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Ex-diretora de instituto na Índia chega à nona retratação

A Leukemia Research retratou um artigo de 2011 de Chitra Mandal, cientista indiana que já soma nove retratações e dezenas de artigos no PubPeer.

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Um artigo de 2011 sobre leucemia infantil virou, em 30 de maio, a nona retratação da carreira de uma ex-diretora de instituto de pesquisa na Índia. A revista Leukemia Research recolheu o estudo citando preocupações de que dados em figuras pareciam ter sido manipulados. A autora, Chitra Mandal, dirigiu de forma interina o Instituto de Biologia Química da Índia (CSIR-IIC), em Calcutá, entre 2014 e 2015, e hoje soma mais de duas dezenas de artigos questionados no PubPeer. O PubPeer é uma plataforma on-line onde qualquer pesquisador pode apontar publicamente inconsistências em trabalhos já publicados. Se você está prestes a submeter um artigo, ou já lida com revisão de dados de terceiros na sua própria pesquisa, entender como esse sistema de checagem funciona muda a forma como você lê, e produz, evidência científica.

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O que aconteceu

Mandal não é uma pesquisadora qualquer. Além da direção interina do CSIR-IIC, ela chefiou o complexo de inovação do CSIR (Centro de Pesquisa Científica e Industrial da Índia) entre 2010 e 2015, recebeu múltiplos prêmios e foi nomeada Distinguished Fellow do Science and Engineering Research Board em 2018. É esse currículo que torna o caso relevante para além de uma retratação isolada: são nove artigos retirados até agora, e mais de duas dezenas sinalizados no PubPeer, a maioria por irregularidades em imagens ou problemas nos dados de gráficos.

Em março, a editora Wiley já havia retratado outro artigo de 2011 do qual Mandal é coautora, publicado na Molecular Biology International, também por questões de imagem. Um artigo de 2016 do qual ela é coautora recebeu, em ocasião anterior, uma nota de preocupação (não uma retratação).

A nona retratação, a mais recente, trata de um estudo sobre a movimentação de linfoblastos da medula óssea para o sangue periférico em leucemia infantil. Foi a pesquisadora Elisabeth Bik, conhecida por identificar imagens duplicadas em artigos científicos, quem sinalizou o problema pela primeira vez no PubPeer, em 2019. Um jornalista havia contatado Bik perguntando sobre o trabalho de Mandal, citando uma investigação. “E aí, ao olhar mais artigos dela, encontrei mais problemas”, contou Bik ao Retraction Watch. Ela notou que áreas específicas de gráficos de pontos apareciam duplicadas entre figuras diferentes; outro comentarista do PubPeer identificou que os mesmos dados haviam sido alterados e reaproveitados para dois momentos diferentes do experimento. Um detalhe importante: Bik disse que não comunicou as irregularidades diretamente à editora em 2019, mas observou que os autores devem ter recebido a notificação automática do PubPeer.

Um porta-voz da Elsevier, que publica a Leukemia Research, disse que a editora só foi alertada sobre o artigo no fim de 2023, quando abriu uma investigação “conforme as políticas da Elsevier e as diretrizes do COPE”. Nem Mandal, nem vários de seus coautores, responderam aos pedidos de comentário do Retraction Watch para esta matéria. Em 2021, ao ser questionada sobre o conjunto de artigos sinalizados, Mandal já havia dito que ela e os coautores, a maioria seus próprios orientandos de doutorado, tinham conversado com os periódicos e respondido à maior parte dos comentários do PubPeer, e que muitos deles eram “puramente técnicos”, com dados mal interpretados.

Por que isso importa pra você

Vou te mostrar em três frentes, dependendo de onde você está agora.

Se você está revisando literatura pra citar em algum trabalho

  1. Um artigo retratado continua indexado em muitas bases por um tempo, às vezes com o aviso de retratação escondido no rodapé do PDF. Vale conferir o status antes de citar.
  2. Gráfico com o mesmo padrão de pontos repetido em figuras diferentes é sinal de alerta, não coincidência estatística.
  3. O PubPeer é público e buscável: antes de fechar uma revisão de literatura, checar se o artigo tem comentário lá custa dois minutos.

Se você está prestes a submeter seu próprio artigo

  1. Periódicos comparam suas figuras com bancos de imagens de outros artigos, seus e de terceiros. Reaproveitar um gráfico de um experimento anterior, mesmo sem intenção de enganar, é o tipo de coisa que vira comentário público.
  2. Guardar os dados brutos de cada figura, não só a imagem final que foi pro PDF, é o que separa um erro honesto explicável de uma investigação que se arrasta por anos.

Se você orienta ou coorienta

  1. Entre o primeiro apontamento no PubPeer (2019) e a nona retratação (2026) passaram-se sete anos. A integridade dos dados precisa ser cuidada no momento da coleta, não só quando alguém reclama depois.
  2. Tratar um comentário do PubPeer como sinal a investigar, e não como ataque pessoal, protege tanto o orientando quanto o programa.
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Quem fiscaliza a integridade científica na Índia

Desde 2022, o país vem registrando mais casos reportados de má conduta em pesquisa, o que levou o National Institutional Ranking Framework, o sistema oficial de ranqueamento de instituições, a anunciar em 2025 que passaria a penalizar instituições de ensino superior quando “um número significativo de artigos” publicados pelo seu corpo docente fosse retratado.

