Citação de citação (apud): quando usar e quando evitar
Entenda o que é citação de citação, quando o apud é aceitável na escrita acadêmica e por que depender dele pode enfraquecer o seu texto científico.
A tentação do apud e o que ela revela
Olha só: quase todos os estudantes de pós-graduação já passaram por uma versão desta situação.
Você está escrevendo um trecho do referencial teórico. Encontra, no artigo que está lendo, uma citação de outro autor que seria perfeita para o seu argumento. O autor citado parece ser uma referência importante da área. E a citação está ali, pronta, entre aspas, com ano e número de página.
A tentação é grande: copiar a citação com apud e seguir em frente.
Às vezes isso é a decisão certa. Muitas vezes não é. E a diferença entre as duas situações é exatamente o que esse texto quer ajudar a clarear.
O que apud quer dizer e de onde vem
Apud é uma palavra latina que significa “em” ou “citado por”. Na escrita acadêmica, ela indica que você está reproduzindo uma informação ou citação a partir de uma obra secundária, não da fonte original.
Se Freire (1996) disse algo que Souza (2015) citou no artigo que você leu, e você quer usar essa ideia do Freire, a citação ficaria: Freire (1996 apud Souza, 2015).
O que essa notação comunica é transparência: você está dizendo ao leitor que não acessou diretamente a obra de Freire, mas que a informação veio mediada pela leitura de Souza.
Essa transparência é importante. É um princípio ético da escrita acadêmica: nunca fingir que leu o que não leu. O apud, nesse sentido, cumpre uma função honesta.
O problema não é o apud em si. É o que você faz com ele.
Quando o apud é legítimo
Existem situações em que usar apud é não apenas aceitável, mas correto.
Obra inacessível. O autor que você quer citar publicou no século XIX, o livro está fora de catálogo, não existe versão digitalizada e as poucas cópias estão em acervos que você não tem acesso. Nesse caso, se a citação for importante para o argumento, usar a fonte secundária com apud é a opção disponível.
Obra em idioma que você não domina. Se o autor original publicou em finlandês e você não lê finlandês, citar a partir de uma tradução ou de um autor que mediou esse conteúdo em português ou inglês é razoável. Com a ressalva de que você deve dizer isso.
Documentos históricos ou raros. Cartas, manuscritos, documentos que circulam apenas em arquivos físicos específicos. Se a citação foi coletada por um historiador ou pesquisador que teve acesso a esse material, citar com apud pode ser a única forma de incorporar aquela informação.
O ponto comum nesses casos: o acesso à fonte original é genuinamente difícil ou impossível. Não inconveniente. Difícil de verdade.
Quando o apud é um problema
Aqui está o nó da questão.
O apud vira um problema quando a obra original está disponível, mas você não buscou porque daria trabalho. Quando o artigo que você leu já tinha a citação formatada e você apenas copiou. Quando a fonte secundária é um livro didático e você está usando o resumo que ele fez de outro autor como se fosse o original.
Por que isso é problemático?
Primeiro, porque você não sabe o contexto da citação. Uma frase retirada de um livro, quando lida no capítulo original, frequentemente tem um sentido diferente do que parece quando aparece isolada. O autor pode estar apresentando uma posição para criticar, não para defender. A frase pode ter antecedentes que mudam completamente o que ela diz.
Segundo, porque erros se propagam. Se o autor que você leu citou incorretamente ou interpretou de forma parcial, você vai reproduzir esse erro. E ele vai entrar no seu trabalho como se fosse fato.
Terceiro, porque sua argumentação fica dependente da interpretação de outro pesquisador. Você não está lendo Freire: você está lendo a versão de Freire que Souza construiu. Isso é diferente.
Faz sentido? Quando você usa apud por comodidade, você está terceirizando uma parte da sua análise. E análise não pode ser terceirizada em uma pesquisa.
O que diz a ABNT sobre apud
A NBR 10520, que normatiza as citações em documentos acadêmicos, aceita o uso do apud para a situação em que a obra original não foi consultada. A formatação padrão é: autor citado (ano apud autor que cita, ano).
Ela não limita o número de vezes que apud pode aparecer, nem proíbe seu uso. Mas deixa claro que é para o caso de obras não consultadas, não como padrão geral.
