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Ciência aberta no Brasil: discurso bonito, prática rara

Ciência aberta é pauta nos fóruns, mas raramente acontece. Por que o Brasil ainda está longe de tornar open science realidade e o que isso significa para pesquisadores.

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Um ideal que fica no papel

Olha só: ciência aberta virou quase um mantra nos eventos científicos brasileiros nos últimos anos. Nos fóruns de gestão da ciência, nos documentos de política de pesquisa, nas apresentações de coordenadores de programas de pós-graduação, o discurso é consistente: precisamos tornar a ciência mais aberta, mais transparente, mais acessível.

Na prática, o que acontece é diferente.

Dados brutos que geraram artigos publicados continuam inacessíveis. Pesquisas financiadas com dinheiro público produzem resultados fechados em periódicos com paywall. Métodos são descritos em nível de detalhe insuficiente para replicação. Pré-registro de protocolos de pesquisa ainda é exceção em muitas áreas.

Não estou dizendo que não há avanço. Há. Mas existe uma distância considerável entre o discurso que circula nos eventos e o que acontece no cotidiano da produção científica brasileira. E nomear essa distância é necessário se a gente quer que ela diminua.

O que é ciência aberta de verdade

Antes de falar sobre a prática, vale ser precisa sobre o que o conceito inclui. Ciência aberta não é só acesso aberto a artigos. É um conjunto de práticas que abrange várias dimensões:

Dados abertos: disponibilizar os dados brutos da pesquisa em repositórios públicos, com documentação suficiente para que outros pesquisadores possam acessar, entender e potencialmente reanalisar esses dados.

Acesso aberto: publicar artigos em periódicos ou em repositórios onde qualquer pessoa possa lê-los sem custo. No Brasil, temos uma tradição relevante nesse sentido via SciELO, mas o modelo de periódicos predatórios que cobram taxas altas (APC) por acesso aberto também está presente e cria distorções.

Métodos abertos: descrever protocolos e metodologias com detalhe suficiente para que outros pesquisadores possam replicar o estudo. Isso é mais exigente do que parece na prática, especialmente em áreas com métodos complexos.

Pré-registro: registrar publicamente as hipóteses e o plano de análise antes de coletar os dados, o que reduz o viés de publicação e a p-hacking (manipulação dos dados para obter significância estatística).

Revisão aberta por pares: tornar o processo de revisão mais transparente, com revisores identificados e comentários disponíveis publicamente.

Cada uma dessas dimensões tem barreiras específicas à adoção no Brasil.

Por que a prática fica atrás do discurso

Existe um conjunto de razões para a distância entre o que se fala e o que se faz. Algumas são estruturais, outras são culturais, e algumas são individuais.

A lógica de competição por recurso escasso

A pesquisa científica no Brasil opera em contexto de financiamento insuficiente e competição por bolsas, projetos e posições. Nesse contexto, compartilhar dados antes de extrair todas as publicações possíveis deles é percebido como perda competitiva. Você trabalhou anos coletando esses dados. Por que ia disponibilizar para que outro grupo os use antes de você?

Essa lógica é racional dado o sistema de incentivos. O problema é que ela contradiz completamente o princípio de que o conhecimento produzido com financiamento público pertence ao público.

Falta de infraestrutura de repositórios

Para compartilhar dados de forma adequada, você precisa de repositórios com suporte técnico, documentação, e sistemas de citação que permitam que o conjunto de dados tenha um DOI e possa ser citado como produto acadêmico. No Brasil, os repositórios institucionais existem, mas têm cobertura e qualidade variável. Sistemas como o IBICT (Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia) avançaram nessa direção, mas ainda há muito a desenvolver.

Formação insuficiente sobre práticas abertas

A maioria dos pós-graduandos brasileiros não recebe, durante sua formação, qualquer treinamento sobre gestão de dados de pesquisa, pré-registro, ou outras práticas de ciência aberta. O que não se aprende na formação, raramente se pratica depois. Isso não é culpa dos pesquisadores: é uma lacuna de currículo que os programas precisam endereçar.

Incentivos sistêmicos que não recompensam abertura

Os critérios de avaliação de programas de pós-graduação no Brasil, historicamente centrados em publicações em periódicos qualificados e produção bibliográfica, não incluem de forma sistemática métricas de ciência aberta. Não há, em geral, pontuação diferenciada para quem pré-registra pesquisas, compartilha dados ou publica em acesso aberto sem custo.

Se o sistema não recompensa, as pessoas racionalmente focam no que o sistema recompensa.

O que existe de bom

Para não fazer um quadro só de problemas, vale reconhecer o que funciona.

O Brasil tem uma das maiores redes de periódicos de acesso aberto do mundo via SciELO. Isso não é pouca coisa. A ideia de que ciência produzida aqui deve ser acessível a qualquer pessoa com internet, sem custos, está incorporada em uma tradição editorial que outros países ainda lutam para construir.

