Como Fazer Revisão Integrativa: Passo a Passo
Aprenda como fazer uma revisão integrativa da literatura: etapas, diferença para revisão sistemática, como formular a pergunta e estruturar o relatório.
Por que a revisão integrativa é tão usada e tão mal feita ao mesmo tempo
Olha só: a revisão integrativa de literatura é um dos métodos mais usados em dissertações e artigos de pós-graduação no Brasil, especialmente nas áreas de saúde, educação e ciências sociais. E ao mesmo tempo é um dos métodos mais mal compreendidos.
O problema costuma ser um dos dois: ou a pessoa acha que qualquer revisão de literatura pode ser chamada de “integrativa” bastando seguir alguns passos, ou acha que precisa do mesmo rigor de uma metanálise para fazer uma revisão integrativa de qualidade.
Nenhum dos dois extremos está certo. Este post vai te ajudar a entender o método de verdade e a aplicá-lo com rigor e clareza.
O que é revisão integrativa (e o que ela não é)
A revisão integrativa foi proposta por Broome em 1993 como uma síntese de literatura que permite incluir estudos de diferentes metodologias para dar uma visão ampla de um fenômeno. Ela é especialmente útil quando seu tema tem sido estudado tanto por abordagens quantitativas quanto qualitativas.
Diferente da revisão narrativa tradicional, a revisão integrativa tem protocolo. Diferente da revisão sistemática, ela não exige que todos os estudos sejam do mesmo tipo (por exemplo, só ensaios clínicos). Diferente da metanálise, ela não combina estatisticamente os resultados.
Em resumo: ela permite amplitude sem abrir mão do rigor.
Isso a torna adequada para perguntas do tipo: “O que a literatura diz sobre X?”, onde X é um tema que pode ter sido estudado com surveys, entrevistas, estudos de caso e revisões teóricas ao mesmo tempo.
As seis etapas da revisão integrativa
O modelo mais referenciado na literatura brasileira é o de Mendes, Silveira e Galvão (2008), publicado na Revista Texto e Contexto Enfermagem, que descreve seis etapas.
Etapa 1: Elaboração da pergunta de pesquisa
A pergunta é o ponto de partida e o fio condutor de tudo. Ela precisa ser suficientemente específica para orientar a busca, mas suficientemente aberta para captar a diversidade da literatura.
Uma estratégia útil é usar a ferramenta PICO (ou variações como PICo para estudos qualitativos):
- P: População ou problema
- I: Intervenção ou fenômeno de interesse
- C: Comparação (nem sempre aplicável)
- O: Outcome (desfecho)
Exemplo: “Quais são as estratégias de suporte psicológico utilizadas com estudantes de pós-graduação em situação de sofrimento acadêmico?” (P: estudantes de pós; I: estratégias de suporte; O: sofrimento acadêmico)
Etapa 2: Busca na literatura
Aqui você define: bases de dados, descritores e período de busca.
Bases comuns: PubMed/MEDLINE, Scopus, Web of Science, SciELO, LILACS, CINAHL, BDENF (para área de saúde); ERIC (educação); Spell (administração). Escolha as bases mais relevantes para a sua área.
Descritores: use os termos controlados de cada base quando disponíveis (DeCS para bases em saúde, MeSH para PubMed). Combine com operadores booleanos: AND, OR, NOT.
Período: defina um corte temporal com justificativa. “Últimos 5 anos” é comum, mas não obrigatório. Se o tema tem produção relevante anterior, amplie o período.
Etapa 3: Coleta de dados
Após a busca, você terá um conjunto de resultados. Aplique os critérios de inclusão e exclusão e documente cada etapa.
Use um fluxograma PRISMA adaptado para registrar:
- Quantidade de estudos encontrados por base
- Estudos removidos por duplicata
- Estudos excluídos por título e resumo
- Estudos lidos na íntegra
- Estudos incluídos na amostra final
Crie um instrumento de coleta (tabela ou formulário) para extrair dados padronizados de cada estudo: autor, ano, país, objetivo, metodologia, principais resultados.
Etapa 4: Análise crítica dos estudos
Esta é a etapa que diferencia uma revisão bem feita de uma lista comentada de artigos. Você não está apenas resumindo os estudos; está avaliando a qualidade metodológica e identificando padrões, contradições e lacunas.
Ferramentas de avaliação de qualidade variam por tipo de estudo. Para estudos qualitativos, use critérios como os do COREQ. Para estudos quantitativos, considere ferramentas como Newcastle-Ottawa Scale ou JBI. Adapte conforme o campo.
Etapa 5: Discussão dos resultados
É aqui que você sintetiza o que a literatura encontrou. Categorize os estudos em temas ou dimensões. Identifique convergências e divergências. Compare os resultados com seu referencial teórico.
Uma revisão integrativa de qualidade não repete o que cada artigo disse. Ela constrói uma narrativa de síntese que responde à pergunta de pesquisa com base no conjunto dos estudos.
Etapa 6: Apresentação da revisão
O relatório final precisa ser transparente e replicável. Inclua:
- Protocolo de busca completo (bases, descritores, operadores, período)
- Fluxograma de seleção
- Tabela com caracterização dos estudos
- Síntese temática dos resultados
- Discussão crítica e implicações
Erros comuns na revisão integrativa
Confundir com revisão narrativa: a revisão narrativa não tem protocolo explícito e não documenta o processo de busca. Chamar uma revisão narrativa de “integrativa” é um erro metodológico que a banca identifica.
Busca insuficiente: buscar em apenas uma base de dados ou sem descritores controlados compromete a representatividade da amostra.
Critérios de inclusão e exclusão vagos: “artigos relevantes para o tema” não é critério. Critérios precisam ser operacionalizáveis: língua, período, tipo de publicação, metodologia, população estudada.
Análise superficial: elencar o que cada artigo encontrou sem sintetizar não é análise crítica. A síntese é o coração da revisão.
Tabela de caracterização incompleta: omitir ano, metodologia ou periódico prejudica a análise do estado da arte.
Revisão integrativa no contexto da dissertação
A revisão integrativa pode ser o método principal de uma dissertação (quando o objetivo é mapear e sintetizar a literatura) ou pode ser a seção de revisão de literatura de uma dissertação com outros dados primários.
No segundo caso, ela serve como fundamentação rigorosa para as escolhas metodológicas e para a interpretação dos resultados. Ter uma revisão integrativa bem feita como referencial teórico fortalece qualquer trabalho.
O ponto-chave é sempre o mesmo: a revisão precisa responder a uma pergunta. Se você não tem uma pergunta clara, a revisão vai virar um aglomerado de artigos sobre o tema, sem fio condutor.
Precisando estruturar a escrita da revisão de literatura com mais segurança? O Método V.O.E. tem ferramentas para isso. E o caminho começa com a pergunta. Bora.