Sabuj Bhattacharyya, oficial de ética e integridade em pesquisa no Biotechnology Research and Innovation Council-Institute for Stem Cell Science and Regenerative Medicine, em Bengaluru, disse ao Retraction Watch que essa penalidade não resolve sozinha. Segundo ele, o país precisa de uma agência guarda-chuva pra olhar a integridade da pesquisa em escala nacional, algo parecido com o Office of Research Integrity dos Estados Unidos ou o UK Research Integrity Office, no Reino Unido. “A menos que tenhamos uma agência pra supervisionar tudo, a implementação das diretrizes de conformidade vai variar significativamente entre institutos e organizações”, afirmou. Uma agência assim, segundo ele, obrigaria as instituições a cumprir padrões comuns e alimentaria bancos de dados que órgãos de governo e agências de fomento poderiam consultar.

É exatamente esse vazio que o caso Mandal expõe. O primeiro apontamento no PubPeer é de 2019, mas Bik não levou o caso à editora na época, e a Elsevier diz que só foi alertada no fim de 2023. A nona retratação saiu em maio de 2026. Nenhuma instância central puxou o fio nesse intervalo de sete anos: o alerta estava público desde 2019, e ninguém tinha a obrigação institucional de agir sobre ele. Cada periódico investigou por conta própria, no seu próprio ritmo.

O que esse caso me lembra sobre organizar os próprios dados

Quando li esse caso, o que me chamou atenção não foi a nona retratação em si. Foi o intervalo. Sete anos entre o primeiro comentário no PubPeer e o desfecho. Nesse tempo, o artigo seguiu publicado, indexado e disponível pra ser citado como se fosse dado confiável.

Por um lado, isso mostra que o sistema de checagem pública funciona: foi um comentário público no PubPeer, feito por uma pesquisadora de fora, não uma auditoria institucional, que puxou o fio. Por outro, mostra como esse sistema depende da boa vontade de terceiros e de periódicos que decidem investigar. Não existe, hoje, um mecanismo automático que force essa checagem a acontecer rápido.

Não significa que você precisa virar detetive de imagem científica pra sobreviver na pós. Significa que vale organizar seus próprios dados como se, um dia, alguém fosse perguntar. É aqui que entra o Método V.O.E. (Velocidade, Organização, Execução Inteligente): a Organização não é sobre pasta bonita no Drive, é sobre manter rastreável de onde cada número da sua tese veio, e conseguir reconstruir esse caminho se precisar. Quem guarda o dado bruto de cada figura, com data e versão, se protege de dois jeitos: fica mais difícil errar sem perceber, e fica muito mais fácil provar que não houve má-fé, se algum dia alguém perguntar. Faz sentido?

Próximos passos

Se esse caso te deixou com vontade de revisar seus próprios arquivos, aqui vai um roteiro pra essa semana:

  1. Reveja as figuras dos seus últimos artigos ou capítulos e confirme se você ainda tem o dado bruto de cada gráfico, não só a imagem final que foi pro PDF.
  2. Se você usa a mesma figura em mais de um contexto (por exemplo, dois pontos de tempo do mesmo experimento), documente por que ela é reaproveitada e deixe isso explícito na legenda.
  3. Antes de citar um artigo numa revisão de literatura, faça uma busca rápida pelo título no PubPeer. Leva dois minutos e evita citar um trabalho já contestado.
  4. Se você orienta, converse com seus orientandos sobre como arquivar dados brutos desde a coleta, não só na hora de escrever o artigo.

Esse tipo de caso, quando vem à tona, é sinal de que o sistema funciona, mesmo que devagar demais pra quem espera resposta rápida. Se você quer entender melhor como esse processo funciona por dentro, dá uma olhada em Retratação de Artigo: Quando a Ciência Se Corrige.

Fonte: Former acting director of national research lab in India adds another retraction, Retraction Watch

Perguntas frequentes

Por que um artigo científico é retratado?
Um artigo é retratado quando o periódico conclui que os dados, imagens ou conclusões apresentados não são confiáveis, seja por erro grave, seja por manipulação. No caso mais recente do artigo de Chitra Mandal, a Leukemia Research citou preocupações de que dados em figuras pareciam ter sido manipulados.
O que é o PubPeer?
O PubPeer é uma plataforma on-line onde cientistas e leitores comentam publicamente sobre artigos já publicados, apontando inconsistências, erros ou sinais de manipulação de dados. Muitas retratações começam com um comentário público lá, como no caso de Chitra Mandal, cujo artigo foi sinalizado em 2019 pela pesquisadora Elisabeth Bik.
A Índia tem uma agência que fiscaliza a integridade da pesquisa científica?
Não uma agência central única. Em 2025, o National Institutional Ranking Framework anunciou que passaria a penalizar instituições com muitos artigos retratados, mas Sabuj Bhattacharyya, oficial de ética e integridade em pesquisa ouvido pelo Retraction Watch, defende a criação de um órgão nacional, nos moldes do Office of Research Integrity dos Estados Unidos ou do UK Research Integrity Office.

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