Jornada & Bastidores

Choque Cultural Acadêmico: A Universidade Lá Fora

Estudar em outra cultura é uma experiência transformadora e cheia de mal-entendidos. O que aprendi sobre choque cultural acadêmico e o que ninguém avisa antes.

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Ninguém avisa que a universidade também tem cultura

Vamos lá. Quando alguém fala em choque cultural durante um intercâmbio acadêmico, a maioria pensa em comida estranha, fusos horários, idioma. Essas coisas existem e são reais. Mas tem um choque que raramente aparece nas conversas preparatórias: o choque cultural acadêmico em si.

A universidade tem cultura própria. Cada universidade tem. E quando você muda de país, você não está apenas trocando de cidade ou de idioma. Você está entrando em um sistema com normas não escritas, formas de se relacionar com professores, expectativas sobre autonomia, rituais de apresentação de resultados, modos de discordância aceitos e modos que não são.

Aprendi isso da forma mais difícil: chegando ao meu destino de pesquisa achando que sabia o que era uma reunião de grupo de pesquisa, uma conversa com orientador, uma defesa de resultados preliminares. Não sabia. O formato que eu tinha internalizado era o brasileiro. E o brasileiro não é o único, é só o que eu conhecia.

O que difere de cultura para cultura (e você vai descobrir na marra)

Deixa eu ser concreta, porque generalizações não ajudam muito aqui.

A relação com o orientador. Em alguns países europeus e na América do Norte, a expectativa é de que você procure ativamente o orientador quando precisa, sem aguardar convocação. Em outros contextos, você espera até ser chamado. Chegar com iniciativa demais pode soar como falta de respeito à hierarquia. Chegar passivo demais pode soar como desinteresse ou falta de preparo.

No meu caso específico, eu estava acostumada a uma relação mais formal com o supervisor. Quando o orientador estrangeiro me chamou pelo primeiro nome desde o primeiro e-mail e me disse “pode aparecer quando quiser”, levei semanas para entender que aquilo era genuíno e não cortesia vazia.

A cultura do grupo de pesquisa. Grupos de pesquisa têm dinâmicas próprias. Há grupos que debatem resultados de forma muito direta, críticas frontais são parte do processo. Há grupos que fazem críticas de forma mais indireta, e você precisa aprender a ler nas entrelinhas. Apresentar resultados que não fecharam para um grupo que espera robustez antes de qualquer apresentação interna é diferente de fazer isso num grupo que valoriza o processo e a discussão aberta.

O que se considera “pronto” para apresentar. Essa foi a maior surpresa para mim. Na minha formação, você apresenta para seu orientador quando está relativamente segura. No grupo onde estive, havia uma cultura de apresentar cedo, com muitas perguntas abertas, para pensar junto. Minha primeira apresentação interna foi um constrangimento que eu poderia ter evitado se soubesse disso.

A burocracia acadêmica. Os caminhos para resolver problemas administrativos, agendar equipamentos, acessar bases de dados, usar espaços comuns: tudo isso funciona diferente em cada instituição, e nenhuma fica escrito em lugar óbvio. Você descobre por tentativa e erro, ou porque alguém te conta.

A sensação de regredir

Uma das experiências mais comuns, e menos faladas, é a sensação de regredir durante a adaptação.

Você construiu uma identidade como pesquisadora no seu contexto de origem. Você sabe se comunicar, sabe o que é esperado, sabe navegar a burocracia, sabe ler a dinâmica do seu grupo. Chega no exterior e de repente você não sabe nada disso. Você pergunta coisas óbvias, comete erros de protocolo, não entende piadas do grupo, se perde nas referências culturais.

Isso não é incompetência. É adaptação. Mas parece incompetência, especialmente quando você está sozinha sem as referências habituais.

Faz sentido? A sua bagagem não sumiu. Ela só não é legível naquele contexto ainda. É como ter um texto bem escrito numa língua que as pessoas ao redor não conhecem. O texto continua bom, mas a comunicação não está acontecendo.

O que ajuda, de verdade

Observar antes de agir. Nos primeiros meses, antes de tentar encaixar no grupo da forma que você acha que deveria, observe. Como as pessoas se cumprimentam? Como fazem perguntas em seminários? Como tratam o orientador no corredor? Esses comportamentos contam mais do que qualquer guia de etiqueta cultural.

