A Solidão do Professor que Pesquisa Sozinho
Pesquisar sozinho não é falta de competência. É um problema estrutural da academia brasileira que precisamos parar de normalizar.
O que ninguém chama pelo nome
Olha só. Tem uma situação que existe na academia brasileira há décadas, que afeta especialmente professores de universidades menores, institutos federais e faculdades privadas, e que todo mundo conhece mas quase ninguém nomeia diretamente.
É o professor que pesquisa sozinho. Não por escolha, não porque prefira a solidão intelectual, mas porque a estrutura ao redor não criou nenhuma outra condição.
Essa pessoa tem título de doutor. Sabe fazer pesquisa. Mas chegou numa instituição com vinte horas semanais de sala de aula, coordenação de curso acumulada, sem laboratório, sem verba de pesquisa, sem grupo de pesquisa funcionando e sem orientandos com perfil para colaborar. E ali fica tentando produzir ciência nas brechas.
Quero falar sobre isso porque acho que a gente normalizou demais uma situação que não deveria ser normal.
A conta que não fecha
Há uma conta que não fecha na carreira de muitos professores-pesquisadores no Brasil. Para ser aprovado no concurso, você precisa de currículo de pesquisador. Para manter o contrato com performance avaliada, você precisa publicar. Para progredir na carreira, você precisa de produção.
Mas a carga didática de muitas instituições é de vinte horas em sala de aula por semana, sem contar preparação, correção e atendimento. Isso antes de considerar as obrigações administrativas que sempre aparecem junto com a docência.
Com essa carga, onde fica o tempo da pesquisa? Na sexta à noite? No sábado de manhã? Nas férias que nunca são totalmente férias?
Não é uma questão de falta de dedicação. É uma questão de estrutura. E a estrutura, em muitas instituições, não foi pensada para que o professor pesquise. Foi pensada para que o professor ensine, e a pesquisa é tratada como um extra que a pessoa vai dar conta por conta própria.
Por que a solidão piora tudo
A pesquisa científica não é uma atividade solitária por natureza. O processo de construção do conhecimento depende de interlocução. Você formula uma hipótese e precisa de alguém que questione os pressupostos. Você coleta dados e precisa de alguém que sugira interpretações alternativas. Você escreve uma discussão e precisa de alguém que aponte os pontos cegos.
Quando você pesquisa sozinha, todo esse processo interno fica restrito à sua própria cabeça. Você questiona você mesma, sugere para você mesma, revisa você mesma. Isso tem limites evidentes. Não porque você seja incompetente, mas porque o pensamento científico se desenvolve no confronto de perspectivas, e duas cabeças pensando sobre o mesmo problema produzem algo qualitativamente diferente do que uma.
A solidão da pesquisa também tem um custo emocional que não aparece nos relatórios institucionais. Você passa meses trabalhando em algo que ninguém ao redor entende bem. As pessoas ao redor são colegas de departamento que têm outras áreas, outros interesses, outras pesquisas. A conversa sobre o seu trabalho específico, quando acontece, é rara e muitas vezes superficial.
O que a instituição costuma dizer
Quando esse tema aparece em reuniões de departamento ou em conversas com gestores, as respostas mais comuns são variações de: “precisamos fortalecer os grupos de pesquisa”, “vamos buscar parcerias institucionais”, “a pós-graduação vai mudar isso quando for criada”.
Essas respostas não são necessariamente falsas. Mas são respostas de longo prazo para um problema que existe hoje. E enquanto o grupo de pesquisa não é fortalecido e a pós-graduação não é criada, o professor continua pesquisando sozinho.
Tem também a variante da responsabilização individual: “o professor precisa se conectar mais com outros pesquisadores da área”. Como se a falta de rede de colaboração fosse resultado de uma atitude pessoal e não de uma estrutura que dificulta a criação dessas redes. Professor com vinte horas em sala de aula e coordenação de curso não tem facilidade para ir a eventos, construir relações de colaboração e manter contatos ativos com pesquisadores de outras instituições.
