Método

Como Transformar Dissertação em Artigo Para Revista

Por que dissertação e artigo não são a mesma coisa, quais adaptações são necessárias e como pensar a transformação sem perder o que importa da sua pesquisa.

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Dissertação e artigo: dois gêneros, duas lógicas

Vamos lá. Você terminou o mestrado. Tem uma dissertação de 100, 150, 200 páginas. Seu orientador diz “agora você precisa publicar isso”. E você pensa: é só recortar um capítulo e mandar para uma revista?

Não é bem assim.

Dissertação e artigo científico são dois gêneros diferentes, com propósitos diferentes, audiências diferentes, estruturas diferentes e extensões muito diferentes. O que funciona em um raramente funciona no outro sem adaptação.

Isso não significa que sua dissertação não pode virar artigo. Pode, e deve. Significa que o processo exige mais do que copiar e colar. Exige repensar o que você quer comunicar, para quem, em que formato e com qual foco.

Esse post é sobre como pensar essa transformação.

O que é diferente entre os dois gêneros

A dissertação tem uma função específica: demonstrar que você desenvolveu competência para fazer pesquisa de forma autônoma. Por isso ela é longa, detalhada, tem fundamentação teórica extensa, metodologia descrita em pormenores, revisão de literatura abrangente. O avaliador (a banca) precisa ver todo o raciocínio, todos os passos, todas as decisões que você tomou.

O artigo científico tem uma função diferente: contribuir com uma resposta clara a uma questão específica para o campo de pesquisa. O leitor de um artigo não precisa ver toda a sua trajetória. Precisa entender qual era a questão, qual foi a abordagem, o que você encontrou e o que isso significa.

Isso afeta tudo: a extensão (artigos têm limite de palavras, geralmente entre 4.000 e 8.000, muito menos do que a maioria dos capítulos de dissertação), a estrutura (IMRaD nas ciências exatas e biológicas, variações nas ciências humanas e sociais), o nível de detalhe na metodologia (suficiente para replicar, não necessariamente tudo que você fez), e o foco (um artigo responde uma pergunta, não várias).

Por onde começar: identificar a contribuição central

Antes de começar a reescrever, você precisa responder uma pergunta: qual é a contribuição original desta pesquisa?

Não todas as contribuições. Uma. A que você poderia colocar em uma frase e que justifica a existência daquele artigo específico.

Em uma dissertação, você pode ter múltiplas contribuições: uma teórica, uma metodológica, uma empírica. Cada uma dessas pode ser um artigo diferente. Tentar colocar todas no mesmo artigo geralmente resulta em um texto fragmentado que não serve bem a nenhuma delas.

A pergunta “qual é a contribuição central?” ajuda a decidir qual parte da dissertação vai virar qual artigo, e o que de cada parte precisa entrar para que o argumento faça sentido por si só.

A estrutura que mais aparece: IMRaD e suas variações

Nas ciências naturais, biomédicas e em boa parte das ciências sociais empíricas, o formato padrão para artigos empíricos é o IMRaD: Introdução, Métodos, Resultados e Discussão.

A Introdução apresenta o problema, a questão de pesquisa e a justificativa para o estudo. É muito diferente da introdução de uma dissertação: não é uma apresentação geral do tema, é uma construção de argumento que leva diretamente à questão que o artigo vai responder.

Os Métodos descrevem como a pesquisa foi feita com suficiente detalhe para que outra pesquisadora pudesse replicar. O que entra aqui é uma versão condensada e focada do seu capítulo metodológico, sem as justificativas filosóficas extensas que costumam aparecer nas dissertações.

Os Resultados apresentam o que foi encontrado, sem interpretação. O que você coletou, o que as análises mostram, os dados que respondem à pergunta.

A Discussão interpreta os resultados, os conecta com a literatura existente, e explica o que eles significam para o campo. É onde você mostra por que os resultados importam.

Nas ciências humanas, o formato pode variar. Artigos teóricos não seguem IMRaD. Artigos de revisão têm estrutura própria. Artigos de pesquisa qualitativa muitas vezes integram resultados e discussão. Mas mesmo com essas variações, a lógica central é a mesma: foco em uma questão, argumento claro, contribuição específica.

A revisão de literatura: de extensa para precisa

Uma das transformações mais difíceis é a revisão de literatura.

Na dissertação, ela é longa porque precisa demonstrar domínio do campo. Você leu muito, mostra que leu, contextualiza sua pesquisa em relação a décadas de produção.

No artigo, a revisão de literatura (geralmente parte da introdução, não uma seção separada) tem outra função: posicionar sua contribuição em relação ao que existe. Isso é mais cirúrgico. Você cita o que é necessário para mostrar que a sua pergunta ainda não foi respondida da forma que você respondeu, ou que sua abordagem traz algo novo.