Perguntar diretamente sobre as normas não escritas. “Como funciona aqui quando alguém tem um resultado parcial e quer feedback?” é uma pergunta que raramente vai soar mal. As pessoas costumam gostar de explicar como seu grupo funciona. O constrangimento de perguntar é menor do que o de descobrir pela experiência errada.

Ter um par local. Uma pessoa do grupo que esteja disposta a ser o seu guia informal faz diferença enorme. Não necessariamente para responder perguntas técnicas, mas para te avisar quando você está prestes a cometer um erro de protocolo, ou para te contar o que aquele comentário do orientador na reunião realmente quis dizer.

Não comparar o tempo todo. Comparar é natural, mas virar uma comparação constante desgasta. “No Brasil era assim” pode ser dito uma vez como contexto. Dito repetidamente começa a soar como incapacidade de se adaptar, e também te impede de enxergar o que o novo contexto tem a oferecer.

O que ninguém avisa, mas deveria

O choque cultural acadêmico não dura para sempre. Mas na fase mais intensa, parece que sim. Parece que você nunca vai entender como aquele grupo funciona, nunca vai se sentir pertencente, nunca vai conseguir trabalhar com a mesma fluidez de antes.

Isso passa. E quando passa, o que fica é uma capacidade de trânsito entre culturas acadêmicas que é muito difícil de desenvolver de outra forma. Você aprende que o jeito que você conhecia não é o único jeito possível. Que as normas que parecia óbvias são escolhas, não verdades universais. E isso transforma a forma como você pensa sobre ciência e sobre pesquisa.

Tem também uma coisa prática importante: esse aprendizado fica. Quando você volta, ou quando entra em colaborações internacionais, você já sabe que há normas não escritas, já sabe que precisa observar antes de agir, já tem mais tolerância ao desconforto da adaptação.

Um ponto que vale destacar

A experiência de choque cultural acadêmico pode ser muito solitária quando não é nomeada. Pesquisadores em mobilidade internacional frequentemente relatam sentir que deveriam estar aproveitando mais, que outros se adaptam melhor, que há algo de errado com eles especificamente.

Não há. O choque é parte do processo. Nomear isso ajuda. Conversar sobre isso, quando possível com outros pesquisadores que passaram pelo mesmo, ajuda mais ainda.

Se você está planejando um período no exterior ou está no meio de um, vale a pena checar a página de recursos do blog, onde há materiais sobre pesquisa e mobilidade acadêmica. E se quiser entender melhor a metodologia que sustenta a escrita e a organização da pesquisa que a Nathalia usa, a página sobre o Método V.O.E. é um bom começo.


A universidade lá fora é diferente da que você conhece. Essa é a parte mais difícil e a mais valiosa ao mesmo tempo.

Perguntas frequentes

O que é choque cultural acadêmico e como ele se manifesta?
Choque cultural acadêmico é o conjunto de dificuldades de adaptação que surgem quando você entra em um ambiente universitário com normas, expectativas e formas de comunicação diferentes das que você conhecia. Pode se manifestar como confusão nas interações com professores, dificuldade em entender o que é esperado de você academicamente, estranhamento com os rituais do grupo de pesquisa e sensação de não pertencer, mesmo tendo todas as competências técnicas necessárias.
Quanto tempo leva para se adaptar a uma universidade no exterior?
Não há resposta única, mas a maioria dos pesquisadores relata que os primeiros três meses são os mais difíceis. A adaptação plena, entendida como sentir-se confortável nas interações acadêmicas e conseguir trabalhar com produtividade, costuma acontecer entre seis meses e um ano. Quem chega com mais informações sobre a cultura local e o funcionamento da universidade específica tende a se adaptar mais rápido.
Choque cultural prejudica a produtividade científica durante o doutorado sanduíche?
Pode prejudicar, especialmente nos primeiros meses. É comum pesquisadores em mobilidade internacional relatarem queda de produtividade no início, seguida de recuperação e frequentemente de um ganho real depois da adaptação. A chave é reconhecer o choque cultural como parte do processo, e não como sinal de que você está no lugar errado.
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