Carga Horária Docente: Pesquisa É Para Fazer Quando?
A realidade da carga horária de professores universitários no Brasil e a pergunta que ninguém quer responder: quando, exatamente, o docente deveria fazer pesquisa?
A pergunta que o sistema evita responder
Olha só: toda vez que se fala em melhoria da pesquisa brasileira, a conversa vai para financiamento, para formação de pesquisadores, para acesso a bases de dados, para instrumentos de avaliação.
Raramente vai para uma pergunta muito mais simples: professores universitários que têm 12, 14, 16 horas de aula por semana, mais orientações, mais comissões, mais extensão, mais burocracia, fazem pesquisa quando?
Não é uma pergunta retórica. É uma pergunta que o sistema de pós-graduação brasileiro não consegue responder de forma satisfatória porque a resposta exporia uma contradição estrutural que ninguém quer nomear.
Minha posição: o modelo atual de carga horária docente nas universidades brasileiras é incompatível com produção de pesquisa de qualidade de forma sustentável. Isso não é crítica a professores. É crítica ao modelo.
O que a carga horária formal diz e o que o trabalho real é
Professores em regime de dedicação exclusiva (DE) têm, formalmente, 40 horas semanais de trabalho. Das quais, um porcentual deve ser para atividades de pesquisa e extensão.
Isso parece razoável no papel.
O problema está na diferença entre o que o regime formal prevê e o que o trabalho real demanda.
Uma semana de um professor credenciado num programa de pós-graduação pode incluir: 12 horas de aula na graduação (3 disciplinas de 4 horas), 4 horas em reuniões de orientação (mestrado e doutorado), 4 horas em comissões obrigatórias (colegiado, NDE, câmara de pesquisa), 4 horas de atendimento a alunos de graduação. Isso já são 24 horas. Com uma disciplina na pós e participação em banca, facilmente chega a 30 horas de atividades que não são pesquisa.
Sobram 10 horas para preparação de aulas, correção de trabalhos, revisão de projetos de pesquisa, escrita de artigos, leitura das publicações da área, elaboração de projetos de financiamento.
Essa conta não fecha. E todo mundo que trabalha na academia sabe que não fecha.
A pesquisa que acontece na sobrecarga
Onde vai a pesquisa, então?
Vai para os fins de semana. Para as noites de quarta depois que as crianças dormiram. Para as duas semanas de recesso em julho que deveriam ser descanso mas se tornam o único período de concentração sem interrupções. Para projetos que deveriam durar 2 anos e levam 5 porque o tempo nunca é suficiente.
Vai também para bolsistas e alunos de pós-graduação, que fazem parte do trabalho de pesquisa que o orientador não tem tempo de fazer. Isso não é sempre ruim: fazer pesquisa é parte da formação do aluno. Mas quando a delegação excessiva acontece porque o orientador não tem tempo, e não como estratégia pedagógica, a qualidade da pesquisa e da formação ficam comprometidas.
E vai, frequentemente, para o adoecimento. A literatura sobre saúde do professor universitário no Brasil registra níveis preocupantes de burnout, distúrbios do sono, problemas de saúde relacionados a trabalho. Professores que pesquisam, ensinam e se mantêm institucionalmente ativos frequentemente fazem isso à custa da saúde.
A pressão da CAPES e o paradoxo da avaliação
O sistema de avaliação da CAPES exige produção bibliográfica dos docentes credenciados em programas de pós-graduação. Sem produção, o programa não mantém nota. Sem nota adequada, o programa perde bolsas, perde recursos, e em casos extremos pode ser descredenciado.
Isso cria uma pressão que é, ao mesmo tempo, compreensível e perversa.
Compreensível porque a CAPES precisa de algum critério para avaliar programas e distribuir recursos escassos. Produção científica, com todos os seus limites como indicador, é mensurável.
Perversa porque essa pressão recai sobre docentes que já estão sobrecarregados com outras atividades obrigatórias que o próprio sistema impõe. A universidade cobra aulas. A CAPES cobra pesquisa. O MEC cobra extensão. As comissões cobram participação. Não há conversa entre esses sistemas sobre o que é razoável esperar de uma única pessoa.
