Como Garantir Clareza e Coerência em Textos Acadêmicos
Aprenda por que clareza e coerência são as qualidades mais difíceis de alcançar na escrita acadêmica e como desenvolvê-las de verdade.
O Que Está Faltando no Seu Texto Acadêmico
Vamos lá. Quando um texto acadêmico “não está bom”, o que isso costuma significar, na prática?
Na maioria das vezes, o problema não é falta de conteúdo. Quem chega à fase de escrita da dissertação ou da tese geralmente leu muito, pesquisou muito, passou horas coletando e analisando dados. O conteúdo existe. O que falta, com frequência, é uma coisa bem específica: o leitor não consegue acompanhar o raciocínio.
Não porque o texto é difícil. Mas porque ele não é claro. E não porque as partes estejam erradas, mas porque elas não se encaixam. Ou seja: o problema é clareza e coerência.
São duas palavras que aparecem muito nos feedbacks de orientadores, em rubricas de avaliação, nos pareceristas. Mas raramente alguém explica, de fato, o que fazem você obtê-las. É sobre isso que vamos conversar.
Por Que Clareza É Mais Difícil do Que Parece
Clareza não é simplicidade. Escrever claramente sobre um tema complexo não significa escrever de forma superficial. Significa que o leitor consegue entender o que você quis dizer, mesmo que o tema seja difícil.
O obstáculo mais comum é a confusão entre “soar acadêmico” e “ser claro”. Muita gente aprendeu que texto acadêmico precisa ser elaborado, rebuscado, sofisticado. E aí começa a usar construções desnecessariamente complexas, substantivações excessivas, frases que se alongam por parágrafos inteiros.
Compare:
Versão turva: “A realização da identificação dos principais fatores determinantes do processo de tomada de decisão organizacional foi empreendida com vistas à obtenção de maior compreensibilidade dos mecanismos…”
Versão clara: “Identificamos os principais fatores que determinam como as organizações tomam decisões, para compreender melhor os mecanismos envolvidos…”
O conteúdo é o mesmo. A segunda versão não perdeu nada em termos de rigor. Mas ela é infinitamente mais fácil de processar.
A regra prática mais útil: se você precisar reler uma frase mais de uma vez para entender o que ela diz, ela precisa ser reescrita.
O Que Mata a Clareza na Prática
Existem alguns padrões recorrentes que comprometem a clareza dos textos acadêmicos. Reconhecê-los é metade do trabalho.
Nominalização excessiva é quando você transforma verbos em substantivos. “Realizar a avaliação” em vez de “avaliar”. “Proceder à implementação” em vez de “implementar”. Parece mais formal, mas dificulta a leitura.
Voz passiva em excesso cria frases sem sujeito claro. “Foi constatado que…” Quem constatou? A voz passiva tem uso legítimo na escrita científica, especialmente para descrever procedimentos. Mas quando ela domina todo o texto, o leitor perde o fio de quem está fazendo o quê.
Frases longas demais com múltiplas subordinadas encaixadas comprimem informação demais num único período. O leitor chega no final sem lembrar o começo.
Referências ambíguas com pronomes que poderiam se referir a dois antecedentes diferentes. “A abordagem qualitativa e a quantitativa foram usadas no estudo. Ela apresenta maior flexibilidade…” Qual delas?
Jargão sem explicação que seria compreensível para especialistas da área, mas cria barreira para qualquer outro leitor, incluindo bancas de áreas adjacentes.
Cada um desses padrões tem solução específica. Mas a solução começa pelo reconhecimento.
Coerência É Diferente de Coesão
Essa distinção é importante porque as pessoas costumam confundir as duas.
Coesão é o encadeamento do texto pela superfície: conectivos, pronomes, repetições controladas. É o “portanto”, o “além disso”, o “conforme mencionado anteriormente”. Coesão cria a sensação de que o texto flui.
Coerência é mais profunda. É a consistência lógica das ideias ao longo do texto. Um texto pode ser coeso, com muito “portanto” e “dessa forma”, e mesmo assim ser incoerente, porque as ideias que esses conectivos ligam se contradizem.
Veja este exemplo fictício de um parágrafo de dissertação:
“O objetivo deste estudo foi investigar a percepção dos professores sobre o uso de tecnologia na educação básica. Para isso, realizamos entrevistas com estudantes do ensino médio. Portanto, os dados indicam que os professores têm percepção positiva…”
Coeso: tem conectivos, as frases se encadeiam. Mas incoerente: o objetivo era investigar professores, a coleta de dados foi com estudantes, e a conclusão volta para professores. O “portanto” cria ilusão de lógica onde não há.
