Emprego verde no Brasil trava em 16% da economia há 10 anos
Estudo da UFRJ mostra que a fatia de empregos verdes não mudou entre 2014 e 2024, enquanto trabalhadores negros, pardos e indígenas seguem concentrados
O Brasil fala de transição energética há uma década. Nesse mesmo período, a fatia de empregos verdes na economia brasileira não se moveu: ficou parada em 16%. É o que mostra um working paper do Instituto de Economia da UFRJ, publicado no âmbito do projeto DIP-BR (Descarbonização e Política Industrial: Desafios para o Brasil), que cruzou dados da PNAD Contínua com tabelas de insumo-produto entre 2014 e 2024.
Emprego verde é um posto de trabalho ligado diretamente à proteção ambiental, ou capaz de puxar a transição em outros setores da cadeia produtiva. O estudo separa a economia em três grupos: verde, marrom (alto impacto ambiental, como petróleo, agropecuária intensiva e siderurgia) e neutro (serviços com baixo impacto direto). Se você pesquisa política ambiental, economia do trabalho ou desigualdade social, esse dado muda o que você sabe sobre quem está pagando o custo da descarbonização, e quem não está colhendo o benefício dela.
O que aconteceu
Pesquisadores do Instituto de Economia da UFRJ estimaram os empregos verdes diretos (dentro dos setores ambientalmente orientados) e indiretos (gerados ao longo das cadeias produtivas) usando dez anos de microdados. O resultado central é a estagnação: 16% dos empregos brasileiros são verdes, e essa proporção não mudou entre 2014 e 2024.
Houve movimento na economia, só que ele não foi na direção que se esperaria. Os empregos marrons recuaram de 62,5% para 59,3% do total no período, mas quem ocupou esse espaço foram os empregos neutros, não os verdes. Ou seja, o Brasil está saindo do marrom, mas não está indo para o verde. Está indo para o lado.
O estudo tambem acha uma distorcao salarial que chama atencao. Em média, empregos verdes pagam mais do que os marrons, mas essa vantagem desaparece entre trabalhadores com ensino superior: para esse grupo, setores marrons e neutros pagam mais do que os verdes. Isso é um obstáculo real para atrair profissional qualificado para a economia de baixo carbono.
Por que isso importa pra você
Se você pesquisa mercado de trabalho, desigualdade racial ou política industrial, o dado que mais interessa aqui não é o 16%. É quem está dos dois lados dessa linha.
O working paper mostra que trabalhadores negros, pardos e indígenas estão concentrados nos setores marrons: os mais precários, com menor escolaridade e menor renda. São também os que mais perdem com a descarbonização, porque estão nos empregos que vão encolher, e são os menos preparados para migrar para os setores que vão crescer.
Isso desenha um cenário de risco que vale nomear com clareza:
- Quem estuda transição energética precisa incluir a variável racial e de renda na análise, não como nota de rodapé, mas como eixo central do problema.
- Quem estuda política de emprego ganha aqui um argumento de peso contra o discurso de que “a transição gera emprego” sem qualificar qual emprego, para quem.
- Quem orienta trabalho nessa área tem no DIP-BR um exemplo de como combinar PNAD e tabelas de insumo-produto para mapear empregos verdes, diretos e indiretos, no contexto brasileiro.
Se a sua pesquisa toca em sustentabilidade, vale perguntar: a transição que estou estudando distribui o custo e o benefício de forma igual, ou reproduz a desigualdade que já existia antes dela?

Por que esse número parado me incomoda
Dez anos sem mudar a fatia de empregos verdes não é um detalhe estatístico. É sinal de que o discurso público sobre transição energética andou muito mais rápido do que a estrutura real do mercado de trabalho brasileiro.
Fico particularmente incomodada com o achado sobre educação superior: os setores verdes pagam menos para quem tem diploma. Isso significa que a economia de baixo carbono, do jeito que está desenhada hoje, paga menos justamente para quem tem mais qualificação formal, o que pode dificultar atrair esse talento pra lá.
O estudo também traz um achado que devia orientar qualquer política pública nessa área: o multiplicador de emprego de um setor depende muito mais da posição dele nas cadeias produtivas do que da quantidade de mão de obra que ele emprega direto. A indústria automotiva verde, por exemplo, tem multiplicador de 7,44, o maior entre os setores verdes analisados. Expandir esse tipo de setor, com cadeia doméstica de baterias e eletrônica de potência, gera muito mais emprego do que simplesmente rotular mais atividades como verdes no papel.
Não significa que toda pesquisa em sustentabilidade precisa virar pesquisa em desigualdade racial. Significa que ignorar quem está no setor marrom, e por que está lá, deixa a análise incompleta. Faz sentido pensar a transição energética como problema distributivo, não só como problema técnico.
Próximos passos
Se esse tema toca a sua pesquisa, aqui vai um roteiro de leitura e verificação:
- Localize o working paper completo do projeto DIP-BR e confira a metodologia de classificação setorial (verde, marrom, neutro) contra a base que você usa hoje.
- Cheque se a sua análise de transição energética já separa os dados por raça, escolaridade e renda, ou se trata o mercado de trabalho como bloco único.
- Se você trabalha com séries temporais de emprego, teste o mesmo recorte (2014-2024) na sua área ou região, para ver se a estagnação nacional se repete localmente.
- Converse com sua orientadora sobre incluir o multiplicador de emprego por cadeia produtiva como variável de controle, e não só a intensidade direta de mão de obra do setor.
Esse tipo de achado, um número que parece técnico mas escancara uma desigualdade estrutural, também aparece em outras frentes da vida acadêmica brasileira. Se você quer entender como isso se conecta com o financiamento da própria pesquisa científica, vale ler Bolsa de Pesquisa Defasada há 10 Anos: Quem Paga?.
Fonte: Empregos verdes no Brasil estão estagnados há 10 anos, e a desigualdade racial se aprofunda com a transição energética, Abori
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Perguntas frequentes
O que são empregos verdes segundo o estudo da UFRJ?
Por que a fatia de empregos verdes no Brasil não cresce?
Quem perde mais com a transição para uma economia de baixo carbono no Brasil?
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