Carta ao Editor: Como Escrever Resposta aos Revisores
Aprenda a escrever uma carta de resposta aos revisores que seja clara, respeitosa e convincente após receber revisões em um artigo científico.
Vamos lá: a carta que decide se seu artigo vai ser aceito
Vamos lá. Você passou semanas revisando o manuscrito depois das major revisions, fez as análises adicionais, reescreveu seções inteiras. O texto está muito melhor do que antes. Mas tem uma parte do processo que as pessoas subestimam e que pode comprometer tudo: a carta de resposta aos revisores.
Essa carta não é formalidade. É um documento técnico que o editor vai usar para decidir se o seu artigo segue para publicação. Um manuscrito excelente com uma carta de resposta mal escrita pode resultar em mais uma rodada de revisões. Uma carta bem estruturada pode convencer o editor de que você levou os comentários a sério, mesmo nos pontos em que você discordou.
O que a carta de resposta precisa fazer
Antes de pensar na estrutura, entenda a função do documento. A carta de resposta tem três objetivos.
Primeiro, demonstrar que você leu e considerou todos os comentários. Todos. Sem exceção. O revisor precisa ver que cada observação dele foi tratada, mesmo as que parecem redundantes.
Segundo, explicar as mudanças feitas no manuscrito de forma que o revisor consiga rastrear sem abrir o arquivo a cada momento. A carta precisa ser autocontida o suficiente para que o revisor entenda o que mudou só de lê-la.
Terceiro, justificar as escolhas nos casos em que você não seguiu a sugestão do revisor. Essa é a parte que mais pesquisadores evitam e que, quando bem feita, mais impressiona.
Estrutura básica que funciona
A carta começa com um parágrafo de abertura. Ele é curto, não precisa ser elaborado. Agradeça os comentários, diga que o texto foi revisado e que a seguir estão as respostas. Sem elogios excessivos, sem drama.
Depois, organize as respostas por revisor. Se você recebeu comentários de dois revisores, crie uma seção para cada um: “Resposta ao Revisor 1” e “Resposta ao Revisor 2”. Dentro de cada seção, liste os comentários numerados, na mesma ordem em que apareceram na carta original.
Para cada comentário, siga esse padrão:
Comentário do revisor: [cite o comentário completo, ou um trecho representativo]
Resposta: [sua resposta, explicando o que você fez ou por que escolheu não seguir a sugestão]
Mudança no manuscrito: [se houve mudança, copie o trecho revisado ou indique onde no texto a mudança aparece, com página e parágrafo quando possível]
Esse formato facilita a vida do revisor, que vai poder rastrear cada ponto sem precisar comparar os dois arquivos do manuscrito simultaneamente.
Como responder comentários com os quais você concorda
Essa é a parte mais simples. Diga que o comentário estava correto, explique brevemente o que você fez para resolver o problema, e mostra onde no manuscrito a mudança aparece.
Evite ser seco demais: “Feito.” não é uma resposta. Mas também não precisa ser excessivamente detalhado se a mudança foi pequena. Encontre o equilíbrio: explique o suficiente para que o revisor entenda o que mudou sem precisar ler o manuscrito inteiro.
Olha um exemplo do tipo de linguagem que funciona: “Concordamos com o revisor. O trecho foi reescrito para tornar mais explícita a relação entre [X] e [Y], conforme sugerido. A nova versão aparece na página 8, segundo parágrafo.”
Como responder comentários com os quais você discorda
Aqui está o nó que mais gente deixa mal resolvido. Há um mito de que contestar o revisor é arriscado. Não é, desde que você faça isso com cuidado.
Quando você vai contestar um comentário, siga essa lógica. Primeiro, reconheça a preocupação legítima que está por trás do comentário. Às vezes o revisor pediu algo que não é possível, mas a preocupação que motivou o pedido é válida.
Segundo, explique por que você não pode ou não vai fazer o que foi pedido. Se é uma limitação metodológica, descreva ela com precisão. Se é uma discordância teórica, fundamente com referências.
Terceiro, ofereça uma alternativa quando possível. Não exatamente o que o revisor pediu, mas algo que endereça a preocupação dele de outra forma.
