Como Citar IA (ChatGPT, Claude, Gemini) na ABNT e APA
Como citar inteligência artificial em trabalhos acadêmicos nas normas ABNT e APA: modelos de referência para ChatGPT, Claude, Gemini e outros com exemplos práticos.
A questão que ninguém tinha antes
Olha só o cenário: você está escrevendo seu TCC, usa o ChatGPT para organizar uma seção ou verificar a lógica de um argumento, e agora não sabe se precisa citar, como citar, ou se pode usar a ferramenta sem mencionar nada.
Essa dúvida é nova e legítima. Até 2022, praticamente não existia. A partir de 2023, com a popularização das ferramentas de IA generativa, ela virou uma das perguntas mais frequentes entre estudantes e pesquisadores.
A resposta curta: depende de como você usou a ferramenta. Mas essa resposta curta não basta, então vamos destrinchar.
Dois cenários completamente diferentes
Antes de falar em como citar, precisa ficar claro que existem dois usos muito distintos de IA em trabalhos acadêmicos, e eles exigem abordagens diferentes.
Cenário 1: Você usou IA como ferramenta de apoio. Verificou a gramática, pediu sugestões de estrutura, traduziu um trecho, gerou um esboço que você reescreveu completamente. Nesse caso, o conteúdo final é seu. A IA foi uma ferramenta, como o corretor do Word ou o Google Tradutor.
Cenário 2: Você incluiu conteúdo gerado por IA diretamente no trabalho. Copiou um parágrafo, usou um exemplo gerado pela ferramenta sem transformação significativa, ou apresentou como sua uma análise que a IA produziu. Nesse caso, há implicações sérias de autoria e integridade acadêmica — independente de citação.
Esse segundo cenário é o que muitas universidades estão proibindo ou restringindo, e a citação não resolve o problema ético. Citar a IA não torna o texto seu.
O que dizem as normas em 2026
A ABNT não publicou uma norma específica para citação de ferramentas de IA até este momento. O que existe é a NBR 6023:2018, que define referências para documentos em geral, incluindo meios eletrônicos. A comunidade acadêmica tem adaptado esses formatos para IA.
A APA (American Psychological Association), por sua vez, publicou em 2023 um guia específico para citar ferramentas de IA como o ChatGPT. É uma das poucas diretrizes oficiais existentes e serve de referência mesmo para quem trabalha em normas ABNT.
Muitas universidades brasileiras publicaram, depois de 2023, guias próprios para uso e citação de IA. Verifique se sua instituição tem um documento assim antes de seguir qualquer modelo genérico.
Modelo de referência para ChatGPT na ABNT
Adaptando a NBR 6023, o formato mais usado para citar o ChatGPT como fonte é:
Na lista de referências:
OPENAI. ChatGPT [software]. Versão GPT-4o. Resposta à consulta: [descreva brevemente o que você perguntou]. [Local]: OpenAI, [ano]. Disponível em: https://chat.openai.com. Acesso em: DD mês AAAA.
Exemplo:
OPENAI. ChatGPT [software]. Versão GPT-4o. Resposta à consulta sobre estrutura de resumo acadêmico em normas ABNT. [S.l.]: OpenAI, 2026. Disponível em: https://chat.openai.com. Acesso em: 15 mar. 2026.
Na citação no texto:
(OPENAI, 2026) ou OPENAI (2026) afirma que…
Uma observação importante: se você consultou a ferramenta em múltiplas ocasiões, pode mencionar isso em nota de rodapé e colocar apenas uma referência geral na lista.
Modelo para Claude (Anthropic) na ABNT
ANTHROPIC. Claude [software]. Versão Claude 3.5 Sonnet. Resposta à consulta sobre [descrição]. [S.l.]: Anthropic, [ano]. Disponível em: https://claude.ai. Acesso em: DD mês AAAA.
Modelo para Gemini (Google) na ABNT
GOOGLE. Gemini [software]. Versão [número]. Resposta à consulta sobre [descrição]. [S.l.]: Google LLC, [ano]. Disponível em: https://gemini.google.com. Acesso em: DD mês AAAA.
