IA & Ética

COPE e ICMJE: Diretrizes Internacionais de IA na Ciência

COPE e ICMJE definiram padrões internacionais para uso de IA na publicação científica. Entenda o que essas diretrizes exigem e por que afetam sua pesquisa.

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Os comitês que definem como a ciência deve se comportar

Olha só: quando você submete um artigo para uma revista científica séria, está entrando num sistema de normas que vai muito além do seu orientador ou do seu programa de pós. Esse sistema tem instâncias internacionais — e duas das mais influentes já se posicionaram claramente sobre IA.

O COPE (Committee on Publication Ethics) e o ICMJE (International Committee of Medical Journal Editors) são organizações que definem padrões éticos para publicação científica adotados por centenas de periódicos em todo o mundo. Quando esses dois comitês dizem o que pode e o que não pode no uso de IA, editoras e revistas ouvem — e implementam.

Entender o que eles estabeleceram não é leitura acadêmica de interesse histórico. É saber as regras do jogo antes de jogar.

O que é o COPE e por que importa

O Committee on Publication Ethics (COPE) foi fundado em 1997 no Reino Unido por um grupo de editores de periódicos médicos preocupados com fraude e má conduta na publicação científica. Hoje tem mais de doze mil membros — editoras, revistas e organizações acadêmicas de todo o mundo — e é a principal referência internacional para ética em publicação científica.

O COPE não tem poder regulatório sobre os pesquisadores. Ele orienta as revistas que são suas membros. Mas como boa parte dos periódicos científicos sérios do mundo é membro do COPE, as orientações do comitê se traduzem em políticas editoriais que afetam diretamente quem publica.

Quando o COPE se posicionou sobre IA e autoria em 2023, a mensagem foi clara: ferramentas de IA não satisfazem os critérios de autoria. Autoria implica responsabilidade — capacidade de responder por erros, garantir a integridade dos dados, aceitar ou recusar revisões. Uma ferramenta de software não pode fazer isso. Portanto, não pode ser autora.

O que é o ICMJE e qual sua especificidade

O International Committee of Medical Journal Editors existe desde 1978 e é composto pelos editores das principais revistas médicas do mundo — NEJM, The Lancet, JAMA e outras de peso equivalente fazem parte do grupo. O ICMJE é o responsável pelos “Critérios de Vancouver”, o conjunto de normas de autoria e conduta em publicação que a maioria dos periódicos biomédicos adota.

Sua influência é especialmente forte nas ciências da vida, medicina, saúde pública e áreas afins. Se você pesquisa em qualquer dessas áreas, as normas do ICMJE são parte do seu ambiente profissional, queira ou não.

A posição do ICMJE sobre IA acompanhou a do COPE: IA não pode ser listada como autora. A responsabilidade pelo trabalho é humana e intransferível. E o uso de IA deve ser declarado de forma transparente.

Os três princípios que unificam as duas diretrizes

Apesar de origens e contextos diferentes, COPE e ICMJE convergiram em três princípios fundamentais sobre IA na publicação científica:

A IA não pode ser autora. Autoria implica responsabilidade ética e legal pelo trabalho. Ferramentas de IA não têm personalidade jurídica, não podem responder a questionamentos de integridade e não podem consentir com publicação. Portanto, não atendem aos critérios de autoria de nenhuma das duas organizações.

Os autores são responsáveis por tudo, inclusive pelo que a IA gerou. Isso é o ponto que mais pesquisadores subestimam. Quando você usa IA para gerar um trecho e ele acaba num artigo publicado, você é o responsável por esse trecho — mesmo que você não o tenha escrito. Se ele contém erro, inverdade ou plágio não intencional gerado pela ferramenta, a responsabilidade é sua.

O uso deve ser declarado. O lugar da declaração varia: pode ser na seção de métodos, nos agradecimentos ou numa seção específica de transparência, dependendo da política de cada revista. O que não é aceitável — nas diretrizes de ambos os comitês — é usar IA no processo de produção de um artigo sem mencioná-lo em nenhum lugar.

O que as revistas fazem com isso

Depois dos posicionamentos do COPE e do ICMJE, a maioria dos periódicos de alto impacto passou a exigir declarações de uso de IA nos artigos submetidos. O processo de implementação variou: algumas revistas criaram campos específicos no sistema de submissão; outras atualizaram as diretrizes para autores; outras ainda passaram a fazer perguntas diretas durante o processo de revisão.

