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Retratação em 4 meses: quando o sistema funciona rápido

Sanção do ORI a ex-pós-doc por fraude expõe outra imagem duplicada. Science Signaling retratou em semanas. Por que essa velocidade é rara.

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Quatro meses. Foi esse o tempo entre o Escritório de Integridade em Pesquisa dos Estados Unidos (ORI) sancionar um ex-pós-doc por fraudar imagens, e uma segunda revista retratar outro artigo do mesmo pesquisador, por outra fraude de imagem, descoberta por um caçador de fraudes que leu a notícia e foi verificar por conta própria.

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O ORI é o órgão do governo americano que investiga fraude em pesquisas financiadas com dinheiro público, e em março ele havia sancionado Chen-Yeh Ke, ex-pós-doc na Icahn School of Medicine at Mount Sinai, por falsificar imagens num manuscrito não publicado. Foi a partir dessa notícia que tudo começou a se mexer de novo.

Se você trabalha com imagem em pesquisa (microscopia, Western blot, histologia), esse caso mostra dois lados da mesma moeda: como a fraude se espalha por mais de um artigo sem ser notada, e como uma ferramenta certa, nas mãos certas, reduz o tempo de correção de anos para semanas.

O que aconteceu

Paul Brookes, pesquisador da Universidade de Rochester e caçador de fraudes há mais de uma década, leu a cobertura do Retraction Watch sobre a sanção do ORI contra Ke. Curioso, foi até o perfil ORCID dele e passou os artigos publicados pelo ImageTwin, uma ferramenta que compara imagens científicas contra um banco de mais de 160 milhões de trabalhos.

O resultado: um artigo de 2019 na revista Science Signaling, também de autoria de Ke, tinha uma imagem idêntica à de outro estudo, publicado antes na Scientific Reports, com o mesmo primeiro autor. A imagem que deveria mostrar um tecido de camundongo saudável era, na verdade, a mesma usada para representar um tecido infectado por vírus em outro experimento.

Brookes denunciou a duplicação à revista e publicou a análise no PubPeer no mesmo dia, 13 de março. A investigação da Science Signaling achou mais problema do que o denunciado: Western blots duplicados e legendas incorretas em outras figuras do mesmo artigo. Em 14 de julho, a revista retratou o texto. O artigo já tinha sido citado 20 vezes.

Por que essa velocidade importa pra você

Uma retratação em quatro meses, do início da denúncia até a decisão final, é raríssima. A maioria dos casos leva anos: a revista precisa abrir processo interno, contatar todos os autores, esperar resposta, decidir. Este caso teve dois atalhos que normalmente não existem juntos.

  1. A sanção do ORI já tinha feito o trabalho pesado. A denúncia não chegou como suspeita solta: chegou apoiada numa investigação federal já concluída sobre o mesmo pesquisador.
  2. A ferramenta de IA fez em minutos o que nenhuma leitura manual faria. Comparar uma imagem contra 160 milhões de outras publicadas não é tarefa para olho humano, nem para memória fotográfica, como o próprio Brookes observou.
  3. Parte dos coautores colaborou. Os autores correspondentes, Fen-Hwa Wong e Lun-Jou Lo, concordaram com a retratação assim que foram contatados; Chen-Yeh Ke e Hua-Hsuan Mei não responderam às perguntas da revista.

Se você está publicando com coautores, revisando artigo de terceiros, ou orientando alguém que trabalha com imagem em bancada, vale perguntar: você sabe se suas figuras já passaram por uma ferramenta assim? Não é acusação, é prevenção. Erro de rotulagem existe, e pega mais gente do que se imagina.

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O que essa história revela sobre o sistema

Quando li esse caso, a parte que mais me chamou atenção não foi a fraude, foi a reação do editor da Science, Holden Thorp, que há tempos defende um processo mais rápido e mais transparente de correção da literatura científica. Ele tem razão em cobrar isso, porque o padrão hoje é o oposto: dado errado pode sobreviver anos no acervo científico antes de alguém notar. O próprio artigo retratado já tinha sido citado 20 vezes.

O próprio Brookes chamou essa retratação de “surpreendentemente rápida” e disse que gostaria que mais revistas fossem assim. Isso é revelador: ele não está elogiando o sistema, está apontando que o normal é lento, e que a exceção deveria ser a regra.

Não significa que toda pesquisadora precisa se tornar caçadora de fraudes. Significa entender que ferramentas de checagem de imagem existem, estão acessíveis e fazem parte da caixa de integridade que qualquer laboratório deveria usar antes de submeter, não só depois que alguém denuncia.

Próximos passos

  1. Se você trabalha com imagem experimental (Western blot, microscopia, histologia), pergunte no seu laboratório se existe rotina de checagem antes da submissão.
  2. Ao revisar um manuscrito como revisora, preste atenção especial a imagens que parecem “genéricas demais” ou repetidas entre figuras do mesmo artigo.
  3. Se você é coautora de um trabalho e for contatada por uma revista sobre uma possível duplicação, responda rápido: no caso do Ke, os coautores que colaboraram ajudaram a destravar a retratação em semanas, os que não responderam ficaram registrados como tal na nota oficial.

Vale lembrar que agilidade na correção não é punição gratuita: é o sistema científico tentando fazer o que deveria fazer sempre, sem depender de um caçador de fraudes disposto a rodar uma ferramenta por conta própria. Se você quer entender melhor como pequenos desvios de método se acumulam até virar um problema estrutural, vale ler Depois de 80 anos, o método de Erdős ganha upgrade, sobre como até técnicas consagradas precisam de revisão constante.

Fonte: ORI sanction, news coverage prompts sleuthing, retraction, Retraction Watch

Perguntas frequentes

O que é o ORI e o que ele faz?
O Escritório de Integridade em Pesquisa (ORI) é o órgão do governo dos Estados Unidos que investiga fraude em pesquisas financiadas com dinheiro público. Ele pode sancionar pesquisadores, mas não tem poder para retratar artigos: essa decisão é sempre da revista.
Como uma ferramenta de IA encontra imagem duplicada em artigo científico?
Ferramentas como o ImageTwin comparam as imagens de um artigo contra um banco com mais de 160 milhões de trabalhos publicados, procurando figuras idênticas ou reaproveitadas. É um trabalho de comparação em escala que nenhuma leitura manual, por mais atenta que seja, consegue reproduzir.
Por que a maioria das retratações demora anos?
Porque a investigação depende da revista abrir um processo, contatar os autores e esperar resposta, e nada garante que isso seja rápido. Neste caso, o processo levou menos de quatro meses, o que os próprios envolvidos consideraram raro. O caso do Chen-Yeh Ke foi rápido porque a denúncia já vinha de uma sanção pública do ORI e de uma investigação de imagem prontas, o que normalmente não existe.

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