Como É o Mestrado em Educação: Relato Real
Um relato sem romantismo sobre como é o mestrado em educação no Brasil: a rotina, os desafios reais, o que ninguém conta antes e o que muda em você.
O mestrado que ninguém conta antes
Vamos lá. Existe uma lacuna enorme entre o que as pessoas imaginam que o mestrado em educação vai ser e o que ele é de fato.
A versão romantizada: dois anos de leituras profundas, debates instigantes, descobertas que vão mudar sua prática como professora ou gestora, escrita fluida de uma dissertação que vai contribuir para a área.
A versão real: dois anos de muita leitura difícil, de incerteza metodológica, de tardes inteiras olhando para um parágrafo que não sai, de crises existenciais sobre se você está fazendo a pergunta certa, de conciliar pesquisa com trabalho com vida. E, dentro disso tudo, alguns momentos genuinamente reveladores que fazem valer a pena.
Esse post é sobre a versão real.
Os primeiros seis meses: a desorientação produtiva
O primeiro semestre do mestrado em educação é, para a maioria das pessoas, um período de desorientação intensa. Você começa a ler autores que nunca encontrou na graduação, com referenciais teóricos que têm sua própria lógica interna, às vezes muito diferentes dos que você estava acostumado.
Freire e Vygotsky são nomes familiares. Mas nos programas de educação você vai encontrar Foucault, Bourdieu, Bernstein, Young, Laclau, Chantal Mouffe, dependendo da linha de pesquisa. E esses autores não são lidos por cima. Você lê os originais, os comentadores, os críticos.
Para quem vem da prática escolar ou da pedagogia mais aplicada, esse encontro com teoria densa pode ser desconcertante. Parece que o programa está te afastando do que você conhece para te levar para um universo abstrato sem conexão com a sala de aula.
Esse desconforto é normal. É produtivo, inclusive. Mas ninguém conta isso antes.
Como é a rotina de verdade
O mestrado acadêmico em educação tem dois grandes momentos: as disciplinas (geralmente no primeiro ano) e a pesquisa propriamente dita (com sobreposição do segundo ano).
Durante as disciplinas, a semana tem aulas semanais de três a quatro horas cada, mais as leituras obrigatórias para cada aula. Não é incomum ter de 200 a 400 páginas de leitura por semana entre duas ou três disciplinas. Leitura densa, de artigos em português e inglês, de capítulos de livros que precisam ser fichados e discutidos.
Se você trabalha e estuda, isso é um desafio real. A maioria dos programas tem aulas no período noturno para acomodar professores em exercício, mas a carga de leitura não diminui por isso.
Durante a pesquisa, a rotina muda. Você tem mais autonomia e menos estrutura. Isso é excelente para quem consegue se organizar e terrível para quem depende de agenda imposta. A dissertação não vai se escrever sozinha, e o orientador orienta mas não escreve por você.
O que te surpreende na área de educação especificamente
A área de educação tem algumas características que diferenciam o mestrado nessa área de outros campos.
É uma área com forte viés qualitativo. Entrevistas, grupos focais, etnografia escolar, análise documental, pesquisa-ação são metodologias muito mais comuns do que experimentos controlados ou análises estatísticas sofisticadas. Se você vem de áreas mais quantitativas e quer fazer pesquisa estatística em educação, é possível, mas não é o perfil dominante.
É uma área com muito debate epistemológico. Pesquisadores em educação discutem muito o que é conhecimento, como ele se produz, quem tem direito de produzi-lo. Isso enriquece, mas também pode ser cansativo se você quer menos filosofia e mais pesquisa aplicada imediata.
É uma área com forte vínculo com política pública. Muito da pesquisa em educação no Brasil está diretamente relacionada a políticas governamentais, reformas curriculares, avaliações externas como o ENEM e IDEB. Se você se interessa por isso, é um campo rico. Se prefere algo mais distante de debate político, pode ser desconfortável.
A dissertação: o bicho de sete cabeças
A dissertação é onde a maioria dos mestrandos passa pela fase mais difícil. Não porque seja impossível, mas porque é a primeira vez que muita gente enfrenta a escrita de um texto longo, original, com argumento próprio sustentado por pesquisa.
As fases mais difíceis costumam ser três:
A definição do problema de pesquisa. Muita gente entra no mestrado com uma ideia ampla e gasta o primeiro ano tentando transformá-la em uma pergunta de pesquisa específica e respondível. Essa fase de afunilamento é frustrante porque você sente que está sempre voltando, não avançando. Mas ela é necessária.
A coleta de dados. Para pesquisas qualitativas, a entrada em campo tem suas próprias imprevisibilidades. Escola que atrasa autorização, participante que desiste, CEP com pendências que atrasam. O cronograma raramente se sustenta exatamente como planejado.
