Método

Artigo Científico na Área de Saúde Pública

Entenda como funciona a produção de artigos científicos em saúde pública, seus tipos, fluxos e por que essa área tem lógicas próprias de pesquisa.

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Por que pesquisar em saúde pública é diferente

Olha só: a saúde pública não é uma área como as outras dentro da academia. Ela é interdisciplinar por natureza, envolve dados populacionais em escala, dialoga com políticas governamentais e, não raramente, tem implicações diretas para decisões que afetam milhares de pessoas.

Isso muda bastante a lógica de como um artigo científico nessa área é produzido, o que é valorizado como evidência, e quais são os padrões metodológicos esperados.

Se você está desenvolvendo uma dissertação ou tese com temas relacionados ao SUS, epidemiologia, vigilância sanitária, saúde coletiva ou promoção da saúde, vale entender essas particularidades antes de começar a escrever.

O que caracteriza um artigo científico em saúde pública

A saúde pública abriga uma gama muito variada de estudos. Você vai encontrar desde análises epidemiológicas quantitativas até pesquisas qualitativas sobre experiências de adoecimento, passando por estudos de políticas de saúde, avaliação de programas e revisões sistemáticas.

Cada um desses formatos tem suas próprias exigências metodológicas. Um ensaio clínico randomizado não é escrito nem avaliado da mesma forma que um estudo de caso sobre implementação de política municipal de saúde.

Alguns elementos, porém, são comuns à área:

A aprovação ética é quase sempre obrigatória quando há coleta direta com seres humanos. Mesmo pesquisas com prontuários ou dados secundários identificáveis precisam passar pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP). O número do parecer do CEP e do CAAE vai no artigo, no método.

A declaração de conflito de interesses é exigida pela maioria dos periódicos de saúde. Se a pesquisa teve financiamento de indústria farmacêutica, equipamentos médicos ou qualquer outro ator que possa ter interesse nos resultados, isso precisa ser declarado.

O registro prévio de protocolos é padrão para ensaios clínicos (Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos, ReBEC) e crescente para estudos observacionais. Periódicos de alto impacto já exigem isso.

Os checklists metodológicos que você precisa conhecer

Uma das particularidades bem marcantes da saúde pública é o uso de checklists de reporte metodológico. Eles existem para padronizar como os estudos são descritos, facilitando a avaliação da qualidade metodológica e a comparação entre pesquisas.

Os principais que você vai encontrar:

STROBE (Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology): para estudos observacionais, como estudos de coorte, caso-controle e transversais. É um checklist com 22 itens que cobre desde o título e resumo até a discussão.

CONSORT (Consolidated Standards of Reporting Trials): para ensaios clínicos randomizados. Mais rigoroso, exige descrição detalhada da aleatorização, cegamento, fluxo de participantes e muito mais.

PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses): para revisões sistemáticas e metanálises. Se você está fazendo uma revisão sistemática em saúde, precisará seguir esse guia e provavelmente elaborar um fluxograma PRISMA mostrando o processo de seleção dos estudos.

COREQ (Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research): para pesquisas qualitativas. Muitos periódicos da área pedem que você apresente os 32 itens desse checklist como material suplementar.

Não memorize cada um desses. Mas saiba que eles existem, saiba qual se aplica ao seu desenho de estudo, e verifique as instruções do periódico para o qual vai submeter antes de fechar a versão final do manuscrito.

Os tipos de estudo mais comuns na área

Vamos lá. A saúde pública trabalha com uma lógica de evidências que valoriza certos desenhos de estudo mais do que outros, dependendo do que se quer responder.

Estudos descritivos mapeiam a ocorrência de doenças ou eventos de saúde em populações. Frequência, distribuição geográfica, variação temporal. São o ponto de partida de qualquer investigação epidemiológica.

Estudos analíticos observacionais buscam associações entre exposições e desfechos sem intervir. Os principais são o estudo de coorte (acompanha grupos ao longo do tempo), o estudo caso-controle (compara quem desenvolveu o desfecho com quem não desenvolveu) e o estudo transversal (foto do momento).

Ensaios clínicos são estudos experimentais onde há intervenção. São o padrão ouro para avaliar eficácia de tratamentos, mas têm limitações práticas e éticas óbvias em saúde pública.

Revisões sistemáticas e metanálises sintetizam a evidência existente sobre um tema. São muito valorizados porque permitem conclusões mais robustas do que um estudo isolado.

Pesquisas qualitativas exploram significados, experiências e processos. Fundamentais para entender como políticas são implementadas na prática, como populações específicas vivenciam o adoecimento, quais são as barreiras de acesso a serviços.

O desenho do seu estudo determina sua metodologia, seus resultados, e como você vai escrever o artigo. Faz sentido, né?

Artigo científico em saúde pública e os dados do SUS

Uma característica única da pesquisa em saúde pública brasileira é o acesso a sistemas de informação nacionais de enorme riqueza, como o DATASUS. São dados sobre nascimentos, óbitos, internações hospitalares, agravos de notificação, produção ambulatorial, e muito mais.

Pesquisar com esses dados tem vantagens claras: são populacionais, têm séries históricas longas, são públicos e gratuitos. Mas têm limitações que precisam ser discutidas no artigo: subnotificação, variações de qualidade entre regiões e ao longo do tempo, e impossibilidade de controlar variáveis que não estão nos sistemas.

