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Amazônia tem energia de sobra e povo sem luz: entenda

Estudo da UEPA mostra que hidrelétricas amazônicas exportam energia enquanto famílias isoladas queimam diesel. O gargalo não é recurso, é infraestrutura.

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Existe uma cena que resume o paradoxo amazônico melhor que qualquer gráfico: uma hidrelétrica gigantesca gerando eletricidade renovável a poucos quilômetros de uma casa que só se ilumina à noite com lampião a diesel. Um estudo da Universidade do Estado do Pará (UEPA), publicado na urbe. Revista Brasileira de Gestão Urbana, mapeou duas décadas de dados ambientais, sociais e econômicos na Amazônia Legal para entender por que isso acontece. A transição energética é o processo de substituir fontes fósseis, como o diesel, por fontes renováveis de forma que o acesso à energia se torne mais barato, limpo e distribuído. Se você pesquisa política científica, sustentabilidade ou desigualdade regional, esse levantamento entrega um dado incômodo: a região mais rica em recursos energéticos do país é também onde menos gente tem acesso confiável a eles.

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O que aconteceu

A pesquisa liderada por Lucas Nunes cruzou indicadores de mais de 30 milhões de pessoas na Amazônia Legal e chegou a uma conclusão que rompe com o senso comum: a região não é uma unidade homogênea. Cada estado amazônico tem uma matriz energética completamente diferente, indo de extrema dependência de combustíveis fósseis a composições diversificadas.

O gargalo identificado pelo estudo não é a falta de recurso natural. Rios, vento e sol sobram. O problema é estrutural: falta tecnologia acessível, falta infraestrutura de distribuição e a gestão dos recursos gerados não beneficia quem vive no território. Como o próprio Nunes coloca, grande parte da energia produzida pelas hidrelétricas paraenses “não vai para a Amazônia Legal, mas, sim, para os outros estados”.

O resultado prático: milhares de famílias em comunidades isoladas continuam queimando diesel para ter luz, o que encarece o custo de vida e aumenta as emissões de carbono num bioma central para o equilíbrio climático global.

Por que isso importa pra você

Se você pesquisa sustentabilidade, política energética, desigualdade regional ou gestão urbana, esse estudo oferece um caso concreto de como riqueza de recursos não se traduz automaticamente em acesso. Isso muda o jeito de argumentar sobre transição energética em diferentes frentes:

  1. Se você estuda política pública ou governança ambiental: o estudo mostra que integrar dimensões econômica, social e ambiental nos atos normativos estaduais e federais é condição, não consequência, da transição energética funcionar na prática.
  2. Se você trabalha com energias renováveis: a pesquisa aponta que investir em geração descentralizada, próxima da comunidade que vai consumir, é caminho para suprir a limitação de acesso nessas regiões remotas.
  3. Se você pesquisa urbanização ou migração interna: o levantamento associa crescimento urbano sem planejamento a aumento de consumo energético e poluição atmosférica regional, conectando demografia a política energética.

Existe uma linha de pesquisa na sua área que já discute geração distribuída na Amazônia? Se sim, vale conferir se esse estudo da UEPA serve de referência recente para ancorar essa discussão.

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O ponto que essa pesquisa expõe sem dizer explicitamente

Um dado que chama atenção nesse estudo é como ele reformula a ideia de abundância na Amazônia. O que Nunes descreve é mais difícil de resolver: falta tecnologia que a população local consiga pagar, e falta rede que conecte quem vive na floresta densa à energia que se produz perto dali.

Isso é diferente de dizer que falta investimento genérico. É dizer que o desenho da solução precisa nascer olhando para quem vai usar, não para quem vai exportar. A fala de Nunes sobre “energia descentralizada ou distribuída” aponta para soluções pensadas a partir da comunidade que vai consumir a energia, e não a partir de quem vai exportá-la.

Não significa que hidrelétricas são o problema. Significa que a métrica de sucesso de uma transição energética não pode ser só “quanta energia limpa o país gerou”, mas “quem, no território onde essa energia nasce, teve acesso a ela”.

Próximos passos

Se esse tema cruza com sua pesquisa, vale mapear caminhos concretos:

  1. Leia o estudo completo na urbe. Revista Brasileira de Gestão Urbana para entender a metodologia de comparação entre os estados da Amazônia Legal.
  2. Explore o Atlas Brasileiro da Transição Energética, lançado pelo MME em 2025, como fonte de dados secundários para mapear vocações energéticas locais.
  3. Se você trabalha com gestão urbana ou infraestrutura, considere o crescimento populacional sem planejamento como variável em pesquisas sobre consumo energético regional.
  4. Cheque se o seu programa de pós tem linha de pesquisa em energia distribuída aplicada a regiões remotas, pode ser um ângulo de pré-projeto pouco explorado ainda.

Esse tipo de contraste entre infraestrutura consolidada e populações isoladas não é exclusivo da energia. Ele se repete em outras áreas de mobilidade e planejamento urbano no Brasil, como mostra O carro elétrico chegou. A infraestrutura urbana, não, sobre o descompasso entre adoção de tecnologia limpa e a rede que deveria sustentá-la.

Fonte: Isolamento e desigualdade travam transição energética na Amazônia, Abori

Perguntas frequentes

Por que a Amazônia tem hidrelétricas e ainda assim comunidades sem energia elétrica confiável?
Porque a energia gerada nas grandes hidrelétricas da região, como as do Pará, é majoritariamente exportada para outros estados, não fica na Amazônia Legal. Comunidades isoladas ficam de fora da rede nacional de distribuição e dependem de diesel transportado por logística cara.
O que é o Atlas Brasileiro da Transição Energética?
É uma ferramenta de monitoramento lançada pelo Ministério de Minas e Energia (MME) no primeiro semestre de 2025. Ela ajuda a coordenar políticas públicas e mapear vocações energéticas locais, como potencial solar, eólico ou de biomassa em cada território.
Energia solar ou eólica resolve o problema de acesso à energia na Amazônia?
Não sozinha. O estudo da UEPA mostra que a região tem abundância de sol, vento e rios, mas isso não basta: falta tecnologia acessível economicamente, infraestrutura de distribuição e gestão que beneficie quem vive no território, não só grandes centros consumidores.

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