Como Usar Conectivos Acadêmicos Sem Soar Robótico
Conectivos acadêmicos enriquecem o texto científico, mas usados de forma excessiva soam artificiais. Veja como equilibrar fluidez e rigor.
O problema não está nos conectivos
Vamos lá. Você estudou uma lista de conectivos acadêmicos, passou a usá-los no seu texto e o resultado ficou… estranho. Engessado. Como se alguém tivesse colado palavras bonitas num texto que não precisava delas.
Isso acontece com muita frequência, e o diagnóstico é quase sempre o mesmo: o problema não é o conectivo, é a relação lógica que deveria existir antes dele.
Conectivos acadêmicos são marcadores de coesão. Eles sinalizam ao leitor como uma ideia se relaciona com a anterior: ela contradiz, amplia, exemplifica, conclui? Quando você usa “entretanto” sem que haja de fato uma contraposição, o texto não fica formal, fica falso.
Então antes de falar sobre como usar conectivos, preciso falar sobre por que o seu texto pode estar soando robotizado mesmo com eles.
A armadilha da lista decorada
A maioria das pessoas aprende conectivos como listas categorizadas. Conectivos de adição, de contraste, de causalidade, de conclusão. Decora a lista, começa a inserir um representante de cada categoria e acha que o texto ficou mais sofisticado.
O que acontece na prática é diferente. O texto fica cheio de marcadores que não correspondem a relações reais. “Outrossim, cabe ressaltar que…” sem que o “outrossim” conecte algo de fato. “Nesse sentido, é possível afirmar que…” sem que o “nesse sentido” aponte para nenhum sentido estabelecido antes.
Faz sentido? O conectivo é uma promessa ao leitor. Quando você escreve “no entanto”, está dizendo: o que vem agora contradiz ou matiza o que você acabou de ler. Se não contradiz nada, você quebrou um contrato.
Isso gera um efeito peculiar: textos com muitos conectivos podem ser mais difíceis de ler do que textos sem nenhum, porque os conectivos falsos criam expectativas que o conteúdo não cumpre.
Conectivos não existem no vácuo
Um conectivo vive entre dois blocos de significado. Ele é a ponte. Para a ponte funcionar, precisa de dois lados sólidos.
Pense assim: antes de escrever qualquer conectivo, pergunte-se o que a frase ou parágrafo anterior está dizendo e qual é a relação real entre ela e o que você vai escrever agora.
Se a relação é de adição (estou acrescentando uma ideia no mesmo sentido), use “além disso”, “ainda”, “também”, “ademais”. Se a relação é de contraste (estou apresentando algo que vai contra ou limita o que disse), use “entretanto”, “contudo”, “no entanto”, “todavia”, “porém”. Se é de conclusão (estou tirando uma consequência lógica do que argumentei), use “portanto”, “logo”, “assim”, “por conseguinte”, “dessa forma”.
O problema é que muita gente usa “portanto” quando a conclusão não decorre do argumento. Usa “entretanto” quando não há nenhuma tensão entre as ideias. E aí o texto parece uma peça de teatro mal ensaiada, onde os atores falam as falas certas na ordem errada.
Como treinar o olho para isso
Existe um exercício simples que funciona bem, especialmente quando você está revisando.
Pegue um parágrafo do seu texto. Retire todos os conectivos. Leia só o conteúdo das frases. Agora pergunte: qual é a relação entre cada par de frases? Elas adicionam, contradizem, exemplificam, concluem?
Se a resposta é “nenhuma dessas, elas só existem ali”, você tem um problema que o conectivo não vai resolver. O problema é estrutural, de argumento.
Se você consegue identificar a relação, escolha o conectivo que a representa com mais precisão. Não o conectivo mais sofisticado, o mais preciso.
Outra dica: leia seu texto em voz alta. Quando você ouve “nesse sentido, é possível afirmar que x”, pergunta-se: em que sentido? Se você não consegue responder essa pergunta, o conectivo está ali de enfeite.