O padrão Qualis como sintoma
O sistema de avaliação da produção científica no Brasil, que tem o Qualis como referência central, foi pensado dentro de um modelo de universidade de pesquisa. Publicar em periódicos de alto impacto, ter internacionalização da produção, apresentar em eventos internacionais. Tudo isso faz sentido para um pesquisador em tempo integral, em uma universidade com infraestrutura e financiamento.
Quando esse mesmo sistema é aplicado indiscriminadamente a professores de instituições com outra realidade, sem ajuste de contexto, o resultado é uma pressão sobre pessoas que não têm as condições que o sistema pressupõe. O critério de avaliação é o mesmo, as condições são completamente diferentes.
Não estou dizendo que o padrão de qualidade científica deva ser rebaixado. Estou dizendo que o padrão de condições de trabalho precisaria ser levantado antes de a cobrança fazer sentido.
O que é possível fazer, mesmo assim
Não quero encerrar esse texto sem reconhecer o que é possível fazer dentro das limitações reais, porque existem professores que constroem produção sólida em condições adversas e vale aprender com isso.
Prioridade explícita ao tempo de pesquisa. Mesmo que sejam duas horas por semana em um dia fixo, esse tempo precisa ser tratado como inegociável. A tentação de deixar a pesquisa para quando a carga didática baixar é a armadilha mais comum, e a carga raramente baixa por conta própria.
Colaborações remotas. Com a tecnologia disponível hoje, é possível ter parceiros de pesquisa em outras cidades e instituições, participar de grupos de trabalho online e co-autoria em publicações sem necessidade de proximidade geográfica. Isso não substitui completamente a dinâmica presencial de um grupo de pesquisa, mas é melhor do que pesquisar completamente isolado.
Orientação de iniciação científica. Mesmo que o PIBIC não chegue para todos, orientar alunos de graduação em pequenos projetos cria um vínculo de colaboração que combate parcialmente o isolamento e cria interlocutores próximos para a pesquisa.
O custo geracional dessa estrutura
Tem um efeito que demora a aparecer mas é real: quando professores pesquisam sozinhos por anos, eles param de ser referências de pesquisa para os alunos. A graduação não vê a pesquisa acontecendo. Não há iniciação científica, não há conversas sobre artigos em andamento, não há o contágio que acontece quando um aluno vê de perto o processo de construção do conhecimento.
Isso cria um ciclo. Alunos que não foram expostos à pesquisa durante a graduação chegam na pós-graduação sem saber o que é fazer ciência na prática. Os problemas que os orientadores enfrentam com orientandos sem autonomia, sem capacidade de formular problema de pesquisa, sem hábito de leitura científica, têm raiz parcialmente aqui.
Não é culpa do aluno. É resultado de uma formação que não incluiu experiência real de pesquisa porque o professor que estava ali também não tinha condições de fazer pesquisa visível.
O que precisaria mudar
A mudança estrutural que resolveria isso não é pequena. Passa por repensar a carga horária de professores-pesquisadores, criar financiamento de pesquisa que chegue a instituições menores, valorizar formas de produção científica que não dependem de grandes laboratórios e infraestrutura cara, e reconhecer que publicar um artigo por ano em boas condições é diferente de publicar um artigo por ano em condições de precariedade.
Passa também por parar de tratar a solidão do pesquisador como um problema de atitude e nomeá-la pelo que é: uma falha de política científica. Esse diagnóstico não é confortável para gestores de ciência, mas é o honesto.
Para terminar
A solidão do professor que pesquisa sozinho não é um destino inevitável nem uma marca de incompetência. É uma condição criada por uma estrutura que não foi pensada para sustentar o que ela exige.
Reconhecer isso em voz alta é o primeiro passo para não normalizar o que não deveria ser normalizado. E para que as pessoas que vivem essa situação parem de interpretar um problema coletivo como uma falha pessoal.
Se quiser refletir mais sobre carreira e produção acadêmica, conheça a página sobre o Método V.O.E. e os recursos disponíveis aqui.