Na prática, muitas bancas e orientadores têm critérios próprios sobre isso. Alguns orientadores são muito restritivos, aceitando apud apenas em casos excepcionais. Outros são mais flexíveis. Verifique qual é a posição da sua banca e do seu programa.
O que quase nenhuma banca aceita de bom grado é um trabalho cheio de apud, porque isso sinaliza que você não foi à fonte. E ir à fonte é parte do que significa pesquisar.
A regra prática: antes de usar apud, faça uma coisa
Antes de formatar aquela citação com apud, faça uma busca. A obra original está no Google Scholar? Nas bases da sua instituição? No Portal de Periódicos CAPES? Na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações?
Se estiver disponível, acesse. Leia o contexto da citação. Veja se ela diz o que você precisa que ela diga, no sentido em que você quer usar.
Esse processo demora mais do que copiar o apud. Mas é exatamente esse processo que é pesquisa.
E muitas vezes, quando você vai ao original, descobre que a citação não era bem o que o autor da fonte secundária fez parecer que era. Ou que havia um argumento mais rico naquele mesmo parágrafo que teria sido mais útil para o seu texto.
A diferença entre citação direta, indireta e apud
Antes de seguir, vale clarear esses três conceitos porque eles se confundem com frequência.
Citação direta é quando você reproduz literalmente um trecho da obra original, entre aspas, com indicação de autor, ano e página. Você leu o texto original e está transcrevendo uma parte dele.
Citação indireta (ou paráfrase) é quando você apresenta a ideia de um autor com suas próprias palavras, sem transcrição literal. Você ainda precisa ter lido o original, mas reproduz o sentido, não a forma.
Apud é quando você cita um autor que você não leu, a partir da mediação de um outro autor. Não é nem direto nem indireto no sentido de ter ido à fonte. É secundário.
A confusão mais comum: usar apud quando na verdade você leu o original, mas não tinha certeza do formato. Se você leu diretamente, não use apud. Use a citação normal com o autor original, ano e página.
Outra confusão: usar a paráfrase como se fosse uma citação direta, sem aspas, mas com indicação de autor e ano. Isso é desonesto do ponto de vista autoral, porque faz parecer que o pensamento foi do autor quando o recorte e as palavras são seus.
Clareza sobre essas distinções é clareza sobre integridade acadêmica.
O apud em revisões sistemáticas e metanálises
Em revisões sistemáticas e metanálises, que sintetizam evidências de múltiplos estudos, a questão do apud raramente aparece porque esses estudos trabalham diretamente com as fontes primárias que compõem a revisão.
Se você está fazendo uma revisão sistemática e encontra uma citação de terceiro em um dos artigos incluídos, a orientação geral é: vá ao artigo original. Se ele não puder ser incluído na revisão por outros critérios, então ele não entra. Se puder, você acessa diretamente.
Isso reforça um princípio que atravessa toda a pesquisa científica: a revisão sistemática é, entre outros objetivos, um exercício de ir às fontes primárias para avaliar diretamente a qualidade e o conteúdo das evidências. O apud é estruturalmente incompatível com essa proposta.
Apud na defesa: o que esperar
Quando você defende uma dissertação ou tese com apud no texto, é provável que pelo menos um membro da banca pergunte sobre isso.
A pergunta pode ser direta: “por que você não consultou a obra original?” Ou indireta, perguntando sobre o argumento do autor citado de uma forma que revela se você leu ou não.
Se você usou apud por necessidade genuína e consegue explicar por quê a obra original estava inacessível, não há problema. Se você usou por conveniência e a obra está disponível, a situação é mais delicada.
Não existe resposta certa para essa pergunta se você não leu o que precisava ler. O que existe é a possibilidade de, antes da defesa, corrigir isso.
Se você quer entender melhor como construir um referencial teórico sólido e bem fundamentado, a página de recursos tem orientações sobre esse processo. E se a questão for como organizar a escrita acadêmica com mais eficiência, o Método V.O.E. pode ajudar a estruturar o seu processo de pesquisa e redação de forma mais consistente.
O apud existe para situações específicas. Fora delas, ir à fonte é sempre o caminho.