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Abandono no 1º ano do médio cai 40% de 2024 a 2025

Censo Escolar mostra queda histórica no abandono escolar do 1º ano do ensino médio. Entenda o que mudou e por que a permanência ainda não é sinônimo de

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Em 2015, quase 9 em cada 100 estudantes do 1º ano do ensino médio abandonavam a escola durante o ano letivo. Em 2025, esse número caiu para 2,2, o menor da série histórica. O abandono escolar é quando o aluno continua matriculado, mas para de frequentar as aulas ao longo do ano, o primeiro degrau rumo à evasão, quando ele nem chega a se matricular de novo. Se você pesquisa educação básica, políticas públicas ou desigualdade educacional, esse dado do Censo Escolar 2025 é o tipo de número que muda o argumento de um capítulo inteiro.

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O que aconteceu

O Inep divulgou nesta sexta-feira a 2ª etapa do Censo Escolar 2025, e o dado que chamou atenção foi específico: a taxa de abandono no 1º ano do ensino médio caiu de 3,7% em 2024 para 2,2% em 2025. Uma redução de mais de 40% em um único ano, num indicador que historicamente é o mais crítico da educação básica brasileira, porque é justamente na porta de entrada do ensino médio que a evasão dispara.

Três mudanças aconteceram nesse período e são apontadas como possíveis explicações. A primeira é o programa Pé-de-Meia, que paga incentivo financeiro a estudantes de baixa renda da rede pública: R$ 200 na confirmação da matrícula, R$ 1.800 por ano condicionados a 80% de presença, e um depósito de R$ 1.000 por série aprovada, sacável só no fim do ensino médio. A segunda é a reestruturação do novo ensino médio, que passou por ajustes em julho de 2024 depois de críticas ao modelo original de 2017. A terceira é o avanço da educação integral e do ensino técnico, que o próprio Censo Escolar 2025 registra em crescimento.

Gabriel Corrêa, diretor de Políticas Públicas do Todos Pela Educação, é direto sobre o que se sabe e o que não se sabe: “a hipótese de que o Pé-de-Meia contribui para reduzir o abandono é muito plausível, mas não existem estudos ainda dimensionando esse impacto”. Ele soma outro fator ao incentivo financeiro: “junto com o programa de bolsas, outros fatores podem estar ajudando essa taxa, como a expansão dos cursos técnicos e do tempo integral.”

Por que isso importa pra você

Se você trabalha com educação, seja pesquisando o tema, seja lecionando ou orientando quem pesquisa, esse dado pede duas leituras diferentes, e é fácil confundir uma com a outra.

  1. Se você pesquisa política educacional: o desenho do Pé-de-Meia paga por matrícula, por presença e por aprovação. Segundo Corrêa, ainda não existem estudos dimensionando o impacto do programa na queda do abandono.
  2. Se você trabalha com dados educacionais: o corte por estado importa mais que a média nacional. Acre chegou a 6% de abandono, quase o triplo da taxa do país; Amapá e Rondônia passaram de 5%. A queda de 40% é real, mas não é uniforme.
  3. Se você é professora ou orientadora: o dado de permanência não fala nada sobre aprendizagem, e tratar os dois como sinônimos é o erro mais fácil de cometer com esse tipo de notícia.

O ponto que merece mais cuidado é justamente esse terceiro. Segundo o Anuário Brasileiro da Educação Básica de 2025, apenas 7,7% dos concluintes do ensino médio no Brasil atingem nível adequado simultaneamente em português e matemática. Ou seja: o aluno está ficando na escola bem mais do que ficava há dez anos, e isso é uma conquista real. Mas ficar não é o mesmo que aprender.

Patricia Mota Guedes, superintendente do Itaú Social, resume o próximo passo dessa forma: “os dados indicam que o Brasil está conseguindo reduzir barreiras históricas de permanência na escola. Agora, o próximo ciclo de políticas públicas precisa se concentrar ainda mais em assegurar que os avanços no fluxo escolar sejam acompanhados por qualidade na aprendizagem.”

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O que essa queda ainda não explica

Toda vez que um número bom aparece, existe a tentação de fechar o assunto ali. Esse aqui resiste a isso, e é bom que resista.

Corrêa aponta a causa mais estrutural do problema, e ela não tem relação direta com dinheiro: “o motivo que mais explica jovens fora da escola é a falta de interesse nos estudos. Então, a prioridade máxima para reduzir abandono e evasão deve estar em tornar a escola melhor, com mais aprendizagens significativas, mais atrativa para as juventudes de hoje.” Se essa leitura estiver certa, o incentivo financeiro compra tempo, e o que decide se esse tempo vira aprendizagem é o conteúdo que o aluno encontra na sala de aula.

Na minha experiência acompanhando pesquisa em educação, esse é o tipo de dado que exige cuidado: fácil de citar como prova, difícil de sustentar como causa. Um levantamento numérico bom não prova causalidade nenhuma sozinho, e os próprios entrevistados da matéria fazem essa ressalva com todas as letras. Não significa que o Pé-de-Meia não funciona. Significa que ainda não existe o estudo que isole o efeito dele do efeito da reforma curricular e da expansão do ensino técnico, e é aí que abre espaço de pesquisa de verdade: quem conseguir desenhar esse desenho quase-experimental tem um artigo relevante nas mãos.

Próximos passos

  1. Leia a 2ª etapa do Censo Escolar 2025 direto no Inep antes de citar o dado em qualquer trabalho, porque a matéria já aponta variação forte entre estados.
  2. Se você trabalha com avaliação de política pública, separe os três desenhos do Pé-de-Meia (matrícula, presença, aprovação) como variáveis distintas antes de tratar o programa como bloco único.
  3. Cheque o recorte estadual antes de generalizar: Acre, Amapá e Rondônia têm taxas de abandono de duas a três vezes a média nacional, e a média nacional escondia isso.
  4. Cruze esse dado de permanência com o do Anuário Brasileiro da Educação Básica sobre aprendizagem, os dois juntos contam uma história bem mais completa do que qualquer um isolado.

Esse tipo de tensão, entre o indicador que melhora e a pergunta que ele não responde, também aparece em outras discussões sobre desigualdade dentro do sistema educacional e científico. Se você quer seguir nesse fio, vale ler O efeito tesoura na pós: como o viés de gênero opera.

Fonte: Abandono escolar no 1º ano do ensino médio cai 40% de 2024 a 2025, diz Censo, G1 Educação

Perguntas frequentes

O que é abandono escolar e qual a diferença para evasão?
Abandono escolar é quando o aluno está matriculado, mas para de frequentar as aulas durante o ano letivo. Evasão é o passo seguinte, e mais grave: o estudante nem se matricula de novo no ano seguinte, ficando fora do sistema educacional. Trazer esse aluno de volta depois disso é muito mais difícil.
O programa Pé-de-Meia é o motivo da queda no abandono escolar?
É uma hipótese plausível, mas ainda não comprovada por estudos. Segundo o diretor de Políticas Públicas do Todos Pela Educação, Gabriel Corrêa, o incentivo financeiro do programa provavelmente ajuda, mas atua junto com outros fatores, como a expansão dos cursos técnicos e da educação em tempo integral.
Estudantes ficando mais tempo na escola significa que estão aprendendo mais?
Não necessariamente. Os dados do Censo Escolar 2025 mostram queda no abandono, mas o Anuário Brasileiro da Educação Básica de 2025 aponta que só 7,7% dos concluintes do ensino médio atingem nível adequado simultaneamente em português e matemática. Permanência e aprendizagem são indicadores diferentes.

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