanças climáticas em contexto tropical, diversidade cultural e linguística. Pesquisa relevante para esses problemas nem sempre é compatível com publicação em periódicos internacionais de alto fator de impacto.
Um sistema de avaliação que premia fundamentalmente a inserção internacional pode estar, sem querer, desincentivando a pesquisa mais necessária para o país.
Isso não é argumento contra internacionalização. É argumento por critérios de avaliação mais plurais, que valorizem tanto excelência internacional quanto relevância local.
Para fechar
A pós-graduação brasileira não perdeu o rumo. Mas está num momento que exige revisão honesta, debate público e lideranças dispostas a mudar o que não funciona mesmo quando as mudanças incomodam quem está bem posicionado no sistema atual.
O rumo está em jogo. E quem está dentro do sistema, como pesquisadora, orientanda ou docente, é parte da resposta. Não uma resposta passiva esperando que outros mudem as coisas, mas uma resposta ativa: nas escolhas de orientação, nas formas como tratam seus alunos, nas vozes que levantam (ou não) quando critérios de avaliação são discutidos nas instâncias em que participam.
Faz sentido?