Modelo para ChatGPT na APA (7ª edição)
A APA publicou orientação específica. O formato é:
Na lista de referências:
OpenAI. (2026). ChatGPT (versão GPT-4o) [Large language model]. https://chat.openai.com
No texto:
(OpenAI, 2026) ou conforme OpenAI (2026)…
Se você salvou ou imprimiu a conversa (o que é recomendado para rastreabilidade), pode incluir o permalink da conversa quando disponível.
A questão da rastreabilidade: por que salvar a conversa
Uma crítica legítima à citação de IA é: o conteúdo gerado não é estável. A mesma pergunta feita amanhã pode gerar uma resposta diferente. Isso torna a IA diferente de um livro ou artigo, onde o conteúdo é fixo.
Por isso, ao usar IA em pesquisa acadêmica, algumas práticas são recomendadas:
- Salve um screenshot ou PDF da conversa relevante
- Registre a data exata da consulta
- Descreva o prompt com precisão — o que você perguntou influencia diretamente o que foi gerado
- Guarde na documentação da pesquisa, mesmo que não seja publicada
Essas práticas não são apenas formais. Elas protegem você de questionamentos futuros sobre como o conteúdo foi produzido.
O que sua universidade pode exigir
Cada vez mais, universidades brasileiras estão publicando políticas de uso de IA em trabalhos acadêmicos. Essas políticas variam muito: algumas proíbem completamente, outras permitem com declaração de uso, outras exigem que o uso seja detalhado na seção de metodologia.
Antes de qualquer coisa, consulte:
- O regulamento de TCC ou dissertação da sua instituição
- As diretrizes do seu PPG (para pós-graduação)
- As instruções de autores dos periódicos onde pretende submeter
Submissão sem respeito às políticas da instituição ou periódico pode resultar em rejeição ou, em casos graves, em acusação de má conduta acadêmica.
Citar não resolve o problema ético
Preciso dizer isso claramente: colocar uma referência à IA na lista bibliográfica não torna ético o uso indevido da ferramenta.
Se o conteúdo do seu trabalho foi gerado por IA e você o apresenta como produção intelectual própria, sem transformação significativa, isso é desonestidade acadêmica. A citação não modifica esse fato.
O uso ético de IA na academia envolve usar a ferramenta para potencializar seu trabalho, não para substituí-lo. Ferramentas de IA são muito boas para organizar informações, sugerir estruturas, identificar inconsistências e apoiar tarefas operacionais. São muito ruins para substituir o pensamento crítico, a revisão teórica aprofundada e a argumentação própria.
Se quiser entender melhor onde está a linha entre uso legítimo e problemático, o post sobre como usar IA de forma ética na faculdade aprofunda esse debate.
Um campo em movimento
O campo das normas de citação de IA ainda está se formando. O que existe hoje, em 2026, é uma combinação de adaptações de normas existentes, guias publicados por associações como a APA, e políticas institucionais heterogêneas.
Isso não é um problema sem solução, é uma característica de um campo em transformação. E quem navega bem nessa transição é quem entende tanto os princípios das normas quanto a lógica por trás delas.
No Método V.O.E., um dos temas que discutimos é exatamente esse: como usar ferramentas de forma estratégica sem comprometer a integridade do processo científico. Não é uma questão de proibir ou permitir tudo. É uma questão de critério.
Checklist para uso e citação responsável de IA
Antes de finalizar o trabalho e incluir IA nas referências, passe por esse checklist:
- O que a IA fez exatamente? Gerou texto, organizou informações, traduziu, corrigiu gramática?
- O conteúdo gerado está no trabalho sem transformação significativa?
- Sua universidade tem política de uso de IA? Você a leu?
- A descrição do prompt está clara o suficiente para ser reproduzida?
- Você salvou a conversa ou registrou a data?
- A citação está no formato adaptado da NBR 6023 ou APA, conforme sua área?
Se passar por todos esses pontos com respostas claras, você está em terreno sólido. Se algum ponto deixou dúvida, vale revisitar antes de submeter.
A transparência sobre o uso de ferramentas é, no fundo, um exercício de integridade. E integridade na academia não é burocracia: é o que garante que o conhecimento produzido seja confiável. Isso vale tanto para as referências quanto para todo o processo de pesquisa.