Historiadora encontrou refúgio na profissão após perda
Trajetória de pesquisadora da Unicamp mostra como a demografia histórica virou trabalho de uma vida e, depois de uma tragédia, também abrigo.
Existe um tipo de história acadêmica que não cabe em currículo Lattes. É a história de por que alguém escolheu ficar. Uma historiadora ligada à Unicamp contou, em depoimento à revista Pesquisa FAPESP, a trajetória de quase 40 anos que a levou da Vila Monumento, em São Paulo, até um doutorado na Itália, um posto na Unicamp e, no meio do caminho, a perda da filha em um acidente aéreo. A demografia histórica é a área que estuda populações do passado a partir de documentos como listas nominativas e registros de casamento e óbito, e foi essa área que sustentou a carreira dela, e também, em um momento determinado, sustentou ela. Se você está no meio da sua própria trajetória de pós-graduação, tentando entender que lugar a pesquisa ocupa além da produção de artigos, esse relato traz algo que vale a pena parar para olhar.
O que aconteceu
A historiadora cresceu perto do Museu do Ipiranga, decidiu ser historiadora aos 13 anos e entrou na USP em 1977. Ainda na graduação, foi orientada por Maria Luiza Marcílio, uma das responsáveis por introduzir a demografia histórica no Brasil e na América Latina, e recebeu uma bolsa de iniciação científica da FAPESP para estudar como a elite paulista administrava herança e casamentos entre o final do século XVIII e o início do XIX.
O material de trabalho eram as listas nominativas produzidas por Portugal desde meados do século XVIII para controlar a população de suas colônias. Essas listas, produzidas até 1836 na capitania de São Paulo, registram nome, idade, cor e naturalidade de cada habitante, e constituem, segundo o relato, a mais importante coleção de levantamentos populacionais feitos na América portuguesa.
Depois do mestrado na USP, ela fez doutorado no Instituto Universitário Europeu, em Florença, com bolsa e proposta inicial de comparar padrões de casamento luso-brasileiros. A pesquisa nas fontes portuguesas foi tão rica que ela abandonou a comparação e focou no lado português da tese, defendida só em 1998, dez anos depois de o processo ter começado, atravessado por uma gravidez, uma volta ao Brasil sem o título concluído e um novo convite de pesquisa em Portugal que a levou de volta à Europa.
Por que isso importa pra você
Uma trajetória de quase 40 anos raramente é uma linha reta, e essa não foi. Ela passou por várias instituições diferentes antes de se fixar na Unicamp, em 2015. Para quem está no início ou no meio da pós, vale separar o que essa história ensina em blocos:
- Bolsa de iniciação científica pode definir uma carreira inteira. A bolsa da FAPESP no segundo ano da graduação não foi um estágio qualquer: definiu o tema de mestrado, doutorado e décadas de pesquisa depois.
- Tese de doutorado pode mudar de proposta no meio do caminho, e isso não é fracasso. A troca da comparação luso-brasileira pelo foco no lado português aconteceu porque a fonte disponível pedia isso. Seguir o material, não o plano original, é decisão de pesquisa, não desvio.
- Um doutorado no exterior pode durar mais do que o previsto, incluindo pausas. Entre o início da bolsa no Instituto Universitário Europeu e a defesa da tese, se passaram quase dez anos, com uma gravidez e uma volta ao Brasil no meio.
- Vínculos acadêmicos se constroem por concurso, convite e rede, quase nunca por um caminho único. A passagem por Maringá, pelo núcleo de pesquisa da Unicamp e, depois, pela Unisinos e de volta à Unicamp mostra como cada etapa abriu a seguinte.

O peso que a pesquisa também carrega
Em julho de 2007, a filha da historiadora, Thaís, embarcou de Porto Alegre para São Paulo com uma amiga, Rebeca, para visitar os avós. As duas estavam entre as 199 vítimas do acidente da TAM no aeroporto de Congonhas. Tinham 14 anos.
O relato descreve a forma que ela encontrou para atravessar aquilo: transformar o trabalho em refúgio, passando dias inteiros na universidade. Foi nesse período, em meio ao luto, que ela aceitou o convite para escrever um livro sobre a história de Portugal, publicado em 2010.
Não existe fórmula pronta aqui, e seria desonesto tratar isso como conselho de produtividade. O que o relato mostra é algo mais simples e mais difícil: para algumas pessoas, ter um lugar estruturado para colocar os dias, com leitura, escrita e prazo, é uma forma de continuar funcionando quando tudo o mais desmorona. Isso não substitui apoio psicológico nem processo de luto. É, no máximo, um dos pilares que sustentam alguém enquanto o resto se reorganiza.
Próximos passos
Se essa história tocou alguma coisa em você, talvez seja hora de olhar para a sua própria trajetória com menos pressa de linearidade:
- Revise seu percurso até aqui: quantas vezes ele já mudou de rota, e o que cada mudança te ensinou?
- Se você está pensando em um doutorado fora do país, pesquise programas de bolsa como os que existiam no Instituto Universitário Europeu, e converse com quem já passou por isso sobre os prazos reais, não os do edital.
- Se você atravessa um momento difícil dentro da pós-graduação, procure apoio institucional. Se sua instituição tiver um núcleo de apoio psicológico para pós-graduandos, esse pode ser um caminho a explorar.
- Guarde o nome de quem te orientou bem. A historiadora citou Maria Luiza Marcílio décadas depois de ter sido orientada por ela, e replicou em outras instituições o modelo de grupo de estudos que aprendeu na USP.
Se você quer entender melhor como universidades estão lidando com o sofrimento psíquico na pós-graduação, veja Maranhão cria programa de saúde mental para pós-graduandos.
Fonte: Histórias de família, Revista Pesquisa FAPESP
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Perguntas frequentes
O que é demografia histórica?
Como a pesquisa acadêmica pode ajudar a lidar com o luto?
É comum pesquisadores mudarem de instituição várias vezes durante a carreira?
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