Método

Como Escrever Editorial ou Nota do Editor

Entenda o que é um editorial acadêmico, quando ele é necessário e como escrever uma nota do editor clara, objetiva e com autoridade científica.

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O editorial que ninguém explica como escrever

Vamos lá. Você passa anos aprendendo a escrever artigos, dissertações, teses, relatórios de pesquisa. Aprende ABNT, APA, Vancouver. Aprende estrutura IMRaD. Aprende como fazer uma revisão sistemática.

E aí chega o dia em que alguém te convida para escrever um editorial para uma revista científica — e você percebe que nunca ninguém ensinou isso.

Não está no programa do mestrado. Não tem template no site da CAPES. É um dos textos mais visíveis da academia (editores são os primeiros a ser lidos) e um dos menos ensinados formalmente.

Esse post é sobre isso: o que é um editorial acadêmico, quando e como escrever, e o que diferencia uma nota do editor de um bom editorial.

O que é, de fato, um editorial

Um editorial em revista científica não é uma introdução ao número. Não é um resumo dos artigos publicados. É um texto com voz própria.

O editor (ou o convidado) está se posicionando sobre algo: o estado da área, um debate em aberto, uma tendência emergente, um problema metodológico recorrente. Às vezes, o editorial comenta diretamente um artigo que vai ser lido logo depois. Às vezes, abre um número temático explicando por que aquele tema merece atenção agora.

O elemento central é a perspectiva. Quem escreve um editorial tem algo a dizer — não apenas a apresentar.

Por isso, editoriais são lidos de forma diferente dos artigos. O leitor quer saber o que a pessoa pensa, não apenas o que os dados dizem.

Nota do editor: um gênero diferente

A nota do editor é mais operacional. Ela aparece quando:

  • A revista está lançando uma nova política editorial
  • Houve um erro em publicação anterior (errata)
  • Um número especial precisa de contextualização breve
  • A equipe editorial quer agradecer parceiros, anunciar mudanças de ISSN, nova indexação, mudança de plataforma

A nota costuma ser mais curta (100 a 400 palavras), redigida em terceira pessoa ou pela equipe coletivamente, e sem pretensão de argumento desenvolvido.

Se você está escrevendo uma nota, o critério principal é clareza. O leitor precisa entender exatamente o que está sendo informado, sem ambiguidade.

A estrutura de um editorial que funciona

Editoriais não têm estrutura rígida — e isso é o que confunde quem nunca escreveu um. Mas há uma lógica que aparece nos bons textos:

1. Ponto de entrada (contexto ou provocação) O editorial não começa com “Este número da revista…”. Começa com uma observação, uma tensão, uma pergunta que o leitor vai reconhecer. Às vezes uma estatística recente. Às vezes uma mudança de paradigma que está acontecendo na área.

2. Posicionamento claro do autor Cedo no texto (no máximo no segundo parágrafo), o leitor precisa entender o que o autor está defendendo, questionando ou iluminando. Não pode ficar para o final.

3. Desenvolvimento com argumento Mesmo num editorial curto, há desenvolvimento. O autor traz evidências, exemplos, referências relevantes — mas de forma mais fluida do que num artigo. É permitido citar sem tabela de resultados.

4. Conexão com o número ou com o campo Quando o editorial abre um número da revista, é elegante conectar o argumento central com os artigos que seguem — sem resumir cada um, mas mostrando a coerência do conjunto.

5. Fechamento com perspectiva O editorial termina com alguma abertura: uma pergunta que o campo ainda precisa responder, um convite ao debate, uma afirmação que convida à reflexão. Não finaliza com conclusão de artigo — finaliza com movimento.

O que torna um editorial fraco

Depois de ler muitos editoriais (e escrever alguns), percebo que os fracos têm padrões comuns:

Resumo disfarçado de editorial. O texto lista o que cada artigo do número aborda, parágrafo por parágrafo. É uma sinopse, não um editorial. O leitor não aprende nada novo e o editor não se posiciona.

Ausência de voz. A escrita é tão técnica e impessoal que parece um abstract alargado. Editorial bom tem uma pessoa por trás — alguém que escolheu escrever aquilo naquele momento.

Generalidades sem ancoragem. “A área de educação vive um momento de transformação.” Pode ser verdade, mas o que isso quer dizer? O editorial fraco enuncia tendências sem especificar, sem dar exemplos, sem mostrar por que isso importa agora.

Excesso de autopromocão. Citar os próprios trabalhos extensivamente, promover o grupo de pesquisa, mencionar o projeto financiado — tudo isso existe nos editoriais fracos. O leitor percebe.

