Revista Rasura: extensão da USP com educomunicação popular
USP tem núcleo que produz revista colaborativa sobre movimentos populares latino-americanos. Entenda a Educomunicação e como participar dessa produção
Você já pensou em transformar sua pesquisa em algo que uma comunidade inteira possa ler, discutir e usar, sem precisar traduzir tudo pra linguagem de artigo científico? Na USP, existe um curso de extensão que faz exatamente isso: vira uma revista colaborativa, com cara de fanzine e conteúdo de pesquisa. A Revista Rasura é uma publicação criada no Ceará em 2023, produzida a partir de princípios educomunicativos e de comunicação comunitária, que já está na quinta edição e caminha para a sexta.
Se você está numa área de humanidades, ciências sociais ou educação, e sente que o artigo tradicional não é o único jeito de fazer sua pesquisa circular, esse caso é um mapa de como isso pode funcionar na prática.
O que aconteceu
A quinta edição da Revista Rasura tratou de movimentos populares contemporâneos na América Latina e políticas sociais de base comunitária em países como Colômbia, México, Argentina e Venezuela. O conteúdo combina ilustrações e textos críticos sobre gestão democrática e participativa, planejamento territorializado e governança popular, produzidos em colaboração com a comunicadora Verônica Dudiman e com contribuições de pesquisadoras e pesquisadores latino-americanos.
O formato é deliberadamente experimental: inspirado nos fanzines punk, produzido com recursos digitais. A revista é fruto do curso de extensão “Educação, Cultura e Trabalho na América Latina: História, Movimentos, Resistências e Proposições”, em sua quinta edição em 2026, oferecido pelo Núcleo de Avaliação Institucional da Faculdade de Educação da USP (NAI-FEUSP) em parceria com o PROLAM, o Programa de Pós-Graduação Integração da América Latina. A publicação desta edição foi apresentada por estudantes como trabalho de conclusão da disciplina.
A Educomunicação é o campo interdisciplinar formalizado no Brasil há pouco mais de 40 anos que estuda e pratica o diálogo entre comunicação e educação, e é a base teórica que sustenta esse formato. No Brasil, o campo foi sistematizado a partir do final dos anos 1990 pelo professor Ismar Soares, do Núcleo de Comunicação e Educação (NCE) da Escola de Comunicações e Artes da USP, criado em 1996. Soares e sua equipe definiram a Educomunicação como componente do processo educativo e como gestão de ecossistemas comunicativos abertos e democráticos.
Por que isso importa pra você
Você não precisa estudar Educomunicação para aproveitar o que esse caso ensina. O que importa aqui é o mecanismo: pesquisa que se torna produção coletiva, com formato próprio, sem abandonar rigor crítico. Isso muda dependendo de onde você está na pós:
- Se você trabalha com movimentos sociais, educação popular ou território, a revista mostra um canal concreto de publicação que não é revista acadêmica tradicional, mas também não é divulgação genérica: é produção crítica com autoria coletiva.
- Se você está fazendo trabalho de campo com comunidades, o modelo da Rasura mostra como envolver os próprios sujeitos da pesquisa na elaboração do material, em vez de só extrair dados deles e devolver um artigo que eles nunca vão ler.
- Se você está pensando em cursar uma disciplina de extensão como essa, vale checar se o seu programa tem algo parecido: produzir uma publicação real como trabalho de conclusão é diferente de entregar um paper que só o professor vai ler.
A base conceitual da Educomunicação vem da Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire, com contribuições centrais dos filósofos da comunicação Mario Kaplún, da Argentina, que criou o próprio termo “Educomunicação”, e Jesus Martín-Barbero, da Colômbia. É um campo que nasce, segundo o Jornal da USP, das contradições sociais e das lutas democráticas da América Latina, o que explica por que a estética de fanzine não é enfeite: é coerência entre forma e conteúdo.

O nome como declaração de método
“Rasura” não é escolha aleatória. A publicação faz do ato de riscar e reescrever uma metáfora de combate ao que chama de violência epistêmica: cada texto e cada imagem funcionam como resposta ao silenciamento histórico de certas vozes. Rasurar, nesse sentido, é afirmar, com múltiplas vozes, novas críticas que abram caminho para pensar ciência, cultura e política de outro jeito.
Isso me interessa porque toca num problema real de quem pesquisa território e comunidade: o risco de produzir conhecimento sobre pessoas sem produzir conhecimento com elas. A revista integra a metodologia qualitativa crítica do trabalho de pesquisa ao envolver os próprios sujeitos do campo na elaboração do material, o que é uma escolha metodológica, não só editorial. Se você pesquisa nessa linha, vale perguntar: seu material de pesquisa também poderia virar algo que a comunidade pesquisada lê e reconhece como seu?
Não é toda pesquisa que comporta esse formato, e está tudo bem. Mas na minha experiência, quando a pergunta de pesquisa nasce da vida coletiva de um território, vale perguntar se um artigo fechado em linguagem acadêmica é a forma mais honesta de devolver esse conhecimento.
Próximos passos
Se esse modelo te interessa, aqui vai o que fazer:
- Verifique se a sua universidade tem um núcleo de extensão equivalente ao NAI-FEUSP, que conecta produção de conhecimento a formatos de divulgação não convencionais.
- Procure disciplinas de extensão cujo trabalho de conclusão seja um produto real (revista, zine, material audiovisual), não apenas um relatório interno.
- Se você pesquisa movimentos sociais ou território, pergunte ao seu orientador se existe espaço pra desenvolver, paralelamente à tese, um material de retorno pensado para os sujeitos da pesquisa.
- Acompanhe o lançamento da sexta edição da Revista Rasura, previsto para agosto de 2026, como referência de formato.
Se você está estruturando sua pesquisa e quer pensar com mais clareza em como ela dialoga com o campo que estuda, vale revisitar como usar a Plataforma Sucupira para escolher seu PPG: entender a nota e o perfil do programa também ajuda a saber se ele valoriza esse tipo de produção coletiva antes de você entrar.
Fonte: Revista Rasura: educomunicação na difusão científica e produção colaborativa de conhecimento, Jornal da USP
Recurso recomendado
Do projeto à aprovação, com um passo a passo pra cada etapa.
+200 Prompts para Escrever Projeto de Mestrado e Doutorado
Prompts pro projeto de pesquisa, da seleção de mestrado a fomento CNPq, CAPES e FAPESP. Inclui CEP e TCLE.
Perguntas frequentes
O que é a Educomunicação?
Como participar da produção da Revista Rasura?
Por que uma revista acadêmica usa formato de fanzine?
Leia também
Receba estratégias de escrita acadêmica direto no seu feed
Siga a Dra. Nathalia no YouTube e Instagram para conteúdo gratuito sobre o Método V.O.E.