O tom é tudo aqui. Sem frases como “o revisor está equivocado” ou “essa sugestão não faz sentido”. Algo como “compreendemos a preocupação do revisor com X. No entanto, dado o desenho do nosso estudo, [razão]. Para endereçar essa preocupação, optamos por [alternativa], que aparece na seção Y do manuscrito revisado.”
O caso dos comentários confusos ou contraditórios
Às vezes o comentário do revisor é ambíguo. Você não tem certeza do que ele está pedindo. Ou dois revisores pediram coisas opostas.
Para o comentário ambíguo, faça uma leitura de boa fé: interprete na direção que parece mais razoável para a integridade do trabalho, declare qual interpretação você adotou e responda a ela. Se sua interpretação estava errada, o revisor vai corrigir na próxima rodada.
Para comentários contraditórios entre revisores, não tente agradar os dois ao mesmo tempo. Explique ao editor que identificou a tensão entre os pedidos, descreva qual caminho você escolheu e por quê. O editor vai arbitrar.
O que não colocar na carta de resposta
Algumas coisas que parecem razoáveis mas que costumam prejudicar a avaliação.
Não justifique sua decisão de não fazer algo dizendo que o trabalho ficaria longo demais, que seria muito trabalhoso, ou que o prazo era curto. O revisor não se importa com sua gestão de tempo.
Não diga “já está claro no manuscrito” sem mais explicação quando o revisor disse que não entendeu algo. Se o revisor não entendeu, provavelmente precisa ser reescrito. No mínimo, esclareça na resposta por que você acha que já está claro.
Não ignore comentários que você não quer tratar. Se você não vai responder algo, explique por quê. Um comentário sem resposta é uma bandeira vermelha para o editor.
Quanto tempo sua carta deve ter
Não há um limite, mas existe uma proporção razoável. Se o revisor fez 10 comentários, uma carta com 2 páginas de respostas provavelmente está muito curta. Uma com 30 páginas provavelmente está extensa demais a ponto de dificultar a leitura do editor.
O critério é que cada resposta seja completa o suficiente para que o revisor entenda o que mudou sem abrir o manuscrito. Não mais, não menos.
Cartas de resposta em segunda e terceira rodada
Se depois da sua primeira revisão você recebe uma segunda rodada de pedidos, o processo se repete. E há um detalhe importante: na segunda rodada, você também precisa responder aos comentários novos que surgiram em resposta à sua primeira carta. Às vezes o revisor ficou satisfeito com a maioria das mudanças mas ainda tem dúvidas sobre alguns pontos.
Nesse caso, faça referência às suas respostas anteriores quando pertinente: “Conforme explicado na carta de resposta anterior, [X]. O revisor levanta agora uma dúvida adicional sobre [Y], que endereçamos da seguinte forma…”
Isso mostra continuidade e evita que você precise repetir explicações que já deu antes.
Ferramentas e templates que ajudam
Alguns periódicos disponibilizam templates de carta de resposta nos seus guias para autores. Quando isso acontece, use o template deles: eles sabem o que o editor da própria revista quer ver.
Quando não há template disponível, você pode criar um documento de trabalho com duas colunas: uma com os comentários originais dos revisores (copiados diretamente da carta do editor) e outra com as suas respostas preliminares. Isso ajuda a visualizar se você está sendo consistente e se algum comentário ficou sem resposta.
Antes de enviar, leia a carta inteira do ponto de vista do revisor. Imagine que você é o revisor 2, que deu uma hora do seu tempo lendo o manuscrito e escrevendo comentários. Sua carta deixa claro que você levou isso a sério?
Fechando
A carta de resposta é um documento técnico que vale tanto quanto o manuscrito em si no processo de avaliação. Revisores e editores vão julgar a seriedade com que você levou o processo de revisão pela qualidade do que você escrever ali.
Leva tempo aprender a escrever uma boa carta de resposta. Mas uma vez que você entende a lógica, o processo fica mais claro e menos angustiante.
Para mais contexto sobre o processo de publicação científica, veja como lidar com major revisions e o que acontece no desk reject antes mesmo da revisão por pares.