Como declarar uso de IA na dissertação (com modelos)
Entenda como e onde declarar o uso de IA na dissertação, seguindo boas práticas e modelos adaptáveis às normas ABNT e às exigências do seu programa.
A pergunta que está chegando mais cedo do que você esperava
Olha só: a banca que defendeu no semestre passado não perguntou sobre IA. A sua pode perguntar.
Não porque existe uma cruzada contra o uso de ferramentas, mas porque a academia está em processo ativo de estabelecer como lidar com isso. Programas estão criando regulamentações. Comissões estão discutindo critérios. E pesquisadores que usam IA sem declarar estão em uma posição cada vez mais vulnerável, não porque o uso seja errado, mas porque a omissão pode ser interpretada como falta de transparência.
A declaração de uso de IA não é uma confissão. É uma prática de integridade acadêmica. Vamos entender por que ela importa e como fazer.
Por que a declaração existe
O princípio que fundamenta a declaração de uso de IA é o mesmo que fundamenta qualquer outro item de transparência metodológica: o leitor, o revisor, a banca precisam saber como o conhecimento foi produzido.
Quando você descreve como coletou seus dados, está sendo transparente sobre o processo. Quando cita as fontes que usou, está sendo transparente sobre as bases do argumento. Quando declara o uso de IA, está sendo transparente sobre as ferramentas que participaram da construção do texto ou da análise.
A lógica é simples: se o uso de IA influenciou de alguma forma o produto final da sua pesquisa, seja na escrita, na organização de dados, na análise, na revisão linguística, isso faz parte do processo e merece visibilidade.
Isso não significa que a IA fez a pesquisa por você. Significa que você foi honesto sobre como trabalhou.
O que precisa constar na declaração
Uma declaração de uso de IA eficaz tem quatro componentes:
1. O nome da ferramenta. ChatGPT, Perplexity, Gemini, DeepSeek, NotebookLM, Elicit. Ser específico importa, porque as capacidades e as políticas de uso de cada ferramenta são diferentes.
2. A versão ou período de uso, quando relevante. Para ferramentas que passam por atualizações frequentes, indicar o período de uso ajuda na replicabilidade e na contextualização.
3. A finalidade do uso. Para que a ferramenta foi usada? Revisão gramatical? Organização de notas? Apoio na análise de conteúdo? Tradução? Busca de literatura? Cada finalidade tem implicações diferentes para a integridade do trabalho.
4. A afirmação de verificação humana. O pesquisador verificou e é responsável pelo conteúdo. Essa afirmação é o que diferencia uso consciente de uso passivo.
Modelos de declaração para diferentes situações
Não existe um modelo oficial único, mas há práticas emergentes consolidadas. Abaixo estão modelos adaptáveis às situações mais comuns.
Para uso em revisão de texto e padronização linguística
“Na preparação deste texto, foi utilizado o [nome da ferramenta] para revisão gramatical e ortográfica. Todo o conteúdo foi revisado e validado pela autora, que assume inteira responsabilidade pelo texto final.”
Para uso na organização de notas e síntese de literatura
“A organização e síntese inicial das notas de leitura contou com apoio do [nome da ferramenta], versão utilizada em [mês/ano]. As sínteses foram revisadas criticamente e reescritas pela pesquisadora, e nenhum conteúdo gerado pela ferramenta foi reproduzido diretamente neste texto.”
Para uso na análise de dados qualitativos
“O [nome da ferramenta] foi utilizado como apoio na etapa de codificação inicial das entrevistas, gerando categorias preliminares que foram posteriormente revisadas, refinadas e validadas pela pesquisadora à luz do referencial teórico adotado. As categorias finais são resultado do processo interpretativo da pesquisadora, não da ferramenta.”
Para uso em tradução de documentos
“A tradução de documentos em [idioma] foi realizada com apoio de ferramenta de tradução automática ([nome da ferramenta]), com posterior revisão e validação pela pesquisadora.”
Para uso múltiplo ou integrado
“Este estudo utilizou ferramentas de inteligência artificial em diferentes etapas do processo de pesquisa: [ferramenta A] para [finalidade 1]; [ferramenta B] para [finalidade 2]. Em todos os casos, os resultados gerados pelas ferramentas foram verificados, revisados e validados pela pesquisadora. A responsabilidade intelectual pelo conteúdo deste trabalho é inteiramente da autora.”
Onde colocar a declaração na dissertação
A localização depende do programa e do tipo de uso.
Na Metodologia: é o lugar mais adequado quando a IA participou diretamente do processo de pesquisa, como análise de dados, transcrição de entrevistas ou organização de corpus. Nesse caso, a declaração faz parte da descrição do processo metodológico.
Em nota de rodapé: quando o uso foi mais pontual, como revisão gramatical de um capítulo específico, uma nota no início do capítulo ou na primeira página é suficiente.
Em seção própria ou apêndice: alguns programas pedem que a declaração de uso de IA fique em seção separada, junto com outras declarações como conflito de interesses e aprovação do Comitê de Ética. Siga a norma do seu programa quando ela existir.
Em artigos: para publicações em periódicos, cada revista tem sua política. Periódicos alinhados ao COPE e ao ICMJE pedem declaração na seção de Métodos ou em nota específica. Verifique as instruções ao autor.
Quando não declarar é um problema
A ausência de declaração só se torna um problema real em situações específicas: quando a ferramenta foi usada de forma significativa no processo de pesquisa e essa participação foi omitida deliberadamente; quando um revisor, orientador ou banca questiona e a negação é incompatível com o texto produzido; quando o uso violou alguma política específica do programa ou periódico.
Não declarar o uso de um corretor gramatical básico não vai destruir sua dissertação. Não declarar o uso de uma ferramenta que organizou seus dados de análise qualitativa, quando as categorias finais refletem fortemente o output da ferramenta, é um problema metodológico e de integridade.
A linha não é sempre fácil de traçar. Uma pergunta útil: se o orientador ou a banca soubesse que você usou essa ferramenta para esse propósito, haveria algum problema? Se a resposta for sim, a declaração é ainda mais importante. Se a resposta for não, a declaração também não vai te prejudicar.
A conversa que precisa acontecer com seu programa
Se o seu programa ainda não tem política clara sobre declaração de uso de IA, você não está sozinha nessa. A maioria dos programas brasileiros está construindo essas políticas agora, em tempo real.
Isso significa que perguntar ativamente é válido. Perguntar ao coordenador, ao orientador, à comissão de pós-graduação. A pergunta não sinaliza que você usou algo errado; sinaliza que você quer fazer certo.
E quando o programa criar a política, você já vai estar um passo à frente por ter pensado nisso antes.
Transparência como vantagem
Uma perspectiva que vale guardar: pesquisadores que declaram uso de IA de forma clara e bem fundamentada estão, na prática, demonstrando maturidade metodológica.
Eles mostram que conhecem as ferramentas, sabem para que servem, têm critério sobre quando e como usá-las, e entendem a responsabilidade que permanece com eles. Isso é bem diferente de pesquisadores que usam IA sem reflexão ou que a escondem por medo de julgamento.
A declaração de uso de IA, bem feita, não é uma fraqueza no texto. É uma evidência de que há um pesquisador consciente por trás dele.
Se você ainda não tem certeza de como enquadrar o uso que fez em um dos modelos acima, a melhor abordagem é errar pelo excesso de transparência. Declarar mais do que o necessário nunca criou problema de integridade. Omitir o que era necessário, sim.