O equilíbrio entre fluidez e formalidade
Aqui entra um ponto que pouca gente discute: textos acadêmicos muito formais podem ser difíceis de ler não por serem rigorosos, mas por serem artificialmente rígidos.
A fluidez não é o oposto do rigor. Um texto pode ser preciso, coeso, argumentativamente sólido e ainda assim fluir bem. A questão é não usar conectivos pesados demais onde uma construção sintática mais simples já resolve.
Às vezes, em vez de “outrossim, cabe destacar que”, basta “Vale notar que”. Em vez de “por conseguinte, infere-se que”, pode funcionar “Isso sugere que”. Em vez de “no que diz respeito a”, às vezes um simples “Sobre” resolve.
Não estou dizendo para simplificar tudo. Estou dizendo que o conectivo deve servir ao argumento, não ao contrário. O argumento não deve ser construído para comportar conectivos elaborados.
Os conectivos que mais aparecem errados
Na revisão de textos acadêmicos, alguns conectivos aparecem mal usados com uma regularidade quase curiosa.
“Nesse sentido” é o mais problemático. Ele implica que a frase seguinte está alinhada com um sentido estabelecido na anterior. Mas muitas vezes aparece no início de uma ideia completamente nova, sem qualquer “sentido” precedente para referenciar.
“Assim sendo” aparece em conclusões que não concluem nada, apenas adicionam mais uma informação.
“Com base no exposto” fecha seções inteiras sem que haja nada realmente exposto antes, ou com muito pouco. É uma fórmula de fechamento que virou marca de corte, não de síntese.
“De fato” é usado para enfatizar qualquer afirmação, mesmo quando o “fato” em questão é uma opinião ou interpretação do autor, não um dado verificável.
Perceber esses padrões no seu próprio texto é um passo grande. Quando você começa a ver “nesse sentido” e se pergunta “em que sentido?”, já está revisando com mais atenção.
O que o Método V.O.E. propõe sobre coesão
No Método V.O.E., a coesão textual é tratada como consequência de um argumento bem estruturado, não como conjunto de ornamentos aplicados ao texto pronto.
Quando você organiza suas ideias em tópicos com relações claras entre si, os conectivos aparecem naturalmente, porque a estrutura pede que você sinalize ao leitor o que está acontecendo. Não é uma lista decorada, é uma leitura de como as partes se relacionam.
Isso muda bastante a experiência de escrever. Em vez de pensar “devo usar um conectivo de contraste aqui”, você pensa “estou contradizendo algo, então preciso sinalizar isso”. A diferença parece sutil, mas muda o processo inteiro.
Sobre variedade e cansaço do leitor
Conectivos iguais usados repetidamente cansam. Se cada parágrafo começa com “além disso”, o leitor começa a ignorá-los depois do terceiro. E aí eles perdem até a função que tinham.
Variar não é questão de sofisticação vocabular, é respeito pela atenção do leitor.
“Além disso”, “ainda”, “também”, “outrossim”, “adicionalmente”, “vale acrescentar que” todos indicam adição. Use os que cabem no registro do texto, mas não repita o mesmo três vezes em sequência.
Para contraste: “no entanto”, “entretanto”, “contudo”, “todavia”, “porém”, “mas”. Sim, “mas” é um conector de contraste perfeitamente válido em textos acadêmicos, dependendo do contexto e do nível de informalidade tolerado.
A variedade mantém o texto vivo. Não vai fazer um argumento fraco parecer forte, mas vai evitar que um argumento bom pareça mecânico.
Fechando: conectivos são efeito, não causa
Olha só: um texto com poucos conectivos, mas bem argumentado, é mais acadêmico do que um texto cheio de “outrossim” e “no que concerne” sem substância.
Conectivos são o efeito de um pensamento claro, não a causa. Quando você sabe o que está dizendo e por que está dizendo, os marcadores de coesão aparecem porque você precisa deles para sinalizar algo real.
Se você está colocando conectivos para o texto parecer mais acadêmico, o problema está antes. Está na clareza do argumento, na organização das ideias, na relação entre os parágrafos.
Resolva isso primeiro. Os conectivos vêm depois, como consequência.
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