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Cotas na Pós: Acesso Sem Permanência

Cotas na pós-graduação aumentaram o acesso, mas a permanência ainda é o gargalo. Por que entrar no mestrado não é o mesmo que terminar — e o que precisa mudar.

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Entrar é uma coisa. Ficar é outra.

Antes de qualquer argumento, um contexto rápido: o Brasil chegou à segunda metade do século XX com uma pós-graduação construída quase que exclusivamente por e para pessoas brancas, de camadas médias e altas, com trajetórias escolares privadas. A abertura democratizou o acesso à graduação, mas a pós continuou sendo um espaço de reprodução de privilégio disfarçado de meritocracia.

Isso não é opinião — é sociologia da educação documentada em décadas de pesquisa.

Vamos lá. Nos últimos anos, as cotas na pós-graduação ampliaram o acesso de estudantes negros, indígenas e de baixa renda a programas de mestrado e doutorado. Isso é real, documentado, e representa uma mudança importante na composição de quem pesquisa no Brasil.

Mas há uma conversa que a comemoração costuma encobrir: entrar no programa não garante terminar.

A permanência — esse segundo passo que ninguém debate com a mesma intensidade do acesso — continua sendo o gargalo. E ignorar isso é, no mínimo, uma análise incompleta do que as políticas de cotas estão e não estão alcançando.

Esta não é uma crítica às cotas. É uma cobrança por mais.

O que os dados mostram

Pesquisas sobre evasão na pós-graduação brasileira consistentemente apontam que estudantes de grupos sub-representados abandonam os programas em proporções maiores que seus colegas de grupos mais privilegiados. A situação é especialmente crítica em programas sem bolsa obrigatória para todos os estudantes.

O mecanismo é direto: mestrado e doutorado, em geral, exigem dedicação integral ou quase integral. Estudantes que precisam trabalhar para se sustentar — e que muitas vezes ainda sustentam parentes — chegam ao programa com uma desvantagem estrutural que nenhuma política de cotas no processo seletivo resolve sozinha.

Some a isso: o custo implícito de fazer pós-graduação vai muito além da taxa de matrícula. Livros, acesso a bases de dados, deslocamento para eventos, passagens para defesa fora da cidade de origem. Quem tem família acadêmica ou rede de apoio financeiro absorve esses custos sem perceber. Quem não tem, precisa escolher — entre o campo e o aluguel, entre o congresso e a conta de luz.

Bolsa não é privilégio, é condição

Aqui entra um ponto que me incomoda quando vejo a discussão sobre pós-graduação: a bolsa é tratada como um benefício extra, como se fosse possível fazer pesquisa de qualidade enquanto trabalha 40 horas semanais em outra área.

Não é. Não na maioria dos programas. Não com o nível de exigência que a CAPES impõe.

A bolsa não é remuneração pelo trabalho de pesquisa — é o que viabiliza que essa pessoa possa se dedicar à pesquisa. E quando programas recebem cotistas sem garantir acesso à bolsa, estão fazendo metade do trabalho: abriram a porta, mas não deixaram a luz acesa dentro.

Isso não é argumento contra as cotas. É argumento por ampliar o sistema de bolsas — especialmente para estudantes de grupos historicamente excluídos que, estatisticamente, têm menor acesso a redes de apoio financeiro informal.

O isolamento que ninguém mede

Tem outro fator que os dados de evasão capturam parcialmente e que vale nomear: o isolamento.

Entrar num programa de pós-graduação com poucos professores que se parecem com você, poucos colegas com experiências similares às suas, e uma cultura institucional construída sobre décadas de homogeneidade não é apenas desconfortável. É cognitivamente exaustivo.

Toda interação num ambiente assim carrega uma camada extra de processamento: você está avaliando sinais, interpretando comentários ambíguos, decidindo quando falar e quando se calar, gerenciando a imagem que projeta. Isso consome energia que deveria ir para a pesquisa.

Pesquisadores chamam isso de “carga do pioneiro” — o custo adicional de ser o primeiro da família, da comunidade, do grupo étnico em determinado espaço. Não é frescura. É um fenômeno documentado que tem efeitos reais sobre desempenho e saúde mental.

Cotas não eliminam essa carga sozinhas. Mas quando o acesso aumenta e a composição dos programas começa a mudar, essa carga diminui com o tempo — para os que vieram depois.

O papel das universidades além do processo seletivo

O que separa um programa que retém seus cotistas de um que não retém?

Não é, surpreendentemente, qualidade acadêmica do programa. É o suporte estrutural que a instituição oferece fora da sala de aula.

Programas que funcionam têm: sistema de bolsas acessível a todos os ingressantes, não só aos que ficaram na fila de espera por mais um semestre. Têm serviço de apoio psicológico real — não uma triagem de 40 minutos com lista de espera de três meses. Têm políticas explícitas contra assédio e discriminação com canais de denúncia que funcionam. Têm professores treinados para reconhecer e não reproduzir vieses nos processos de orientação e avaliação.