A escrita dos capítulos teóricos. Muitas pessoas conseguem descrever o que fizeram na coleta, mas têm dificuldade de articular o referencial teórico com os dados de forma coesa. Esse é o ponto onde o orientador é mais necessário e mais valioso.
Grupos de pesquisa: o que são e por que importam
Uma coisa que quem está de fora não entende é o papel dos grupos de pesquisa no mestrado em educação.
Na maioria dos programas, você não está apenas vinculado a um orientador. Você está vinculado a um grupo de pesquisa, que tem outros mestrandos, doutorandos, pesquisadores em pós-doutorado, eventualmente professores colaboradores. Esse grupo se reúne regularmente para discutir pesquisas em andamento, ler textos em comum, apresentar resultados parciais.
Para quem se adapta bem a isso, o grupo de pesquisa é uma das partes mais ricas do mestrado. Você aprende com o processo de pesquisa dos outros, você recebe devolutivas antes de apresentar o trabalho em eventos, você tem um senso de pertencimento acadêmico que o estudo solitário não proporciona.
Para quem tem dificuldade de expor trabalho inacabado ou de receber críticas em público, os grupos de pesquisa podem ser intimidadores no começo. Mas quase todo mundo se adapta.
Eventos científicos e a dimensão pública da pesquisa
O mestrado em educação costuma pressionar os alunos a apresentar trabalhos em eventos científicos. Seminários internos do programa, simpósios regionais, congressos nacionais como o da ANPEd (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação).
Apresentar em eventos no começo do mestrado é desconfortável. Você tem uma pesquisa em andamento, com mais perguntas do que respostas, e vai apresentá-la para pessoas que já publicaram muito sobre o tema. Isso é intimidador.
Mas é exatamente esse desconforto que acelera o amadurecimento da pesquisa. Receber perguntas da plateia que você não tinha previsto, ouvir outras perspectivas sobre o seu tema, perceber que outros pesquisadores estão fazendo perguntas relacionadas à sua: tudo isso contribui de formas que a leitura solitária não consegue.
Se você está no mestrado e está evitando submeter trabalhos para eventos por insegurança, esse é um sinal de que você provavelmente deveria fazer o oposto.
A crise do segundo ano
Quase todo mestrando tem alguma versão de crise no segundo ano. O nome que circula nos grupos de pós é “crise da dissertação”, mas é mais do que isso.
No segundo ano, as disciplinas acabaram ou estão acabando. A estrutura da agenda semanal sumiu. A pesquisa empírica está acontecendo ou deveria estar. A escrita precisa avançar. E o prazo de dois anos começa a parecer muito mais concreto do que parecia na seleção.
Nesse período, é comum sentir que a pesquisa não é boa o suficiente, que o referencial teórico tem lacunas que você vai descobrir na hora da defesa, que todo mundo no grupo de pesquisa está mais adiantado que você.
Parte disso é real. Parte é a síndrome do impostor operando em full power. Distinguir um do outro é difícil quando você está dentro, e é aí que a relação com o orientador faz diferença.
O que ajuda nessa fase: manter um ritmo de escrita mesmo que seja pequeno (uma hora por dia é muito mais do que zero horas por dia), conversar com colegas no mesmo momento (você vai descobrir que todo mundo está passando por versão similar), e não tentar resolver todas as lacunas antes de continuar escrevendo.
O que muda em você depois do mestrado
Essa parte ninguém conta antes, e deveria.
O mestrado muda a forma como você lê. Você passa a questionar a fonte, o método, o contexto de produção de um texto. Você lê mais devagar e com mais critério.
Muda como você escuta debates. Você começa a notar quando um argumento está bem fundamentado e quando está apenas bem articulado. Isso é incômodo em conversas informais e essencial em pesquisa.
Muda sua tolerância para ambiguidade. A pesquisa em educação raramente tem respostas definitivas. Você aprende a trabalhar com isso, a afirmar com rigor o que foi possível concluir sem exagerar o alcance dos resultados.
E, frequentemente, muda a própria pergunta que você quer responder. Quem entra querendo “melhorar a educação” de forma geral costuma sair com uma pergunta muito mais específica e, por isso, muito mais potente.
Se você está decidindo se faz ou não o mestrado em educação, a pergunta mais honesta não é “vale a pena?”. É “vale a pena para o que eu quero fazer depois?”. A resposta depende de onde você quer chegar, e só você sabe isso.
Escrevo sobre os bastidores da vida acadêmica porque acredito que informação real é mais útil do que motivação vaga. Se quiser ler sobre outras perspectivas da vida na pós-graduação, a página do blog tem outros relatos.