A pergunta que ajuda a selecionar o que entra: “esta referência é necessária para sustentar meu argumento específico neste artigo?” Se sim, fica. Se está ali só para mostrar que você leu, não precisa.

Isso vai parecer que você está jogando fora trabalho. Não está. Está guardando para o próximo artigo, ou para revisões de literatura futuras.

O corte metodológico: o que fica, o que vai

O capítulo metodológico da dissertação frequentemente tem mais páginas do que o artigo vai ter de seções de metodologia.

O que precisa ficar no artigo é o suficiente para que a pesquisa seja compreensível e, idealmente, replicável: o design do estudo, os participantes ou fontes (com os critérios de seleção relevantes), os instrumentos ou procedimentos centrais, e as análises utilizadas.

O que geralmente pode ser resumido ou retirado: a fundamentação filosófica extensa para a escolha metodológica (pode ir para uma nota de rodapé ou ser mencionada brevemente), detalhes de procedimentos que não afetam a interpretação dos resultados, e considerações sobre o que você considerou e descartou.

O limite entre o suficiente e o insuficiente metodologicamente é julgado pelos revisores. Mas a orientação geral é: suficiente para confiar nos resultados e suficiente para replicar.

Reescrever versus adaptar

Tem uma distinção importante aqui que muita gente evita reconhecer: a melhor versão de um artigo derivado de dissertação raramente é uma adaptação. É uma reescrita.

Adaptar significa pegar o texto existente e fazer ajustes. Reescrever significa começar com a pergunta que o artigo vai responder e construir o texto a partir daí, usando o material da dissertação como fonte.

Reescrever é mais trabalhoso. Também produz textos muito melhores. Um texto que foi escrito para responder uma pergunta específica tem uma coerência que um texto adaptado de um texto maior raramente alcança.

Isso não significa que você não vai usar partes do texto da dissertação. Vai. Mas o ponto de partida é a contribuição do artigo, não a estrutura da dissertação.

Se você quer aprofundar a perspectiva sobre como estruturar escrita científica com foco em contribuição e clareza, o Método V.O.E. trabalha exatamente com isso: Validação, Organização e Expressão da sua pesquisa de forma que gere impacto real.

Quando submeter e para qual revista

Antes de submeter, duas decisões precisam ser feitas: para qual revista e em qual momento.

A escolha da revista deve vir antes de começar a escrever o artigo, não depois. Cada revista tem escopo, formato e extensão específicos. Escrever o artigo para uma revista genérica e depois adaptar para várias é menos eficiente do que já começar com uma revista em mente.

Os critérios para escolher incluem: o escopo temático (a revista publica pesquisas na sua área e com o seu tipo de abordagem?), o índice de impacto ou o qualis da área (relevante se você está pensando em progressão acadêmica), o tempo médio de avaliação (algumas revistas levam meses, outras mais de um ano), e a política de acesso (aberto ou não, e qual o custo de publicação se houver APC, o Article Processing Charge).

Quanto ao momento, submeter logo depois de concluir o mestrado tem vantagens: a pesquisa está fresca na sua cabeça, o campo ainda está próximo, a motivação ainda existe. Esperar demais pode fazer com que você nunca submeta.

O artigo que você não publicou também é perda

Faz sentido? A dissertação aprovada é um passo. Os artigos que derivam dela são o que fazem a pesquisa entrar em circulação, ser citada, ser debatida, contribuir para o campo de forma que vai além da avaliação da banca.

Não publicar é uma forma de deixar a pesquisa incompleta. Não porque a dissertação seja insuficiente, mas porque o ciclo completo de uma pesquisa inclui a comunicação do que foi encontrado para a comunidade que pode usar esse conhecimento.

Você fez o trabalho mais difícil. A transformação em artigo é trabalhosa, mas é o passo que faz o trabalho durar.

Perguntas frequentes

Posso simplesmente pegar um capítulo da dissertação e submeter como artigo?
Não diretamente. Um capítulo de dissertação geralmente é muito extenso, tem uma função diferente dentro do texto maior, e não segue o formato dos artigos científicos. É preciso reescrever com o foco, a estrutura e a extensão adequados para a publicação periódica.
Qual parte da dissertação vira artigo mais facilmente?
Geralmente os capítulos de resultados e discussão, porque têm contribuições originais e resposta direta a uma questão de pesquisa. Capítulos teóricos e metodológicos podem gerar artigos de revisão ou de método, mas exigem uma angulagem diferente.
Publicar a dissertação no repositório impede que eu submeta artigos derivados?
Na maioria dos casos, não. As revistas avaliam o ineditismo do artigo em si, não se a pesquisa original está depositada em repositório. Mas as políticas variam, e vale verificar as diretrizes editoriais da revista específica antes de submeter.
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