Isso não é agenda identitária. É gestão de qualidade. Programa que perde estudantes capazes porque não ofereceu suporte básico está falhando institucionalmente — além de estar desperdiçando o investimento público que foi feito para que aquela pessoa chegasse até ali.

A responsabilidade do orientador

Quem orienta pesquisadores de grupos sub-representados carrega uma responsabilidade específica que precisa ser nomeada.

Não é suficiente ser neutro. Neutralidade em ambientes desiguais é uma posição. Se o seu orientando é o primeiro da família a fazer mestrado, se ele não tem rede de contatos na área, se ele chega sem saber as regras não escritas do ambiente acadêmico — ser só “bom orientador no conteúdo” pode não ser suficiente.

Isso não significa ser terapeuta do seu orientando. Significa estar atento a sinais de isolamento, estar disponível para conversas além do texto, conhecer os recursos de suporte que a universidade oferece e indicar quando necessário, e revisar os próprios vieses sobre o que “parece” um bom pesquisador.

Mentoria ativa, não tutela. Diferença importante.

O que eu penso sobre isso

Minha posição é clara: cotas na pós-graduação são necessárias e insuficientes.

Necessárias porque a sub-representação histórica de negros, indígenas e pessoas de baixa renda nos espaços de produção de conhecimento tem consequências reais para o tipo de pesquisa que é feita, as perguntas que são consideradas relevantes e as perspectivas que chegam a definir políticas públicas.

Insuficientes porque acesso sem permanência é uma promessa pela metade. E porque a responsabilidade de criar condições de permanência não é individual — não é “esforço do cotista” — é institucional e estrutural.

O debate sobre cotas na pós-graduação precisa amadurecer para além do “a favor ou contra”. Precisa chegar na pergunta mais difícil: depois que essa pessoa entra, o que estamos fazendo para que ela fique, produza e volte para formar outros?

Essa é a pergunta que define se a política está funcionando.

Você pode discordar de mim. Mas discorde com dados, não com achismos sobre mérito. A pesquisa sobre o tema é extensa — e ela não confirma a narrativa de que cotistas chegam menos preparados ou terminam menos. Confirma que chegam com menos suporte estrutural. E isso é um problema que a universidade criou e a universidade precisa resolver.

Permanência como questão de qualidade da ciência

Tem mais uma dimensão nessa conversa que precisa ser dita em voz alta: a permanência de pesquisadores de grupos sub-representados não é só uma questão de justiça social. É uma questão de qualidade epistemológica.

A ciência que produzimos reflete quem a produz. As perguntas que consideramos relevantes, os recortes que fazemos, os grupos que incluímos nas amostras, os fenômenos que decidimos nomear — tudo isso carrega a perspectiva de quem está dentro do laboratório e da sala de orientação.

Uma pós-graduação que retém apenas pesquisadores de perfis homogêneos vai produzir ciência com pontos cegos estruturais. Não por má fé — por limitação de perspectiva. E esses pontos cegos aparecem depois, quando as políticas públicas baseadas nessa ciência falham para as populações que não estavam representadas na pesquisa.

Permanência, portanto, não é política de RH acadêmico. É condição para fazer ciência melhor.

O que você pode fazer agora

Se você é estudante cotista na pós: você tem direito ao programa para o qual foi aprovado. Não deve nada a ninguém além de pesquisa séria. E se o ambiente estiver criando obstáculos além do normal, nomear isso — para o orientador, para a coordenação, para as instâncias de apoio — é legítimo e necessário.

Se você é orientador: reveja suas práticas de avaliação, seus critérios de “bom pesquisador” e sua disponibilidade para estudantes com trajetórias diferentes da sua. Não como favor — como obrigação profissional.

Se você é gestor de programa: as políticas de permanência são tão urgentes quanto as políticas de acesso. Sem elas, as cotas são vitrine.

A mudança começa quando cada pessoa dentro do sistema decide que a questão não é de outro — é sua também.

Perguntas frequentes

Existem cotas na pós-graduação no Brasil?
Sim. A Lei 12.990/2014 reserva 20% das vagas em concursos públicos federais para negros, e muitas universidades adotaram políticas próprias de ação afirmativa para a pós-graduação. Em 2023, o MEC passou a exigir que programas de pós-graduação apresentem políticas de inclusão como critério de avaliação da CAPES.
O que é permanência na pós-graduação?
Permanência refere-se à capacidade do estudante de concluir o curso após ingressar. Na pós-graduação, isso envolve acesso a bolsas, suporte financeiro para deslocamento e material, apoio psicológico e pedagógico, e condições de trabalho adequadas — fatores que afetam desproporcionalmente estudantes cotistas, negros, indígenas e de baixa renda.
Por que cotistas têm taxas de evasão maiores na pós-graduação?
Não é questão de capacidade acadêmica — pesquisas mostram que cotistas têm desempenho equivalente ao de não cotistas quando têm condições similares de estudo. A evasão maior se deve a fatores estruturais: pressão financeira (muitos precisam trabalhar para se sustentar), isolamento social, falta de identificação com o ambiente acadêmico, e ausência de redes de apoio e mentoria.
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