Na prática, isso significa que antes de submeter qualquer artigo a uma revista científica, você precisa verificar a política de IA daquela publicação específica. Procure nas diretrizes para autores — na maioria dos periódicos, há seção específica agora. Se não houver, a ausência de política explícita ainda não significa permissão para não declarar; significa que você precisa agir pela norma mais conservadora disponível.

Uma coisa que muitos pesquisadores não sabem: em alguns sistemas de submissão, há checkbox específico perguntando se IA foi usada na produção do manuscrito. Marcar “não” quando a resposta é “sim” pode ser considerado desonestidade editorial — com consequências que vão de retratação a banimento de submissões futuras naquele periódico.

A questão da revisão por pares e IA

Há uma dimensão do debate que COPE e ICMJE também tocaram: o uso de IA no processo de revisão por pares.

Pareceristas — os colegas que avaliam anonimamente os artigos antes da publicação — que usam IA para ajudar na revisão estão numa posição delicada. A confidencialidade do processo de revisão significa que o manuscrito não deveria ser inserido em nenhuma ferramenta externa sem consentimento da editora e dos autores.

Isso criou uma questão prática real: muitos pareceristas usam IA para organizar argumentos na revisão ou verificar coerência do texto. O COPE recomenda que editoras sejam explícitas nas suas políticas sobre o que pareceristas podem fazer com IA — e que pareceristas não insiram conteúdo confidencial de manuscritos em ferramentas externas sem autorização.

Se você já foi parecerista (ou planeja ser), isso é algo que precisa estar no seu radar.

O que fica de lição para quem publica

As diretrizes internacionais do COPE e do ICMJE não são obstáculos burocráticos criados por velhos conservadores que não entendem IA. São respostas cuidadosas a perguntas difíceis sobre responsabilidade, integridade e confiança na ciência.

A ciência funciona porque existe um sistema de responsabilização: autores respondem pelos trabalhos, revisores garantem qualidade, editores mantêm padrões. Quando IA entra nesse sistema sem as regras claras, ela cria zonas de irresponsabilidade que corroem a confiança no sistema todo.

O que COPE e ICMJE estabeleceram é um ponto de equilíbrio: use IA se quiser, mas assuma a responsabilidade pelo resultado e seja transparente sobre o processo. Isso é tão razoável que vai ser difícil discordar quando você para para pensar.

Para o Método V.O.E., isso é consistência, não restrição: Validar o que a IA produziu, Organizar com critério próprio, Executar com responsabilidade — e assinar o trabalho sabendo que você responde por ele. Esse é o padrão que a ciência internacional espera. E faz sentido exigir.

Fechando: as regras internacionais não são a última palavra, mas são uma boa partida

COPE e ICMJE definiram padrões que a maioria dos periódicos sérios adota. Isso não significa que essas diretrizes são perfeitas ou definitivas — são documentos vivos, atualizados à medida que o campo se desenvolve.

O que elas fazem é criar uma linguagem comum para uma conversa que a comunidade científica precisa ter. E nessa conversa, a posição mais defensável ainda é a mais simples: seja honesto sobre o que você fez, assuma responsabilidade pelo seu trabalho e trate seus leitores como adultos que merecem saber como a pesquisa foi produzida.

Faz sentido? As diretrizes internacionais são o piso. A integridade é o que você constrói sobre ele.

Perguntas frequentes

O que COPE e ICMJE dizem sobre o uso de IA em artigos científicos?
Tanto o COPE (Committee on Publication Ethics) quanto o ICMJE (International Committee of Medical Journal Editors) estabelecem que ferramentas de IA não podem ser listadas como autoras de artigos científicos. Os autores humanos são os únicos responsáveis pelo trabalho e devem declarar o uso de IA e os propósitos para os quais foi utilizada.
Sou obrigado a declarar o uso de IA num artigo científico?
Depende da política da revista. A maioria dos periódicos que segue as diretrizes COPE e ICMJE exige declaração do uso de IA na seção de métodos ou nos agradecimentos. Revistas de alto impacto, especialmente na área de saúde e ciências da vida, foram das primeiras a implementar essa exigência.
A IA pode aparecer nos agradecimentos de um artigo?
Sim, essa é uma das formas aceitas pelas diretrizes internacionais. Ferramentas de IA podem ser mencionadas nos agradecimentos com indicação do propósito do uso. O que não é permitido, segundo COPE e ICMJE, é listá-las como autoras ou coautoras do trabalho.
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