SBPC e ABC cobram regularidade no pagamento das bolsas
Nota assinada por mais de 35 sociedades científicas pede à União que o pagamento das bolsas de fomento pare de depender de corte orçamentário.
Pra que você usa a bolsa que recebe todo mês: aluguel, mercado, material de pesquisa? E se, num ano qualquer, ela virasse peça de ajuste no orçamento federal?
Em 23 de junho, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) enviaram uma nota pública à Junta de Execução Orçamentária da União pedindo regularidade no pagamento das bolsas de fomento à pesquisa. O documento foi subscrito por mais de 35 sociedades científicas e acadêmicas.
A Despesa Primária Discricionária é a categoria orçamentária que permite ao governo cortar ou represar um gasto a qualquer momento do exercício fiscal, sem violar lei nenhuma. É nessa categoria que a bolsa de fomento está enquadrada hoje, e é dali que vem o risco que a nota tenta afastar.
Se você vive de bolsa (mestrado, doutorado, pós-doutorado, iniciação científica), essa classificação técnica decide se o seu sustento é tratado como prioridade garantida ou como item que pode ser cortado no meio do ano.
O que aconteceu
A ABC e a SBPC dirigiram-se à Junta de Execução Orçamentária, responsável pela programação orçamentária e financeira da União, com um pedido assinado por mais de 35 sociedades. O texto pede que o pagamento das bolsas de fomento seja tratado como compromisso já assumido pelo Estado, não como escolha a rever a cada bimestre.
A nota descreve isso como um risco estrutural: a bolsa pode virar variável de ajuste fiscal, represada sempre que a liberação financeira aperta. “A raiz da vulnerabilidade está na sua classificação como despesa primária discricionária, que a torna, a cada exercício, elegível a bloqueios e contingenciamentos”, afirmam as entidades.
O argumento tem base jurídica. A ABC e a SBPC citam o artigo 9º da Lei de Responsabilidade Fiscal, que exclui da limitação de empenho as despesas de obrigação legal e as protegidas pela Lei de Diretrizes Orçamentárias. Pra elas, a bolsa se encaixa nessa proteção porque decorre de compromisso formal da Administração Pública e sustenta pesquisa, inovação e formação de gente qualificada.
Assinam a nota Francilene Procópio Garcia, pela SBPC, e Helena Bonciani Nader, pela ABC. A publicação saiu pelo Jornal da Ciência, que trouxe o texto na íntegra. Mas o que isso significa, na prática, pra quem vive de bolsa?
Por que isso importa pra você
Se a bolsa sustenta boa parte da sua rotina, o que muda pra você depende de onde você está agora:
- Se você vive de bolsa hoje, confira o calendário de pagamento que a sua agência de fomento informa e guarde um registro da data prevista. Não dá pra saber se, e quando, um contingenciamento vai afetar o seu caso específico, mas ter esse histórico ajuda a cobrar com dado na mão.
- Se você está organizando o orçamento pessoal do próximo semestre, pergunte a si mesma o que muda se a bolsa atrasar um mês. Uma reserva mínima, mesmo pequena, é o que separa um imprevisto orçamentário de uma crise pessoal.
- Se você orienta outras pessoas ou coordena um grupo de pesquisa, vale perguntar ao seu programa de pós se existe um canal formal pra reportar atraso de bolsa, e repassar essa informação pra quem você orienta antes que ela precise dela.
A nota da ABC e da SBPC pede uma mudança estrutural, na esfera orçamentária da União. Enquanto essa discussão não se resolve, o seu preparo financeiro é o que está no seu alcance agora.

Por que esse pedido me deixa aliviada e preocupada ao mesmo tempo
Fico aliviada quando vejo mais de 35 sociedades científicas assinando o mesmo pedido: essa resposta coletiva tem peso. E fico preocupada porque um pedido bem fundamentado ainda depende da decisão de outra instância: a Junta de Execução Orçamentária pode acolher o que foi pedido, ou arquivar.
Acho que a saída está em separar o que você controla do que não controla. O calendário de pagamento da sua bolsa, e o quanto você se prepara pra um mês difícil, isso está com você. A classificação orçamentária da bolsa fica com a Junta de Execução Orçamentária.
Não significa que você precisa entrar em pânico com esse anúncio. Significa que vale tratar o seu planejamento financeiro como parte do trabalho de pesquisa.
Próximos passos
Aqui vai o que dá pra fazer ainda essa semana:
- Leia a nota completa e confira se a sua sociedade científica ou associação de área está entre as mais de 35 signatárias.
- Anote a data em que você recebeu a bolsa nos últimos meses, pra ter seu próprio histórico como referência caso precise cobrar.
- Se você coordena um grupo de pesquisa, avise seus orientandos sobre a nota e sobre a importância de registrar qualquer atraso.
- Revise, ou monte, uma reserva financeira mínima pensando num cenário de atraso pontual.
Se você quer entender o passo a passo de quem já passou por atraso de bolsa e precisou agir, dá uma olhada em Bolsa CNPq Atrasou? Saiba O Que Fazer e Quem Procurar.
Fonte: SBPC e ABC solicitam em nota pública regularidade do pagamento das bolsas de fomento à pesquisa, Jornal da Ciência (SBPC)
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Perguntas frequentes
Minha bolsa pode atrasar por causa de corte no orçamento?
O que fazer se a bolsa atrasar?
Quem assinou a nota pedindo regularidade no pagamento das bolsas?
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