Citação Direta: Como Usar Corretamente na ABNT
Entenda o que é citação direta, quando usar no trabalho acadêmico, como formatar pela ABNT e por que o uso excessivo compromete o texto científico.
A citação que virou bengala
Olha só: citação direta existe por uma razão muito específica na escrita acadêmica. Ela serve para situações em que as palavras exatas do autor importam tanto que qualquer mudança alteraria o sentido ou o peso do que foi dito.
O problema é que, na prática, a citação direta virou bengala em muitos trabalhos acadêmicos. Quando a pesquisadora não sabe como desenvolver um argumento, cita. Quando não está segura do que dizer, cita. Quando quer “encher” uma página, cita.
O resultado é um texto onde a voz da autora desaparece, substituída por uma colagem de vozes de outros autores. Isso não é escrita acadêmica de qualidade: é ausência de escrita acadêmica.
Esse guia trata dos dois lados: como usar a citação direta de forma tecnicamente correta, e quando não usá-la.
O que é citação direta (e o que não é)
Citação direta é a reprodução literal de um trecho de outra obra. Literal significa: exatamente as mesmas palavras, na mesma ordem, com a mesma pontuação. Se você mudou uma vírgula, acrescentou uma palavra, reorganizou a frase, não é mais citação direta: é paráfrase.
A paráfrase, ou citação indireta, é quando você reproduz a ideia do autor com suas próprias palavras. Ela também exige referência ao autor, mas não exige aspas nem indicação de página (embora a indicação de página seja recomendável mesmo na citação indireta pela ABNT).
Uma confusão comum: muitas pesquisadoras acreditam que toda referência a um autor é citação direta. Não é. Você pode mencionar a teoria de um autor, o argumento de um autor, as conclusões de um autor, sem citar diretamente. A maioria das referências em um bom texto acadêmico é indireta.
Como formatar pela ABNT
A norma que regula citações em trabalhos acadêmicos no Brasil é a NBR 10520, da ABNT. Ela diferencia citações curtas de longas com base no número de linhas no texto final.
Citação direta curta (até 3 linhas)
Fica inserida no corpo do texto, entre aspas duplas. A indicação da autoria segue o padrão vigente para o sistema de citação adotado pelo programa (autor-data ou numérico).
Exemplo no sistema autor-data:
“A escrita científica é, antes de tudo, um ato comunicativo” (SILVA, 2020, p. 45).
Ou, quando o nome do autor já aparece no texto:
Segundo Silva (2020, p. 45), “a escrita científica é, antes de tudo, um ato comunicativo”.
Observe que a página é obrigatória na citação direta. Sem a página, a referência é incompleta.
Se o trecho original contiver aspas simples, elas se mantêm. Se contiver aspas duplas, elas são substituídas por aspas simples dentro da citação.
Citação direta longa (mais de 3 linhas)
Fica em parágrafo separado, sem aspas, com as seguintes características:
Recuo de 4 cm à esquerda (diferente do recuo de parágrafo normal). Fonte menor que a do texto, geralmente 10pt (enquanto o texto principal usa 12pt). Espaçamento simples entre linhas. Sem aspas.
A indicação de autoria vem ao final, fora do recuo, ou pode aparecer no texto que precede o trecho citado.
Exemplo:
Texto introdutório antes da citação longa.
A escrita científica de qualidade exige do pesquisador um duplo movimento: a capacidade de dominar as convenções formais do gênero acadêmico e, ao mesmo tempo, a coragem de desenvolver uma voz própria dentro dessas convenções. Sem o primeiro, o texto não circula; sem o segundo, o texto não contribui. (SILVA, 2020, p. 88)
Supressões e interpolações
Quando você suprime parte do trecho citado, usa reticências entre colchetes: […]. Isso indica que parte do texto original foi omitida.
Quando você acrescenta uma palavra ou explicação dentro da citação, usa colchetes: [grifo nosso], [grifo do autor], [sic] (para indicar que um erro existia no original).
