ANPG debate como aproximar pós e indústria no Brasil
No 2º Salão da Pós-Graduação, especialistas discutem por que a academia ainda produz mestres e doutores que a indústria brasileira não absorve.
Você termina o doutorado e a pergunta que ninguém responde direito é: e agora, quem te contrata? Em um debate recente promovido pela ANPG, no 2º Salão da Pós-Graduação, especialistas do setor produtivo, do serviço público e da pesquisa se sentaram para discutir exatamente isso: por que o Brasil forma mestres e doutores e não tem estrutura para absorvê-los fora da universidade. Uma contrapartida é a exigência que o poder público faz a uma empresa em troca de um incentivo fiscal ou financeiro, como formar mão de obra qualificada. Se você está perto de titular ou já titulou e está pensando no que vem depois, essa conversa é sobre o seu futuro concreto, não sobre política abstrata.
O que aconteceu
A mesa reuniu Eduardo Vaz, ex-dirigente da Confederação Nacional da Indústria e consultor empresarial, Lucas Vieira, coordenador de pós-graduação da Escola Nacional de Administração Pública (Enap), e Luiza Martins, pesquisadora do Centro de Estudos e Memórias da Juventude (CEMJ). A mediação foi de Elvis Arruda, diretor de C&TI da ANPG.
Vaz citou o Inova Talentos, programa de capacitação de mestres, doutores e estudantes de graduação em atividades de pesquisa dentro de empresas, criado pela CNI em parceria com o CNPq, como exemplo de política que funciona. “Essa é uma articulação entre o setor produtivo e o CNPq que é um sucesso”, disse ele. O programa começou com bolsas públicas, mas desde 2015 é sustentado só por recursos privados.
O ponto mais forte do debate, porém, foi outro: falta contrapartida. Vaz mencionou o caso de uma multinacional que abriu um parque industrial na China, com capital dividido igualmente entre a empresa e o governo chinês, e o Estado chinês condicionou o investimento à capacitação de engenheiros locais. “Temos políticas públicas de incentivo no Brasil que não exigem contrapartida, como, por exemplo, a absorção de mestres e doutores”, apontou.
Por que isso importa pra você
Se você é pesquisadora, essa notícia não é sobre política pública distante. É sobre o que acontece (ou não acontece) depois da sua defesa. Veja como o debate se conecta com os diferentes momentos da pós:
- Se você está terminando o doutorado agora: o problema descrito não é individual, é estrutural. Não adianta se culpar por não ter oferta de emprego fora da academia; o sistema de incentivo à indústria simplesmente não pede isso das empresas.
- Se você já titulou e está fora da universidade: Elvis Arruda, da ANPG, foi direto ao ponto ao dizer que áreas antes vistas como de “futuro sólido”, como medicina e engenharia, hoje têm mestres e doutores se tornando MEIs por falta de vaga formal. Isso não é fracasso pessoal, é sintoma de um investimento nacional em inovação que gira em torno de 1,5% do PIB, majoritariamente público.
- Se você está pensando em migrar para o setor produtivo: o Inova Talentos é um caminho real, hoje sustentado por recursos privados. Vale pesquisar se a sua área tem editais abertos por esse programa ou por iniciativas semelhantes.
Lucas Vieira, da Enap, trouxe um argumento que vale reter: burocracia estável e inovação não são opostos. Ele citou o programa espacial americano que levou o homem à Lua como exemplo de como um Estado bem estruturado gera tecnologia que depois é absorvida pela indústria de transformação. Ou seja: o problema brasileiro não é “excesso de burocracia”, é ausência de projeto.

O ponto que essa conversa não resolveu
Um dado chamou minha atenção no debate: Vaz sugeriu criar um banco de dados de teses de mestrado e doutorado da Capes e do CNPq, com palavras-chave, acessível à indústria, para fazer o que ele chamou de “matching” entre as necessidades da produção e as pesquisas já feitas no país. É uma ideia simples e, até onde a conversa mostrou, ainda inexistente em escala nacional.
Isso expõe algo que quem está na pós sente na pele: sua pesquisa pode ter aplicação prática real, e a indústria simplesmente não sabe que ela existe. Não é falta de relevância do seu trabalho. É falta de ponte entre o que se produz e quem poderia usar.
Lucas Vieira foi além e disse que não dá para pensar a fixação de mestres e doutores só pelas universidades: é preciso um projeto de desenvolvimento e reindustrialização, com polos regionais. Luiza Martins, do CEMJ, contou que a entidade está preparando o segundo volume do dossiê Newton Sucupira, agora com foco nas assimetrias regionais na fixação de pós-graduandos. Se você titula em uma região com pouca indústria instalada, essa desigualdade pesa duas vezes: primeiro na formação, depois na absorção.
Próximos passos
Enquanto o pacto nacional de desenvolvimento científico que a ANPG defende não sai do papel, existem movimentos que você pode fazer agora:
- Pesquise se sua área tem editais ativos do Inova Talentos ou de programas equivalentes de PD&I em empresas.
- Mapeie se existe polo industrial ou parque tecnológico na sua região que já receba pós-graduandos, mesmo informalmente.
- Se sua pesquisa tem aplicação prática, comece a documentar isso de forma acessível a quem não é da academia. Esse “matching” ainda não existe em escala nacional, então documentar isso pode ser o que abre a porta antes de alguém criar essa ponte por você.
- Acompanhe o segundo dossiê Newton Sucupira do CEMJ quando for publicado: ele deve mapear onde estão as maiores lacunas regionais de absorção.
Se você está avaliando se muda de área ou de trajetória por falta de perspectiva na sua região ou no seu campo, vale entender antes o que essa mudança implica na prática. Escrevi sobre isso em Mudança de Área na Pós-Graduação: É Possível?.
Fonte: Um projeto de desenvolvimento que aproxime academia e indústria é fundamental para absorção de mestres e doutores, ANPG
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Perguntas frequentes
O que é o programa Inova Talentos?
Por que mestres e doutores têm dificuldade de emprego fora da universidade no Brasil?
O que a ANPG defende para melhorar a empregabilidade de pós-graduandos?
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