Coerência, em termos práticos, é verificar se as peças do texto se encaixam sem contradição: objetivo e metodologia são compatíveis? A metodologia justifica as conclusões? O referencial teórico sustenta a análise?
Como Desenvolver Coerência no Texto
A coerência precisa ser pensada antes e durante a escrita, não só na revisão.
Mapeie a estrutura argumentativa antes de escrever. Quem é meu sujeito de pesquisa? Que pergunta estou respondendo? Que argumento central estou construindo? Se você escrever sem clareza sobre isso, o texto vai derivar.
Verifique se cada seção cumpre sua função. Uma seção de metodologia deveria justificar as escolhas metodológicas em relação ao objetivo. Uma seção de resultados deveria apresentar achados em relação ao que foi coletado. Se uma seção não se conecta ao objetivo geral, ela está sobrando ou no lugar errado.
Cheque as transições entre seções. A última frase de uma seção e a primeira frase da próxima deveriam criar conexão clara. Se você não consegue explicar em uma frase por que as duas seções estão juntas, elas podem precisar de reordenação.
Revise com olhar externo. Depois de dias escrevendo, é muito difícil perceber incoerências no seu próprio texto porque sua cabeça preenche automaticamente as lacunas. Pedir para alguém ler, ou deixar o texto de lado por um ou dois dias antes de revisar, ajuda muito.
A Revisão Que Garante Clareza
Clareza não vem no primeiro rascunho. Ela vem na revisão. Isso é liberador quando você entende isso: você não precisa escrever perfeitamente na primeira versão. Você precisa escrever, e depois revisar para clareza.
Uma estratégia que funciona bem é o que chamo de revisão por camadas. Você lê o texto uma vez só para a estrutura (as partes estão na ordem certa, nada está faltando?). Outra vez para o argumento (cada parágrafo avança o raciocínio?). Outra vez para as frases (cada frase é necessária e compreensível?).
Essa abordagem em camadas evita que você fique reescrevendo a mesma frase cinco vezes sem resolver o problema real, que pode estar na estrutura, não na frase.
No Método V.O.E., trabalhamos exatamente com essa estrutura de revisão em níveis, porque cada nível exige um olhar diferente. Tentar corrigir tudo ao mesmo tempo costuma resultar em corrigir nada bem.
Leia em Voz Alta
Parece simples demais para funcionar. Funciona muito.
Quando você lê em voz alta, você processa o texto de forma diferente. Os ouvidos captam coisas que os olhos passam por cima. Você percebe quando uma frase é longa demais, quando um conectivo soa forçado, quando você travou porque a construção não faz sentido.
O critério que uso é direto: se eu travar ao ler em voz alta, a frase precisa ser reescrita. Se eu travar duas vezes no mesmo parágrafo, o problema é estrutural.
É uma ferramenta rápida e gratuita que muita gente ignora porque parece infantil. Não é. É cognitivo.
Quando Pedir Ajuda
Clareza e coerência são difíceis de avaliar no próprio texto porque você já sabe o que quis dizer. O problema é que o leitor não sabe. E para o texto funcionar, ele precisa funcionar para quem não está dentro da sua cabeça.
Por isso, em algum momento do processo, vale ter alguém de fora lendo. Não necessariamente um revisor profissional, embora isso ajude no caso de textos mais longos e em fases finais. Pode ser um colega, um orientador, um parceiro que tenha paciência para dar feedback honesto.
O que você pede que essa pessoa observe: “Você consegue entender o que estou tentando dizer em cada parte?” e “Teve algum trecho onde você perdeu o fio?” São perguntas simples que rendem informações muito concretas.
Faz sentido? Às vezes a melhor revisão não é técnica. É um par de olhos frescos que não sabe o que você estava querendo dizer.
O Texto que Faz o que Diz
No fim das contas, clareza e coerência são sobre responsabilidade com o leitor. Você está pedindo que alguém invista tempo e atenção no que você escreveu. A obrigação de ser entendido é sua, não do leitor.
Isso muda a perspectiva. Em vez de pensar “o leitor não entendeu porque não está acostumado com o tema”, você pensa “o leitor não entendeu porque meu texto não foi claro o suficiente”. São perspectivas bem diferentes, e a segunda leva a textos muito melhores.
Desenvolver clareza e coerência é trabalho. Leva tempo, leva revisões, às vezes leva reescritas inteiras. Mas é um trabalho que tem retorno direto: textos mais claros passam melhor pelas bancas, são aceitos mais facilmente pelos periódicos e são lidos de fato, em vez de abandonados na metade.
Começa com um parágrafo de cada vez.