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ACM cria cargo para lidar com má conduta em pesquisa

Depois de retratar centenas de artigos em massa, a ACM contrata um diretor de integridade em pesquisa. Entenda o que muda e por que críticos duvidam.

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Uma associação que publica mais de 500 conferências por ano levava, em alguns casos, mais de um ano só para decidir se um artigo denunciado tinha problema. Foi assim que a ACM (Association for Computing Machinery), uma das maiores publicadoras de ciência da computação do mundo, decidiu criar um cargo que nunca tinha existido na casa: diretor de integridade em pesquisa. Um diretor de integridade em pesquisa é o profissional responsável por definir políticas, sistemas e procedimentos para detectar, investigar e prevenir má conduta científica dentro de uma editora ou instituição. Se você publica, revisa ou lê ciência da computação, essa mudança te interessa: ela nasce de uma crise que já derrubou centenas de artigos.

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O que aconteceu

Segundo Scott Delman, diretor de publicações da ACM, a associação vem investindo mais recursos financeiros em integridade de pesquisa nos últimos cinco anos, mas faltava um especialista dedicado. Até agora, as denúncias passavam por um comitê formado por um pequeno grupo de voluntários, e esse volume gerou uma fila de casos que, segundo Delman, pode levar um ano ou mais para ser resolvida..

A decisão não veio no vácuo. A ACM removeu, nos últimos anos, atas de conferência inteiras por suspeita de má conduta: uma com pelo menos 26 artigos, outra com mais de 300. A publicadora também já foi criticada por investigadores independentes por demorar anos para apurar atas de conferência problemáticas e por, segundo esses críticos, subnotificar retratações.

Um estudo recente publicado no arXiv (repositório de preprints científicos, usado sobretudo em física, matemática e computação antes da publicação formal) analisou o histórico da ACM e não encontrou nenhuma retratação anterior a 2020. Das 354 retratações mapeadas no estudo, todas menos duas vieram desses dois conjuntos de atas com revisão por pares comprometida.

Por que isso importa pra você

Se você pesquisa, publica ou orienta em ciência da computação, essa notícia toca em três pontos concretos:

  1. Se você está submetendo artigo para conferência da ACM: cada uma das mais de 500 conferências anuais tem liderança voluntária própria, e é essa liderança que primeiro identifica possível má conduta numa submissão. Segundo Delman, é assim que o processo tem funcionado até aqui: cada conferência identifica possível má conduta e busca orientação da sede da ACM, caso a caso.
  2. Se você está avaliando onde publicar: um histórico de retratações em massa é informação relevante para decidir onde depositar seu trabalho, sobretudo se autoria e coautoria pesam na sua avaliação de carreira.
  3. Se você orienta ou é orientado: a criação desse cargo é um sinal de que editoras estão profissionalizando a apuração de má conduta. Vale conversar com quem você orienta sobre o que conta como problema de integridade antes de submeter, não depois.
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O que muda na prática (e o que ainda não muda)

O novo diretor vai supervisionar políticas, sistemas e procedimentos de detecção, investigação e prevenção de má conduta em todos os periódicos, atas de conferência, revistas e na biblioteca digital da ACM. Também vai atuar como ponto de contato principal para editores, revisores, autores, organizações parceiras e o Comitê de Ética e Plágio da ACM, incluindo temas como transparência no uso de IA.

Paralelamente, a ACM está conduzindo um processo extenso de seleção de ferramentas de software para identificar problemas de integridade, segundo Delman. E coordena o CLEAR Task Force (Community-Led Ethics for Accountability in Research), uma força-tarefa recém-criada para examinar comportamento não ético em pesquisa e publicação na área de computação, com representantes da Computing Research Association e de outras organizações do setor. O objetivo declarado é criar políticas padronizadas, compartilhar informação entre instituições e desenvolver penalidades para quem age de má-fé.

Vale notar: nada disso é exclusividade da ACM. O BMJ Group também está recrutando, atualmente, um editor de integridade em pesquisa, cargo novo para essa publicadora. É um movimento de mercado, não um caso isolado.

O ponto que ainda me deixa em dúvida

Quando li essa notícia, minha primeira reação foi de alívio: finalmente uma editora grande reconhecendo que comitê voluntário não escala. Por outro lado, um crítico de longa data da ACM, o engenheiro de software Solal Pirelli, disse claramente que não ficou impressionado. Ele argumenta que a ACM já deixou claro que não tem interesse em seguir as diretrizes do COPE (Committee on Publication Ethics, entidade internacional que define padrões éticos para publicação científica), e que uma decisão de contratação em nível operacional dificilmente muda isso.

Não acho que dá para ignorar esse ceticismo. Criar um cargo é decisão de estrutura. Mudar cultura institucional é outra coisa, e não sabemos ainda se esse cargo novo vai além do gesto de criar uma estrutura. O próprio Delman resume o objetivo de forma modesta: no fim das contas, é sobre confiança, e sobre garantir um nível maior de confiabilidade na literatura publicada. É um objetivo correto. Só não sabemos ainda se o cargo novo entrega isso, ou se vira mais uma camada burocrática em cima de um problema que é, na raiz, de incentivo e de volume.

Próximos passos

Se você publica ou orienta em computação, isso é o que dá para fazer agora:

  1. Verifique se a conferência ou periódico onde você vai submeter tem política pública de integridade e retratação, e se ela é aplicada com transparência.
  2. Antes de aceitar convite para revisar ou compor comitê de conferência, pergunte quem apura denúncia de má conduta e em quanto tempo.
  3. Se você orienta, use esse caso como gancho de conversa: no caso da ACM, má conduta em pesquisa incluiu revisão por pares comprometida, o que derrubou mais de 300 artigos de uma vez só nessas atas de conferência.
  4. Acompanhe o desenvolvimento do CLEAR Task Force: se ele de fato padronizar penalidades entre organizações de computação, isso muda o que se espera de qualquer autor da área.

Casos como esse mostram por que vale entender a diferença entre um artigo retratado por erro honesto e um retratado por má conduta, algo que muita gente confunde. Se você quer se aprofundar nisso, veja Retratado sem má conduta: o preço de um erro de método.

Fonte: Association for Computing Machinery society (ACM) creates new research integrity role, Retraction Watch

Perguntas frequentes

O que é a ACM e por que ela criou esse cargo?
A ACM (Association for Computing Machinery) é uma associação que publica mais de 70 periódicos e as atas de mais de 500 conferências de computação por ano. Criou o cargo de diretor de integridade em pesquisa porque o comitê voluntário que analisava denúncias de má conduta não conseguia mais dar conta do volume de casos, que às vezes levava mais de um ano para ser resolvido.
Quais retratações levaram a ACM a criar esse cargo?
Nos últimos anos a ACM retratou atas de conferência inteiras por suspeita de má conduta, incluindo uma com pelo menos 26 artigos e outra com mais de 300. Um estudo publicado no arXiv identificou 354 retratações da ACM no total, das quais todas menos duas vieram desses dois conjuntos de atas com revisão por pares comprometida.
O novo cargo resolve o problema de integridade na ACM?
Não é consenso. Scott Delman, diretor de publicações da ACM, defende que ter um especialista dedicado muda o jogo. Já o crítico Solal Pirelli argumenta que a ACM historicamente resiste a adotar os padrões do COPE (Committee on Publication Ethics) e que uma contratação de nível operacional dificilmente muda isso.

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