Comprimento, tom e referências

Editoriais variam bastante em extensão conforme a revista e a tradição da área. Em ciências sociais e humanas, é comum ter de 800 a 1.500 palavras. Em ciências da saúde, muitos editoriais são mais curtos — 500 a 800 palavras.

O tom é mais direto do que o de um artigo. Menos hedging (“pode-se aventar a hipótese de que…”), mais assertividade quando o argumento sustenta.

Referências existem, mas são seletivas. Não é uma revisão. Você cita o que ancora o argumento, o que o leitor deveria conhecer, o que acabou de ser publicado e é relevante para o contexto.

Como o Método V.O.E. se aplica aqui

Quando uso o Método V.O.E. para pensar um editorial, começo pela voz: o que eu, como especialista, realmente penso sobre isso? Qual é o meu posicionamento genuíno?

Depois passa pela ordem: o que o leitor precisa saber primeiro para que o argumento faça sentido? E finalmente pela estrutura da escrita (o E de escrita no V.O.E.) — como transformar esse posicionamento num texto coeso, com ritmo, que respeite o leitor.

A diferença entre um editorial que é lido até o fim e um que é pulado geralmente não está no tema. Está na clareza de voz.

Se você foi convidado para escrever um editorial

Primeiro: é um reconhecimento real. Não subestime. Significa que alguém na sua área considera sua perspectiva relevante o suficiente para abrir um número de revista.

Segundo: pergunte ao editor o escopo esperado. Comprimento, prazo, se há tema específico, se é um número especial ou regular.

Terceiro: escreva como se estivesse falando para um colega de área — alguém que conhece o campo, mas que vai se beneficiar da sua perspectiva específica. Nem muito técnico, nem condescendente.

Quarto: releia com olho crítico para o posicionamento. Se você consegue substituir seu nome por qualquer outro pesquisador da área e o texto continua fazendo sentido, provavelmente ainda está genérico demais. Bom editorial tem autoria reconhecível.


Erros que pesquisadores cometem no primeiro editorial

Quem escreve o primeiro editorial quase sempre cai em uma dessas armadilhas:

Começa pedindo desculpas. “Não sou expert em todos os artigos deste número, mas…” O leitor não precisa saber disso. Se você foi convidado, é porque tem perspectiva relevante. Assuma o espaço.

Confunde humildade com apagamento. Há uma diferença entre não se autopromover e não ter opinião. Editorial sem ponto de vista é texto morto.

Usa o editorial para fazer uma revisão de literatura expressa. Quinze referências em 800 palavras. Parece trabalho escolar, não editorial.

Termina com mais resumo. O último parágrafo volta a listar os artigos. Mas o fechamento de um editorial deveria olhar para frente, não para dentro do próprio número.

Saber esses erros antes de escrever já é metade do caminho.

Diferença prática: editorial de abertura vs. editorial temático

Nem todo editorial é igual. Os dois tipos mais comuns em periódicos brasileiros são:

Editorial de abertura de número regular: mais curto, apresenta o número, mas acrescenta reflexão sobre o campo. Costuma ter entre 500 e 800 palavras.

Editorial de número temático: mais longo (800 a 1.500 palavras), justifica a escolha do tema, apresenta o estado atual da discussão, contextualiza por que agora. Este editorial frequentemente é escrito por convidados externos que lideraram a chamada de artigos daquele número.

Se você foi convidado para o segundo tipo, trate-o como um artigo de perspectiva (perspective paper). A responsabilidade intelectual é maior — e a leitura também.


A maioria das pessoas que chega à academia aprende a escrever fazendo: errando, recebendo revisão, tentando de novo. Com editorial não é diferente — mas ter clareza sobre o gênero antes de escrever poupa um ciclo inteiro de revisão. Faz sentido?

Perguntas frequentes

O que é um editorial em revista científica?
Um editorial é um texto autoral assinado pelo editor-chefe ou por um convidado que apresenta, contextualiza ou comenta o número da revista, um tema especial ou uma questão relevante da área. Ele difere de artigos de pesquisa porque não apresenta resultados empíricos — expressa posição, perspectiva ou síntese.
Qual a diferença entre editorial e nota do editor?
O editorial é um texto mais longo (500 a 1.500 palavras), com argumento desenvolvido e autoria identificada. A nota do editor é mais curta (100 a 400 palavras), geralmente não assinada ou assinada pela equipe editorial, e serve para explicar decisões editoriais, erros de publicação (erratas) ou contexto de um número especial.
Como um pesquisador é convidado a escrever um editorial?
Normalmente o convite vem do editor-chefe da revista, que seleciona especialistas reconhecidos na área ou autores com publicação recente no mesmo periódico. Pesquisadores com boa produção no Lattes e visibilidade nas bases de dados (Scopus, Web of Science) têm mais chances de receber esse convite.
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