Há programas de pós-graduação que adotaram políticas de dados abertos e formam pesquisadores nessa perspectiva. Há grupos de pesquisa que praticam pré-registro sistematicamente. Há um movimento crescente de ciência aberta no Brasil com pessoas sérias trabalhando para ampliar essa prática.

O discurso, mesmo que às vezes sirva mais para performance do que para ação, vai criando expectativa e pressão que têm algum efeito ao longo do tempo.

Uma posição direta

Minha posição sobre isso é clara: pesquisa financiada com dinheiro público deveria gerar dados que o público pode acessar. Isso não é radicalismo. É uma consequência lógica do que o financiamento público significa.

Ao mesmo tempo, responsabilizar pesquisadores individualmente por não praticar ciência aberta quando o sistema de incentivos não recompensa isso e a infraestrutura necessária não existe é injusto. A mudança que precisa acontecer é em múltiplas frentes ao mesmo tempo: política de agências de fomento, critérios de avaliação de programas, infraestrutura de repositórios, e formação de pesquisadores.

O que cada pessoa pode fazer, individualmente, é começar por onde consegue. Se você vai submeter um projeto, considere incluir um plano de gestão de dados. Se você vai publicar, priorize periódicos de acesso aberto sem cobrança de APC. Se você tem dados que outros pesquisadores poderiam usar, avalie se há forma de disponibilizá-los de maneira que proteja participantes e preserve seus direitos de publicação prioritária.

Pequenos passos nessa direção, em escala suficiente, têm efeito. Mas sem pressão por mudanças estruturais nos sistemas de incentivo, a prática vai continuar ficando atrás do discurso.

Uma pergunta para refletir

Se alguém pedisse os dados brutos do seu último projeto de pesquisa, você conseguiria disponibilizá-los de forma organizada e documentada em menos de uma semana? E se a resposta for não, o que seria necessário para chegar lá?

Essa não é uma pergunta acusatória. É um exercício de diagnóstico. A maioria das pesquisadoras que eu conheço, se fosse honesta, responderia não. Não porque não queiram ser abertas, mas porque a forma como a pesquisa é conduzida na prática não inclui, como parte do processo regular, a documentação necessária para que os dados possam ser compartilhados.

Mudar isso começa por incorporar boas práticas de gestão de dados na rotina de pesquisa, não como tarefa adicional depois que tudo terminar, mas como parte de como a pesquisa acontece desde o início.

Essa é uma das dimensões que o Método V.O.E. toca quando fala sobre organização e documentação do processo de pesquisa. Para saber mais, está disponível em /metodo-voe. E em /recursos tem indicações de materiais sobre ciência aberta que podem ajudar a começar esse processo com mais suporte do que a maioria dos programas oferece.

Por que isso importa além dos laboratórios

Há uma última razão para falar sobre ciência aberta que vai além da discussão interna à academia.

A desconfiança pública na ciência aumentou em vários países na última década. Parte dessa desconfiança tem raízes em desinformação deliberada. Mas parte tem raízes reais na percepção de que a ciência é uma caixa preta acessível só a especialistas, que os dados raramente são verificáveis, e que os resultados podem mudar conforme o financiador.

Ciência aberta não resolve desinformação. Mas cria as condições para que a ciência seja verificável, transparente e responsável perante a sociedade que a financia. E isso, no contexto atual, não é detalhe.

A pergunta de para quem a ciência brasileira existe tem uma resposta que vai além das bancas de defesa e dos Qualis: existe para o público que a financia e que poderia se beneficiar do que ela produz. Agir em coerência com isso, mesmo que gradualmente, é uma escolha que pesquisadores e instituições têm à frente.

Perguntas frequentes

O que é ciência aberta e por que ela importa?
Ciência aberta é um conjunto de práticas que tornam os processos e produtos da pesquisa científica acessíveis a qualquer pessoa: dados brutos disponíveis publicamente, artigos em acesso aberto, métodos descritos com detalhamento suficiente para replicação, e protocolos de pesquisa pré-registrados. Importa porque aumenta a transparência, permite a verificação dos resultados e reduz o desperdício de recursos em pesquisas que nunca chegam ao público.
Publicar em acesso aberto no Brasil é possível sem pagar APC?
Sim. O Brasil tem uma tradição forte de periódicos de acesso aberto sem cobrança de taxa de publicação (APC zero), especialmente via SciELO. Periódicos financiados por universidades públicas ou por agências de fomento frequentemente não cobram dos autores. É possível publicar em acesso aberto no Brasil sem pagar, mas é preciso pesquisar qual periódico adota esse modelo.
Compartilhar dados brutos de pesquisa é obrigatório no Brasil?
Não existe legislação federal que torne o compartilhamento de dados brutos obrigatório de forma geral. Algumas agências de fomento e periódicos internacionais têm políticas específicas que exigem o depósito de dados como condição de financiamento ou publicação. A prática ainda é voluntária na maioria dos contextos no Brasil.
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