Essas marcações existem para garantir que o leitor saiba o que é do original e o que é intervenção sua.
O número de página: por que é obrigatório
Na citação direta, o número de página é obrigatório. Não é recomendação: é exigência técnica.
A razão é prática: a citação direta precisa ser verificável. Quem quiser checar se o trecho foi reproduzido corretamente, ou se o contexto do original sustenta o uso que você fez da citação, precisa conseguir localizar o trecho. Sem a página, isso é impossível em obras longas.
Quando o documento não tem paginação (como sites e documentos digitais sem paginação), é possível indicar o parágrafo ou a seção. As instruções precisas estão na NBR 10520 e nas atualizações mais recentes da ABNT.
Citação de citação: quando usar e quando evitar
Citação de citação (apud) é quando você cita um autor que foi citado por outro, sem ter acesso ao texto original. O formato é: AUTOR CITADO apud AUTOR QUE CITA, ano, página.
Ela existe porque às vezes o texto original é inacessível: está esgotado, em língua não dominada pela pesquisadora, em acervo indisponível.
O uso de apud deve ser exceção, não regra. Quando você cita de segunda mão, não pode garantir que o contexto do original foi preservado, nem que a tradução (se houver) é fiel. Revisores de periódicos e membros de banca olham com desconfiança para textos com muitas citações apud. O recomendável é buscar a fonte original sempre que possível.
Quando NÃO usar citação direta
Essa é a parte do guia que mais importa para a qualidade do texto.
Citação direta não é indicada para: apresentar a ideia geral de um autor (use paráfrase), resumir o argumento de um texto (use citação indireta), contextualizar o campo teórico (escreva com suas palavras, referenciando), mencionar resultados de estudos anteriores (mencione e cite, sem transcrever o texto original).
A citação direta está indicada em situações específicas:
Quando você vai analisar o próprio texto do autor, como em análise de discurso, crítica literária ou estudos de linguagem. Aqui, as palavras exatas são o objeto de análise.
Quando a formulação original é uma definição técnica consolidada que perderia precisão ao ser parafraseada.
Quando você argumenta em contraste com ou em defesa de algo que o autor disse especificamente, e a frase exata tem peso para o argumento.
Em qualquer outro caso, a paráfrase é preferível. Ela demonstra que você entendeu o que o autor disse, exige que você elabore o argumento com as suas próprias palavras, e integra a voz do outro ao seu texto de forma mais orgânica.
O problema do texto colagem
Um texto acadêmico composto majoritariamente de citações diretas sinaliza um problema de desenvolvimento intelectual, não de uso correto da norma. A banca e os revisores percebem.
O que queremos ler num trabalho acadêmico é o raciocínio da pesquisadora. As referências existem para sustentar esse raciocínio, não para substituí-lo. Quando o texto é 30% de citações diretas intercaladas por frases de transição, não há argumento: há colagem.
Um diagnóstico simples: se você remover todas as citações diretas do seu texto e o argumento principal ainda estiver lá, elas estão bem usadas. Se ao remover as citações o texto virar parágrafos vazios, há um problema de desenvolvimento.
Citação e apropriação intelectual
Há uma distinção importante que raramente é ensinada de forma explícita: a diferença entre citar e apropriar.
Citar é incorporar a voz de outro com atribuição adequada e propósito claro no argumento. Apropriar é usar o pensamento de outro de forma que se torna indistinguível do seu próprio, com ou sem referência.
A citação direta, quando usada com habilidade, não dilui a voz da autora: ela a fortalece, porque demonstra que você sabe com quem está dialogando e por quê. Mas isso requer que a autora tenha uma voz desenvolvida para dialogar.
É isso que trabalhamos no Método V.O.E.: a construção de uma voz acadêmica própria que pode referenciar, citar e dialogar com outros autores a partir de um ponto de vista claro.
Saber quando citar diretamente e quando não citar é um dos sinais de maturidade na escrita científica. E essa maturidade não se adquire decorando a ABNT. Se adquire escrevendo, revisando, recebendo feedback e escrevendo de novo.