Método

Como Redigir Recomendações para Pesquisas Futuras

Aprenda a escrever recomendações para pesquisas futuras que realmente orientam outros pesquisadores, sem vagueza nem frases de efeito vazias.

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O trecho que quase todo mundo escreve mal

Vamos lá. Você passou meses (ou anos) num trabalho, chegou nas considerações finais, encerrou suas conclusões e agora precisa redigir as recomendações para pesquisas futuras. Aí escreve algo como: “Sugere-se que pesquisas futuras investiguem mais profundamente o tema” ou “Recomenda-se ampliar o escopo da pesquisa para outras regiões”.

Isso não orienta ninguém.

É vago. É genérico. É o tipo de frase que um pesquisador lê e passa direto. E o problema não é você ter errado de propósito. É que ninguém ensina direito como escrever essa parte.

Neste post, vou te mostrar o que torna uma recomendação para pesquisa futura realmente útil, quais armadilhas evitar e como estruturar cada indicação de forma que faça sentido para quem vier depois de você.

Por que as recomendações existem (e o que elas não são)

Antes de qualquer coisa, vale entender a função real dessa seção. As recomendações para pesquisas futuras existem para três coisas:

Primeiro, reconhecer as limitações do seu próprio estudo de forma construtiva. Toda pesquisa tem recorte. Quando você indica o que ficou de fora, está sendo honesto sobre o alcance do seu trabalho, não se desculpando por ele.

Segundo, orientar pesquisadores que venham depois. Um trabalho bem construído não encerra um tema, ele abre caminhos. As recomendações são a sua contribuição para esse processo coletivo de construção de conhecimento.

Terceiro, demonstrar que você entende os limites do que investigou. Um pesquisador que sabe o que fez e o que não fez tem maturidade científica. Isso se vê nas recomendações.

O que as recomendações não são: lista de coisas que você gostaria de ter feito, mas não fez por falta de tempo. E também não são frases genéricas sobre “ampliar o campo”. Isso não ajuda ninguém.

O erro mais comum: vagueza disfarçada de humildade

Existe uma confusão muito frequente entre ser modesto e ser vago. São coisas diferentes.

Ser modesto é reconhecer os limites reais do seu estudo. Ser vago é dizer que alguém deveria “estudar mais sobre o assunto” sem dizer o quê, onde, com quem, por qual razão ou usando qual abordagem.

Veja a diferença entre esses dois exemplos:

Recomendação vaga: “Recomenda-se que pesquisas futuras ampliem o universo amostral para validar os achados.”

Recomendação útil: “Esta pesquisa foi conduzida com profissionais de saúde em dois hospitais públicos do estado de São Paulo. Os resultados podem diferir em contextos privados ou em regiões com perfil socioeconômico distinto. Estudos futuros com amostras diversificadas geograficamente poderiam testar a generalidade dos achados sobre burnout e rotatividade.”

A segunda não é mais longa por vaidade. É mais longa porque tem contexto, fundamentação e direcionamento. Quando um pesquisador ler, saberá exatamente o que está sendo sugerido e por quê.

De onde saem as boas recomendações

A resposta mais direta: das suas próprias limitações e dos seus resultados inesperados.

Das limitações declaradas

Se você já tem uma seção de limitações no seu trabalho (e deveria ter), olhe para elas uma a uma e pergunte: isso é material para uma recomendação de pesquisa? Se uma limitação abre uma questão investigável, vire ela numa recomendação.

Exemplo: se a sua limitação foi “a coleta de dados foi feita em apenas um momento no tempo (corte transversal)”, sua recomendação pode ser: “estudos longitudinais com acompanhamento de 12 a 24 meses poderiam examinar se os padrões observados se mantêm ao longo do tempo”.

Dos resultados que surpreenderam

Pesquisa que corre exatamente como planejado é rara. Às vezes você encontra um resultado inesperado que não cabia no escopo do seu estudo, mas que gritou “me investiga!”. Isso é material precioso para recomendação.

Não tenha medo de dizer: “Durante a análise, identificamos uma tendência [X] que não estava prevista no design da pesquisa e que mereceria investigação específica, especialmente considerando [contexto].”

Das questões que você não pôde responder

Sua pergunta de pesquisa tinha um recorte. Fora dele ficaram outras perguntas igualmente legítimas. Quando você identifica essas lacunas, está fazendo um serviço à área.

Se você estudou a perspectiva dos professores sobre determinada prática pedagógica, uma recomendação natural é investigar a perspectiva dos estudantes sobre o mesmo fenômeno. Não porque você falhou, mas porque o olhar de um não substitui o do outro.

Como estruturar cada recomendação

Uma boa recomendação tem três elementos: o que ficou de fora ou aberto, por que isso importa e como seria possível investigar. Não precisa ser longo. Pode caber em dois ou três parágrafos ou numa seção corrida com subtópicos.

