Como Escrever Considerações Finais vs Conclusão
Considerações finais ou conclusão? Entenda a diferença real entre esses dois termos e como estruturar o fechamento da sua dissertação ou tese com clareza.
O fechamento que define como o trabalho vai ser lembrado
Olha só: a última impressão conta muito. Nas dissertações e teses, o fechamento, seja chamado de considerações finais ou conclusão, é o que o leitor carrega consigo depois de terminar a leitura.
Uma seção final mal redigida pode comprometer a percepção de um trabalho que foi bem conduzido em todas as outras partes. Uma seção final bem redigida pode consolidar e ampliar o impacto de um trabalho sólido.
E apesar disso, essa seção frequentemente é escrita com pressa, no final do prazo, com energia mínima. O resultado são páginas que repetem o que já foi dito, sem síntese real, sem fechamento genuíno.
Vamos mudar isso.
Considerações finais vs. conclusão: a diferença importa
A distinção entre os dois termos não é apenas nominal. Ela reflete diferenças epistemológicas reais que muitos programas levam a sério.
Conclusão implica fechamento definitivo. É o que você conclui dos dados: um conjunto de proposições sustentadas pelas evidências coletadas. O termo é mais comum em pesquisas experimentais e em áreas como as Ciências Exatas e da Saúde, onde é mais viável afirmar algo de forma conclusiva.
Considerações finais é um termo mais adequado quando o pesquisador quer ir além do que os dados permitem concluir diretamente. Inclui reflexões, conexões com o contexto mais amplo, ponderações sobre implicações que são interpretativas mas fundamentadas. É o termo mais usado nas Ciências Humanas e Sociais no Brasil, exatamente porque essas áreas trabalham com fenômenos que raramente admitem conclusões absolutas.
Usar o termo errado não vai reprovar sua dissertação, mas demonstrar que você entende a diferença e escolhe o termo adequado para sua área e tipo de pesquisa é um sinal de sofisticação metodológica.
O que deve aparecer nessa seção
Independentemente do nome, a seção de fechamento precisa cumprir algumas funções:
Retomada do objetivo e da pergunta
Você começa lembrando ao leitor de onde partiu. Não é copiar e colar do capítulo introdutório: é uma retomada síntética, em poucas frases, que reestablece o ponto de partida antes de apresentar onde chegou.
Síntese dos achados principais
Aqui você apresenta o que encontrou, mas de forma sintética e integrada, não como lista de resultados capítulo por capítulo. A pergunta que guia essa síntese é: “O que eu aprendi com este estudo?”
Resista à tentação de resumir cada seção metodológica e cada análise. O leitor já leu o trabalho. O que ele quer aqui é a visão de conjunto.
Resposta à pergunta de pesquisa (ou avaliação da hipótese)
Esse é o momento central da seção. Você formulou uma pergunta ou hipótese no início do trabalho. Aqui você responde: o que os dados mostram em relação a essa pergunta?
Se a hipótese foi confirmada, diga. Se foi parcialmente confirmada, explique o que significa “parcialmente” no contexto dos seus achados. Se não foi confirmada, isso também é resultado e precisa ser discutido, não omitido.
Implicações
Como discutido em outro post deste blog, as implicações teóricas e práticas têm lugar nas considerações finais (ou já foram desenvolvidas na Discussão, dependendo da estrutura do trabalho). Aqui elas aparecem de forma mais sintética, conectadas diretamente aos achados principais.
Limitações
Uma menção sintética às principais limitações do estudo. Se você já tem uma seção de limitações separada, essa referência pode ser mais breve nas considerações finais.
Recomendações para pesquisas futuras
Aponta caminhos que seu trabalho não percorreu mas que os achados sugerem. Essa parte fecha o ciclo da contribuição científica: você mostra que seu trabalho não termina em si mesmo, mas alimenta o campo.
O que não deve aparecer nessa seção
Existe um conjunto de erros bastante comum que enfraquece o fechamento:
Novos dados ou novos argumentos teóricos. Se tem dado novo ou argumento novo que ainda não apareceu no trabalho, o lugar dele não é nas considerações finais. Coloque na discussão, no capítulo adequado, ou omita se não for essencial.
Repetição extensa do que já foi dito. Síntese não é repetição. Você pode mencionar os achados, mas não precisa rediscruti-los em detalhe.
