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Depois de 75 anos, revista de matemática deixa a Wiley

Depois de sete décadas com a Wiley, o conselho de uma revista de matemática do Instituto Courant decide recomeçar em outra editora. Veja os motivos.

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Depois de mais de 75 anos com a mesma editora, o conselho editorial de uma revista de matemática decidiu recomeçar do zero. Em 29 de maio, o Instituto Courant, ligado à Universidade de Nova York, anunciou a criação de uma revista nova, decisão que veio depois de o conselho avisar a Wiley, em janeiro, que não renovaria o contrato da revista Communications on Pure and Applied Mathematics quando ele vencer, no fim de 2026. A CPAM é a revista de matemática pura e aplicada que o Instituto Courant publicava em parceria com a Wiley há mais de sete décadas. Se você publica ou avalia artigos em periódico científico, entender por que um conselho inteiro de professores prefere abandonar o nome consagrado de uma revista a continuar com a mesma editora ajuda a enxergar o que está em jogo nessa relação.

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O que aconteceu

Segundo Scott Armstrong, professor de matemática da NYU e membro do conselho editorial, até pouco tempo atrás o Instituto Courant controlava a maior parte das decisões da CPAM, incluindo quais artigos publicar e a diagramação, feita internamente. Isso mudou. Nos últimos anos, ele diz, a Wiley “passou a ser incômoda”: forçou decisões unilaterais e aumentou o controle sobre a revista. A editora chegou a pedir, segundo Armstrong, que o conselho trocasse o sistema que já usava pelo software editorial da Wiley, que ele descreve como “horrivelmente ruim”. Ela também queria mudanças que ele chama de “estranhas para a matemática”: alterar a ordem das referências num artigo e propor formato de duas colunas.

Armstrong também aponta o preço como fator central: segundo ele, “todo mundo sabe que o preço da CPAM é um absurdo, uma das revistas mais caras da matemática”, e colegas de outras instituições “se recusaram a arbitrar ou submeter artigos” à revista. Não é um caso isolado. Editores de outra revista, de álgebra, publicada pela Taylor & Francis, renunciaram em março alegando que a editora atropelou o processo padrão de arbitragem ao exigir múltiplos revisores por artigo. No mês seguinte, editores de uma revista publicada pela Elsevier também renunciaram, dizendo que a editora forçava o conselho a nomear membros de mais países, quando, segundo eles, a matemática é “inteiramente baseada em mérito”. A saída da CPAM entrou para a lista de renúncias em massa que o Retraction Watch mantém, na posição 54. É o quinto caso do tipo que o site relata neste ano.

Uma porta-voz da Wiley respondeu que a editora tem “orgulho da relação de colaboração, que resultou num programa sustentável de publicação” e espera “encontrar um jeito de continuar trabalhando com o Instituto Courant”. Disse ainda que sempre acomodou pedidos dos editores sobre boas práticas de revisão por pares, fluxo de produção e foco estratégico da revista. Segundo Armstrong, porém, a Wiley pareceu “surpresa” com a decisão e reagiu com o que ele chama de “tratamento de silêncio”: a editora “basicamente nunca respondeu ao e-mail avisando da decisão de não renovar, além de uma confirmação formal de recebimento”.

Por que isso importa pra você

A disputa é sobre uma revista de matemática americana, mas os números por trás dela valem a pena conhecer antes de escolher onde submeter, revisar ou defender seu próximo trabalho.

ItemSob a Wiley (CPAM)Na revista nova
Assinatura anualUS$ 95 (membros do Courant) a quase US$ 10 milEntre US$ 2 mil e US$ 2.500, conforme o tipo de acesso
Publicar em acesso abertoUS$ 5.490 por artigo (opcional)Não informado pela matéria
Contrato atualTermina no fim de 2026Recebe submissões ainda em 2026, com primeira edição prevista pro início de 2027

Se você está escolhendo onde submeter um artigo

Você sabe se a revista pra qual está mandando seu artigo é ligada a uma instituição ou pertence só a uma editora comercial? Antes de submeter, vale checar se ela divulga o valor cobrado por acesso aberto, do jeito que a CPAM fazia, e comparar com o que sua bolsa ou seu fomento cobre.

Se você revisa artigos ou orienta quem revisa

Se a revista que você acompanha muda de formato ou de política editorial sem consultar o conselho, isso é um sinal que vale levar pro seu orientador ou pra coordenação do programa, antes de virar rotina aceita sem questionamento.

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Por que esse rompimento não é só sobre dinheiro

O que mais me grudou lendo esse caso foi, segundo Armstrong, o silêncio da Wiley depois do aviso de saída, mais do que o preço (e olha que US$ 5.490 por artigo já assusta). Segundo Armstrong, a editora só confirmou o recebimento do e-mail que avisava da decisão de não renovar, e nada mais. Esse é o ponto: um conselho inteiro de professores preferiu recomeçar numa editora sem fins lucrativos, abrindo mão do nome consagrado da revista, a continuar sem controle sobre o próprio trabalho.

Isso não vira regra geral sobre editora comercial, a matéria trata de uma revista específica, não de um padrão da Wiley inteira. Mas fica uma pergunta que vale carregar pra sua própria trajetória: será que quem publica, revisa ou até funda uma revista tem menos poder de barganha do que parece, até decidir que vale abrir mão do nome pra recuperar o controle? Faz sentido perguntar, antes de comprometer anos de trabalho com uma editora, quem manda de fato nas decisões editoriais.

Próximos passos

Se esse caso te deixou com pé atrás sobre onde você publica ou revisa, aqui vai um checklist rápido pra essa semana:

  1. Procure, no site da revista que você usa, se ela informa os valores de assinatura e de publicação em acesso aberto.
  2. Pergunte ao seu orientador ou à coordenação do programa se existe preferência declarada por revistas ligadas a sociedades científicas ou institutos, em vez de editoras comerciais.
  3. Se você revisa artigos, preste atenção em mudanças na política editorial sem aviso ao conselho: é um sinal que vale registrar, não ignorar.
  4. Leia a matéria completa do Retraction Watch (link na fonte) pra entender os outros dois casos citados, incluindo a exigência de múltiplos revisores por artigo que pesou na renúncia da revista de álgebra.

Se você quer entender melhor o sistema que está por trás da revista pra qual você está mandando seu próximo artigo, dá uma olhada em O sistema de publicação acadêmica está quebrado?.

Fonte: Editors of Courant math journal to leave Wiley, establish new roots with independent publisher, Retraction Watch

Perguntas frequentes

Por que os editores da revista de matemática do Instituto Courant estão deixando a Wiley?
Segundo Scott Armstrong, professor de matemática da NYU e membro do conselho editorial, a Wiley aumentou o controle editorial nos últimos anos, chegou a pedir o uso de um software que ele descreve como ruim e cobrava um dos preços mais altos entre revistas de matemática. O conselho avisou a editora em janeiro que não renovaria o contrato, que vence no fim de 2026.
Quanto custa publicar em acesso aberto na CPAM?
Segundo o site da revista, publicar em acesso aberto na CPAM custa US$ 5.490 por artigo, valor opcional. Entre as revistas de matemática da Wiley, é a mais cara em formato híbrido ou de acesso aberto, segundo dados da própria editora.
Qual revista vai substituir a CPAM?
O mesmo conselho editorial vai continuar o trabalho numa revista nova, o Courant Journal of Pure and Applied Mathematics, publicada pela Mathematical Sciences Publishers, editora independente sem fins lucrativos. A previsão é começar a aceitar submissões ainda este ano, com a primeira edição no início de 2027.

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