Estrutura básica:

  1. Contextualize o ponto de partida (o que o seu estudo fez ou não fez)
  2. Aponte a questão em aberto (o que ficou sem resposta ou surgiu como novo problema)
  3. Sugira uma direção metodológica ou teórica (abordagem qualitativa, comparativa, longitudinal, outro grupo, outra região etc.)

Você não precisa montar um projeto de pesquisa completo. Mas precisa dar o suficiente para que alguém entenda para onde olhar.

Exemplo completo de recomendação bem estruturada:

“Este trabalho utilizou análise documental e entrevistas semiestruturadas com gestores de três organizações do terceiro setor. A perspectiva dos beneficiários diretos das ações não foi incluída no escopo. Pesquisas futuras que adotem metodologias participativas ou grupos focais com essa população poderiam oferecer dados complementares sobre a efetividade percebida das intervenções e eventuais lacunas entre intenção organizacional e impacto real.”

Faz sentido? Isso orienta. Isso contribui.

O que evitar em cada recomendação

Algumas frases funcionam como armadilha. Elas parecem bem escritas, mas dizem quase nada:

“Recomenda-se que pesquisas futuras aprofundem o tema.” O que é aprofundar? Aprofundar como? Em que direção?

“Sugere-se ampliar o tamanho amostral.” Para chegar a que número? Em busca de quê? Com qual hipótese de que isso mudaria os resultados?

“Seria interessante investigar o tema em outros contextos.” Quais contextos? Por que esses e não outros? O que você espera que seja diferente?

Toda vez que você escrever uma recomendação genérica, pergunte: se eu fosse um pesquisador lendo isso, eu saberia o que fazer? Se a resposta for não, reescreva.

Quantas recomendações incluir

Não existe número mágico. Mas alguns parâmetros ajudam.

Em artigos científicos, 2 a 3 recomendações bem fundadas são mais eficazes do que 7 genéricas. Em dissertações e teses, 3 a 5 costuma ser o range adequado. O critério não é quantidade, é qualidade e pertinência.

Cada recomendação precisa estar ancorada em algo real do seu trabalho. Se você está inventando recomendação só para encher, está fazendo o leitor perder tempo, e pior, está poluindo a literatura com direções que não têm base sólida.

Uma dica prática: liste todas as limitações e todos os resultados inesperados do seu estudo. Para cada um, tente formular uma recomendação. Aí filtre as que são mais relevantes e específicas. As demais, descarte sem culpa.

Recomendações no Método V.O.E.

Quando trabalho com orientandas pelo Método V.O.E., sempre dedico um momento específico à revisão das considerações finais, incluindo recomendações. Não porque seja um trecho complicado, mas porque é o trecho que mais revela a maturidade da pesquisadora.

Uma orientanda que escreve recomendações vagas provavelmente não refletiu fundo sobre os limites do próprio trabalho. Uma que escreve com clareza e contexto demonstra que entende o que fez e o que não fez. Isso conta na banca. Conta na publicação. Conta na trajetória.

O exercício que eu sugiro é simples: pegue cada recomendação e leia em voz alta como se estivesse explicando para uma colega. Se soar vago ou genérico na fala, vai soar vago ou genérico no texto também. Reescreva até fazer sentido na conversa.

Considerações finais sobre as recomendações finais

Olha só: essa seção do seu trabalho é menor do que as anteriores, mas não é menos importante. Ela mostra que você pensa além do que fez, que enxerga o seu trabalho dentro de uma conversa maior da área, e que tem responsabilidade com quem vem depois.

Boas recomendações para pesquisas futuras não precisam ser longas. Precisam ser claras, fundamentadas e úteis. Nada de frases soltas, nada de ampliar o universo amostral sem dizer para onde. Contexto, questão, direção. Assim.

Se você quer aprofundar a forma como organiza e escreve cada seção do seu trabalho, os recursos do blog têm materiais de apoio. E se quiser discutir as suas recomendações especificamente, é só chegar.

Perguntas frequentes

O que são recomendações para pesquisas futuras?
São indicações ao final de um trabalho acadêmico (dissertação, tese ou artigo) que apontam lacunas não investigadas, questões abertas ou desdobramentos possíveis a partir dos resultados obtidos. Devem ser específicas e fundamentadas nos limites do próprio estudo.
Quantas recomendações para pesquisas futuras devo incluir?
Não existe número fixo, mas 3 a 5 recomendações objetivas são suficientes para a maioria dos trabalhos. O que importa é que cada recomendação tenha razão de ser clara, ligada às limitações do estudo ou a questões que surgiram durante a pesquisa.
Recomendações para pesquisas futuras ficam nas considerações finais ou em uma seção separada?
Depende do estilo e das normas da sua área. Em dissertações e teses, o mais comum é incluí-las nas considerações finais, após as conclusões. Em artigos científicos, podem aparecer em uma subseção de discussão ou ao final das conclusões.
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