Se você vai usar dados secundários do DATASUS ou de outros sistemas públicos (SINAN, SIM, SINASC, SIH, etc.), algumas coisas são importantes:

Descreva detalhadamente a fonte dos dados, o período, as variáveis utilizadas e qualquer tratamento que você fez nos dados antes da análise. Isso garante replicabilidade e transparência.

Discuta as limitações inerentes a dados secundários. Isso não enfraquece o seu estudo, pelo contrário, mostra rigor metodológico e conhecimento da área.

Verifique se a pesquisa requer aprovação no CEP. Para dados agregados e anonimizados disponíveis publicamente, geralmente não precisa. Para dados individualizados mesmo que públicos, a situação pode ser diferente. Consulte o CEP da sua instituição.

Periódicos nacionais de saúde pública que você deveria conhecer

O campo da saúde pública no Brasil tem uma produção nacional relevante. Alguns periódicos que têm peso na área:

Cadernos de Saúde Pública (FIOCRUZ): um dos mais tradicionais e respeitados da área em língua portuguesa. Publica estudos quantitativos, qualitativos e de políticas.

Saúde Pública (Faculdade de Saúde Pública da USP): histórico, foco em epidemiologia e saúde coletiva.

Ciência e Saúde Coletiva (ABRASCO): amplo, publica temas variados de saúde coletiva, inclusive temáticas sociais e de políticas.

Revista Brasileira de Epidemiologia: foco específico em estudos epidemiológicos.

Além desses, dependendo do tema, pode fazer sentido submeter para periódicos internacionais como Bulletin of the World Health Organization, Global Public Health, ou periódicos específicos de subáreas como Journal of Epidemiology & Community Health.

O Método V.O.E. pode ajudar bastante na etapa de escrita do manuscrito, especialmente na organização das seções e na revisão do texto antes da submissão. A estrutura do método foi pensada justamente para pesquisadoras que escrevem em condições de tempo limitado, como a rotina da maioria das pós-graduandas que também trabalham.

Como a saúde pública pensa a pesquisa de forma diferente

Tem uma questão cultural importante aqui que vale nomear. A saúde pública tem uma tradição crítica muito forte. O campo nasceu em estreita relação com movimentos sociais, com a luta pela Reforma Sanitária no Brasil, com a ideia de que saúde é um direito e não uma mercadoria.

Isso aparece na pesquisa. Periódicos da área valorizam não apenas a rigorosidade metodológica, mas a relevância social do que está sendo estudado. A pergunta “isso serve para quê?” tem peso nessa tradição.

Isso não quer dizer que você vai colocar suas opiniões políticas no artigo, mas quer dizer que contextualizar a relevância do estudo para as políticas públicas e para a população é esperado e valorizado.

Também significa que a pesquisa qualitativa tem muito mais legitimidade em saúde pública do que em algumas outras áreas das ciências da saúde. Estudos de caso, pesquisa-ação, pesquisa participativa: são todos reconhecidos como metodologias válidas para responder perguntas que estudos quantitativos não conseguem responder.

Por onde começar se você está iniciando na área

Vamos lá. Se você está começando a produzir artigos em saúde pública, algumas coisas práticas:

Antes de definir seu método, leia artigos publicados nos últimos dois anos nos periódicos onde você quer publicar. Observe o formato, o tamanho, como os resultados são apresentados, o que eles valorizam nas discussões.

Identifique o checklist metodológico correspondente ao seu desenho de estudo (STROBE, CONSORT, PRISMA, etc.) e use-o desde o planejamento da pesquisa, não só na escrita.

Se você vai trabalhar com dados secundários, entenda bem os sistemas de informação que vai usar antes de baixar os dados. Cada sistema tem sua lógica, suas variáveis, seus períodos de cobertura.

Converse com sua orientadora (ou orientador) sobre as revistas que fazem mais sentido para o seu perfil de pesquisa. A escolha do periódico deve ser estratégica, não aleatória.

E não se assuste com a quantidade de detalhes metodológicos que a área exige. Com o tempo, essas exigências começam a fazer sentido como garantias de qualidade da evidência produzida.


Pesquisar em saúde pública é, no fundo, pesquisar sobre a vida das pessoas em coletivo. Tem uma responsabilidade aí que vai além do rigor metodológico. Mas o rigor é o que dá credibilidade ao que você vai dizer. Cuide dos dois.

Perguntas frequentes

Artigo científico em saúde pública tem estrutura diferente de outras áreas?
Sim. A saúde pública tem forte tradição epidemiológica e muitos periódicos da área exigem elementos específicos como declaração de conflito de interesses, aprovação em comitê de ética, registro de ensaios clínicos (quando for o caso) e uso de checklists metodológicos como STROBE, CONSORT ou PRISMA.
Quais são as principais bases de dados para buscar artigos de saúde pública?
As principais são PubMed/MEDLINE (referência global), SciELO (forte em América Latina), LILACS (literatura latino-americana e caribenha), Scopus e Web of Science. Para políticas de saúde, o portal da OPAS e do Ministério da Saúde também trazem publicações relevantes.
Pesquisa com dados do SUS precisa de aprovação no Comitê de Ética?
Depende. Pesquisas com dados secundários públicos e anonimizados, como os sistemas do DATASUS, geralmente são dispensadas de CEP pela Resolução CNS 510/2016. Mas qualquer pesquisa com dados individuais identificáveis, mesmo retrospectivos, requer aprovação. Sempre consulte o CEP da sua instituição antes.
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