Generalização além dos dados. As considerações finais devem ser coerentes com o que os dados permitem dizer. Afirmações grandiosas que excedem o escopo da pesquisa comprometem a credibilidade do trabalho inteiro.
Conclusão emocional sem conteúdo científico. “Esta pesquisa foi muito enriquecedora para minha formação como pesquisadora” pode aparecer, com moderação, em programas que encorajam essa dimensão reflexiva. Mas não substitui o conteúdo científico do fechamento.
A armadilha da repetição disfarçada de síntese
Existe uma confusão que aparece com frequência: escrever as considerações finais como uma versão comprimida de tudo que veio antes. Um parágrafo resumindo a introdução, um resumindo a fundamentação teórica, um resumindo a metodologia, um resumindo os resultados.
Isso parece síntese. Não é.
Síntese genuína é diferente de resumo. Resumo repete o conteúdo em versão menor. Síntese integra elementos distintos em algo que vai além de cada parte separada. Nas considerações finais, a síntese deve responder à pergunta: “O que este conjunto de evidências, visto como todo, significa?”
Isso requer uma perspectiva de altitude. Você precisa se afastar temporariamente do detalhe de cada capítulo e olhar para o percurso completo. O que o problema de pesquisa revelou? O que o referencial teórico permitiu enxergar que não seria possível sem ele? Como os dados dialogam com a teoria? Onde os achados confirmaram o esperado e onde surpreenderam?
Essas perguntas, respondidas com rigor e concisão, produzem uma síntese genuína. E é isso que uma boa seção de fechamento oferece ao leitor.
O que acontece quando essa seção é fraca
Vale ser direta sobre as consequências práticas de uma seção de fechamento mal redigida.
Na defesa, a banca frequentemente pede que o candidato apresente brevemente os achados principais antes das perguntas. Esse momento é praticamente a leitura em voz alta das considerações finais. Se essa seção não existe de forma clara e integrada, a apresentação fica fragmentada, e isso afeta a percepção da qualidade do trabalho.
Professores que avaliam dissertações de programas stricto sensu sabem identificar quando as considerações finais foram escritas com pressa e sem reflexão real. A ausência de conexão entre os achados, a falta de resposta clara à pergunta de pesquisa, a ausência de implicações específicas: tudo isso é perceptível.
Não é que uma seção de fechamento fraca reprove um trabalho que foi excelente nas outras partes. Mas ela diminui o impacto do que foi produzido. E quando um trabalho está na linha entre aprovado com reformulações e aprovado, essa seção pode ser a diferença.
Tom de voz nessa seção
As considerações finais pedem um tom específico: seguro sem ser arrogante, sintético sem ser superficial, aberto sem ser vago.
Evite frases que diminuem o que você encontrou: “embora com limitações, este modesto estudo talvez possa contribuir de alguma forma…” Você fez uma pesquisa séria. Apresente os resultados com a firmeza que eles merecem.
Também evite o extremo oposto: “esta pesquisa demonstra definitivamente e de forma conclusiva que…” quando seus dados apenas sugerem uma tendência. A força das afirmações precisa ser proporcional às evidências.
Um roteiro simples para quem está começando a escrever
Se você está em branco diante da página em branco, experimente esse roteiro:
- Comece com uma frase que retome o problema central do estudo.
- Em seguida, apresente em um parágrafo o que foi feito (metodologia, em síntese).
- Dedique um ou dois parágrafos aos principais achados, integrados.
- Responda explicitamente à pergunta de pesquisa.
- Um parágrafo para implicações.
- Um parágrafo para limitações.
- Um parágrafo para recomendações de pesquisa futura.
- Feche com uma frase que coloque o trabalho em perspectiva mais ampla.
Esse roteiro gera entre 3 e 5 páginas, que é a extensão adequada para a maioria das dissertações. Depois de ter o conteúdo, você revisa o texto para integrar melhor as partes e ajustar o tom.
No Método V.O.E., a etapa de fechamento faz parte de uma estrutura de escrita que considera o trabalho como um todo integrado. As considerações finais não são um apêndice: são o arco que completa o caminho iniciado na introdução.
Para modelos e exemplos de estrutura de fechamento, veja os recursos gratuitos disponíveis aqui no blog.