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Carro elétrico cresceu, a infraestrutura urbana não

Artigo do Jornal da USP mostra que a eletrificação da frota avança sem planejamento territorial. Quem paga a conta da recarga nos prédios?

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Enquanto o debate sobre carro elétrico se concentra em autonomia de bateria e redução de emissões, um artigo publicado no Jornal da USP levanta uma pergunta mais incômoda: onde milhões de veículos vão carregar, e quem vai pagar por isso? As autoras, pesquisadoras da USP, mostram que a venda de híbridos e elétricos cresce rápido em São Paulo, já alcançando motoristas de aplicativo e entregadores, mas a infraestrutura urbana de recarga não acompanhou esse ritmo. A recarga pública distribuída é a rede de pontos de abastecimento elétrico espalhados pela cidade, pensada como política territorial e não como solução privada de cada prédio. Se você pesquisa cidades, mobilidade ou política pública, esse descompasso entre adoção tecnológica e planejamento é o tipo de lacuna que sustenta um projeto de pesquisa inteiro.

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O que aconteceu

O artigo é assinado por Rita M. C. Nardy, pós-doutoranda do Centro de Síntese USP Cidades Globais, e Maria da Penha Vasconcellos, professora da Faculdade de Saúde Pública da USP e do Instituto de Estudos Avançados da USP. Elas partem de um dado da Associação Brasileira do Veículo Elétrico: as vendas de híbridos e elétricos crescem de forma acelerada no Brasil, com destaque para São Paulo, e já chegam a segmentos de renda média, não só às camadas mais altas.

O problema, segundo as autoras, é que essa expansão avança “impulsionada pela narrativa tecnológica da mobilidade limpa”, enquanto a cidade ainda não tem planejamento estruturado para a recarga. São Paulo já menciona eletromobilidade no Plano Diretor Estratégico, no PlanClima e no PlanMob, mas o foco desses instrumentos está mais voltado à mobilidade de cargas do que à recarga distribuída para veículos particulares. Na prática, cada condomínio resolve o problema sozinho, e nem sempre consegue.

Por que isso importa pra você

Esse tipo de lacuna entre inovação tecnológica e infraestrutura pública é terreno fértil pra pesquisa em várias áreas: direito urbanístico, políticas públicas, engenharia elétrica, saúde pública, gestão de cidades. O artigo nomeia com precisão de onde vem o conflito, e isso ajuda você a decidir se há projeto de pesquisa ali.

  1. Se você está montando um pré-projeto em direito urbano ou políticas públicas, o artigo já indica o vazio normativo: falta regra clara sobre adaptação predial, repartição de custos e proteção de quem não usa a tecnologia. É pergunta de pesquisa pronta.
  2. Se você trabalha com engenharia ou planejamento urbano, a tensão entre capacidade da rede elétrica, painéis fotovoltaicos e localização de hubs de recarga é um dos pontos que o artigo identifica como ainda sem resposta institucional clara.
  3. Se você pesquisa desigualdade urbana, vale notar o argumento central das autoras: sem planejamento, a eletrificação da frota pode não reduzir desigualdade nenhuma, ela pode criar uma nova, a “desigualdade da recarga elétrica”.

Se o seu programa tem linha de pesquisa em sustentabilidade urbana ou mobilidade, esse artigo funciona como mapa de lacunas: cada parágrafo aponta uma pergunta que ainda não tem resposta institucional.

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O conflito que ninguém está regulando ainda

O ponto mais interessante do texto, na minha leitura, é como ele desloca o debate. Quase todo mundo discute autonomia de bateria e impacto ambiental do carro elétrico. Poucos perguntam quem paga a adaptação elétrica de um prédio de trinta anos pra que a garagem suporte carregadores. As autoras chamam isso de conflito que “ultrapassa interesses privados e passa a envolver direitos coletivos”, porque o custo da adaptação pode recair sobre condôminos que nunca vão ter um carro elétrico.

Não significa que você precisa virar especialista em direito condominial da noite pro dia. Significa que, se você trabalha com cidades, tecnologia ou política pública, vale mapear onde esse tipo de vazio regulatório aparece na sua área. Na minha experiência orientando pesquisa, esse tipo de tensão sem resposta institucional costuma virar boa justificativa de pré-projeto: a pergunta já está formulada pela realidade, falta alguém sistematizar a resposta.

Próximos passos

O artigo não traz edital nem prazo, mas oferece algo mais raro: um problema de pesquisa nomeado com clareza, dados de mercado e referência a instrumentos legais existentes. Isso poupa etapa de justificativa no seu pré-projeto.

  1. Leia o artigo original completo no Jornal da USP para mapear as referências ao Plano Diretor Estratégico, PlanClima e PlanMob.
  2. Verifique se o seu programa tem grupo de pesquisa em mobilidade urbana, direito ambiental ou políticas públicas que já trabalhe com eletromobilidade.
  3. Se for delimitar um recorte, considere: custos condominiais, papel do Ministério Público, ou capacidade da rede elétrica, cada um já é um projeto por si só.
  4. Converse com seu orientador sobre a lacuna entre planejamento tecnológico e planejamento territorial. É argumento sólido de relevância.

Se você quer entender melhor como transformar esse tipo de lacuna institucional em pergunta de pesquisa concreta, dá uma olhada em Reunião Anual da SBPC 2026: vale a pena entrar nessa?, que discute como identificar espaços de pesquisa a partir de debates públicos em andamento.

Fonte: O carro elétrico chegou. A infraestrutura urbana, não, Jornal da USP

Perguntas frequentes

Por que os condomínios têm dificuldade para instalar carregadores de carro elétrico?
Porque prédios mais antigos não foram projetados para essa carga elétrica extra. Adaptar a garagem exige reforço na rede interna, ajustes de segurança e, muitas vezes, negociação com a seguradora, o que encarece a obra e gera divergência entre moradores.
Quem deveria pagar pela infraestrutura de recarga elétrica nos prédios?
O artigo da USP argumenta que essa conta não deveria recair só sobre o condomínio ou o morador individual, porque atinge até quem não tem carro elétrico. As pesquisadoras defendem que órgãos reguladores, concessionárias e política pública tenham papel mais claro nessa divisão de custos.
São Paulo tem algum plano oficial para carros elétricos?
Sim, mas incompleto. O Plano Diretor Estratégico, o PlanClima e o PlanMob já citam a eletromobilidade como prioridade, principalmente para transporte de cargas. O que falta, segundo o artigo, é uma política territorial que distribua pontos de recarga pública pela cidade.

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