O resultado é que professores pesquisadores cronicamente sobrecarregados precisam escolher, na prática, o que vai ficar bem feito e o que vai ficar apenas “feito”. Essa escolha não costuma ser consciente e discutida. Costuma ser gerenciada pela fadiga.
Quem paga o custo invisível
Quando o professor não tem tempo para pesquisa de qualidade, o custo não aparece nas planilhas da CAPES como custo. Aparece em outros lugares.
Aparece em artigos publicados que foram escritos às pressas, sem a maturação que a ideia merecia. Aparece em orientações que poderiam ter sido mais ricas se o orientador tivesse mais tempo de se dedicar a cada aluno. Aparece em pesquisas que pararam no meio porque o financiamento acabou e não havia energia para renovar o projeto.
Aparece também na saúde dos professores. E em bons pesquisadores que saem da academia para trabalhar em outros setores, levando junto o investimento que o sistema fez na sua formação.
A ciência brasileira tem perdido pesquisadores qualificados não porque eles falharam, mas porque o modelo de trabalho que o sistema oferece é insustentável.
O que seria diferente
Não tenho a solução para isso, e seria desonesto fingir que é simples.
Mas posso dizer o que seria diferente se o sistema estivesse organizado em torno do que a pesquisa realmente exige.
Docentes que pesquisam em alta produtividade teriam carga reduzida de ensino obrigatório. Isso não é privilégio, é lógica. A mesma pessoa não pode fazer duas coisas igualmente bem se o tempo total não comporta.
A avaliação da CAPES consideraria não apenas quantidade de produção mas condições institucionais de produção. Um programa com professores com 20 horas de aula semanais não pode ser comparado a um programa com professores com 8.
E as universidades teriam mecanismos claros para que docentes em fases de alta demanda de pesquisa (submissão de projeto grande, conclusão de livro, orientação de muitos alunos simultaneamente) pudessem reduzir temporariamente outras obrigações.
Isso existe em alguns lugares do mundo. No Brasil, é exceção rara dependente de negociação individual com a chefia de departamento.
Nomear o problema é o começo
Preciso falar sobre o sofrimento na academia sem romantizá-lo. A narrativa de que pesquisar em condições difíceis é prova de dedicação, que acordar às 5h para escrever antes das aulas é sinal de vocação, que trabalhar nos fins de semana é parte do que significa ser pesquisador, essa narrativa não está errada em tudo.
Mas é instrumentalizada para tornar aceitável o que não deveria ser aceitável: um sistema que extrai muito mais do que oferece e trata a sobrecarga como condição natural em vez de como problema estrutural.
Quando eu falo sobre isso, não estou dizendo que professores são vítimas passivas. Estou dizendo que o modelo é incompatível com o que ele promete entregar, e que reconhecer isso é o pré-requisito para mudar.
Pesquisas de qualidade, formação de pesquisadores de qualidade e ciência que contribui para o país precisam de pessoas que têm tempo, energia e condições para pensar bem. Isso não é demanda excessiva. É o mínimo para que o sistema funcione como se propõe.
Para ler mais sobre como o sistema de avaliação da CAPES influencia o trabalho dos programas, o post sobre avaliação quadrienal da CAPES vai mais fundo nessa questão.
O que os próprios docentes dizem
Quando professores universitários falam sobre sua rotina em contextos informais, em conversas de corredor, em grupos de pesquisa, em entrevistas de pesquisas sobre trabalho docente, o que aparece é uma combinação de orgulho genuíno pelo trabalho e exaustão profunda.
Não é incomum ouvir de professores experientes que a fase mais produtiva da sua pesquisa foi durante o doutorado, quando tinha tempo para pensar sem as demandas de um cargo efetivo. Isso é sintomático.
O sistema treina pesquisadores para fazer pesquisa, e então os contrata para fazer uma série de outras coisas junto da pesquisa, sem que o tempo disponível expanda de forma correspondente.
Reconhecer isso não é fraqueza nem reclamação sem fundamento. É diagnóstico honesto de um sistema que cobra excelência sem oferecer as condições que excelência exige.