Como organizar referências com Zotero e Mendeley
Zotero ou Mendeley? Entenda como gerenciadores de referências funcionam e por que usar um deles vai mudar sua relação com a escrita acadêmica.
A crise das referências que todo pesquisador conhece
Olha só. Você está na fase final da dissertação. Passou semanas lendo, coletou 80, 100 artigos. Mas agora, na hora de montar a lista de referências, você não lembra qual PDF está em qual pasta. Tem três versões do mesmo artigo salvo com nomes diferentes. E a ABNT está te perseguindo nos sonhos.
Esse cenário não é inevitável. Ele é o resultado de não ter um sistema desde o início.
Gerenciadores de referências existem para resolver exatamente esse problema. E se você ainda não usa um, vou te contar por que isso vai mudar assim que você começar.
O que é um gerenciador de referências
Um gerenciador de referências é um software que armazena, organiza e formata suas fontes bibliográficas. Você salva um artigo, ele extrai os metadados automaticamente (título, autores, periódico, ano, DOI) e formata a referência no estilo que você precisar: ABNT, APA, Vancouver, o que for.
Quando você escreve no Word com o plugin instalado, você insere citações diretamente do programa. A lista de referências se atualiza sozinha ao final. Você adiciona uma fonte, ela aparece na lista. Você remove uma citação do texto, a referência desaparece da lista.
Parece simples, e é. A parte que demora é criar o hábito de salvar tudo no gerenciador desde o início da pesquisa, antes de já ter 60 artigos espalhados por pastas aleatórias.
Zotero: o favorito da academia independente
Zotero é gratuito, de código aberto e mantido pela Corporation for Digital Scholarship, uma organização sem fins lucrativos. Não pertence a nenhuma editora, o que significa que não tem conflito de interesse na forma como indexa ou recomenda artigos.
O Zotero tem um plugin para navegador chamado Zotero Connector. Quando você está em uma página do PubMed, Scielo, Scopus ou Google Scholar, aparece um ícone na barra do navegador. Um clique salva o artigo com todos os metadados direto na sua biblioteca. Se o PDF estiver disponível, ele baixa também.
Funcionalidades que fazem diferença:
Grupos: você pode criar bibliotecas compartilhadas com seu orientador ou grupo de pesquisa. Todos acessam as mesmas referências, comentam nos PDFs, adicionam notas.
Tags e coleções: organize seus artigos em pastas (coleções) e use tags para marcar por tema, metodologia, status de leitura, o que fizer mais sentido para você.
Notas: escreva notas diretamente vinculadas à referência. Quando você retornar ao artigo meses depois, suas anotações estão lá.
Estilos CSL: o repositório de estilos do Zotero tem mais de 10 mil estilos de citação, incluindo ABNT em diferentes versões. Você instala o estilo uma vez e ele fica disponível para sempre.
O plano gratuito do Zotero inclui 300 MB de armazenamento em nuvem para arquivos. Para a maioria das dissertações, isso é suficiente se você não fizer backup de PDFs na nuvem deles (pode guardar os PDFs localmente e sincronizar apenas os metadados).
Mendeley: a opção da Elsevier com interface amigável
Mendeley pertence à Elsevier e tem uma interface um pouco mais visual, o que pode ser mais intuitivo para quem está começando. Oferece 2 GB de armazenamento gratuito, mais do que o Zotero na nuvem.
A integração com a base Scopus é direta: você pode buscar artigos dentro do próprio Mendeley. Para quem usa muito o Scopus, isso pode ser uma vantagem.
O plugin para Word funciona bem e a lógica de uso é parecida com o Zotero: você cita enquanto escreve, a lista de referências se forma sozinha.
Pontos de atenção: como pertence a uma editora comercial, houve mudanças nos planos e na interface ao longo dos anos que frustraram parte dos usuários. O suporte à ABNT via estilos comunitários também costuma ser um pouco mais atrasado em relação ao Zotero.
Como configurar o Zotero para ABNT (passo a passo conceitual)
Vou descrever o processo sem entrar em detalhes de interface, porque ela muda com atualizações. O fluxo é:
Baixe o Zotero em zotero.org e instale no seu computador. Instale também o Zotero Connector no seu navegador (disponível para Chrome, Firefox e Edge).
Acesse o repositório de estilos do Zotero (Preferências > Citar > Obter outros estilos) e busque por “ABNT”. Instale o estilo correspondente à norma vigente.
Instale o plugin do Zotero para Word (ou LibreOffice). Ele aparece como uma aba “Zotero” na barra do seu editor de texto.
Para citar no texto: clique em “Add/Edit Citation” na aba Zotero, busque o artigo na sua biblioteca, insira. A citação aparece formatada.
Para gerar a lista de referências: clique em “Add/Edit Bibliography” e a lista completa aparece, já formatada em ABNT.
Se você mudar de estilo (por exemplo, seu orientador pediu APA em vez de ABNT), você troca o estilo nas configurações e todas as citações e referências se atualizam automaticamente. Um minuto de trabalho em vez de redigitar tudo.
O que fazer com os artigos que você já tem espalhados
Realidade de quem começa a usar o Zotero depois de já ter pesquisado bastante: você tem PDFs em pastas, artigos favoritos, bookmarks. Como migrar?
Para PDFs que você já tem: no Zotero, vá em Arquivo > Importar. Você pode importar PDFs e o Zotero vai tentar extrair os metadados automaticamente pelo DOI. Não funciona para todos (especialmente PDFs antigos ou sem metadados), mas para a maioria dos artigos recentes funciona bem.
Para artigos no Google Scholar: use o Zotero Connector. Quando você acessa um resultado do Scholar, o ícone do Zotero aparece no navegador e você clica para salvar.
Para referências que você tem em formato de texto (listas Word, planilhas): é mais trabalhoso. Você pode inserir manualmente ou usar a função de importar por identificador (DOI ou ISBN). Vai levar um tempo, mas você faz isso uma vez.
Organize antes de escrever: o princípio por trás do hábito
Usar um gerenciador de referências não é só sobre economizar tempo na lista final. É sobre ter clareza do que você leu, do que você ainda não leu, do que é relevante para qual parte da sua dissertação.
Quando você organiza suas referências em coleções por capítulo ou por tema, você está visualizando a estrutura da sua pesquisa. Você consegue ver onde tem lacunas, onde tem excesso, onde sua revisão ainda está fraca.
Esse tipo de organização faz parte do que chamo de fase de Orientação no Método V.O.E.: antes de escrever, você precisa saber o que tem. E saber o que tem significa ter suas fontes organizadas de forma que você consiga acessá-las, usá-las e citá-las sem perder horas procurando aquele artigo que você sabe que leu mas não lembra onde está.
Uma última coisa sobre ABNT
Sei que a norma ABNT é uma fonte constante de ansiedade, especialmente porque ela muda com o tempo e cada orientador parece ter uma interpretação diferente. O gerenciador de referências ajuda muito, mas não resolve tudo: ele formata com base nos metadados que você cadastrou. Se você salvou o artigo com dados errados, ele vai formatar errado.
Revise os metadados das suas referências antes de submeter o trabalho. Verifique nome dos autores, título exato, volume, número, páginas, DOI. Leva tempo, mas é menos tempo do que corrigir uma lista de 80 referências na mão às 23h da véspera da entrega.
E se você ainda não começou a sua revisão de literatura, veja por onde começar com as bases de dados acadêmicas. Ter as referências organizadas fica muito mais fácil quando a estratégia de busca também foi feita com método. Faz sentido, né?