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O bloqueio a Cuba e a rede que a ciência construiu

Um artigo do Jornal da USP mostra como cientistas de todo o continente mantêm Cuba dentro de uma rede de colaboração, apesar do bloqueio dos EUA à ilha.

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Sergio, amigo de décadas do professor Hernan Chaimovich, hoje tem dificuldade até pra ler e-mail: a eletricidade falha, o sinal de telefone cai, e a rotina em Cuba virou um teste de paciência. O relato abre um artigo do Jornal da USP assinado por Chaimovich, professor emérito do Instituto de Química da USP e ex-presidente do CNPq, contando décadas de colaboração científica com a ilha. A IANAS é a rede que reúne as academias de ciência de todo o continente americano e do Caribe, inclusive a cubana, e que o próprio Chaimovich ajudou a fundar. Se você pesquisa em rede, colabora com colegas de fora do país, ou já sentiu o peso de um obstáculo institucional no meio do caminho, esse relato tem algo a dizer sobre como a cooperação segue firme onde a política tranca a porta.

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O que aconteceu

O bloqueio dos Estados Unidos a Cuba começou de forma gradual em 1960 e virou embargo total em 1962, meses antes da crise dos mísseis. Foi reforçado em 1992 e, em 1996, passou a valer também para quem comercia com a ilha. Mais recentemente, o governo Trump impôs restrição a navios-tanque que levam petróleo pra Cuba, o que aprofunda a falta de combustível, paralisa o transporte e agrava a crise de energia.

Cuba foi expulsa da Organização dos Estados Americanos (OEA) em 1962 e, mesmo depois de uma resolução de 2009 revogar essa decisão, segue fora por opção própria. Em 2002, numa reunião da OEA sobre como assessorar a organização em ciência, ensino superior e tecnologia, Chaimovich viu a Academia de Ciências de Cuba (a mais antiga do continente americano, fundada em 1861) ficar de fora de um comitê que deveria representar todas as academias do continente. Foi essa exclusão que o levou, com colegas latino-americanos e o apoio da National Academy of Sciences e do InterAcademy Partnership, a fundar a IANAS: uma rede que hoje inclui a academia cubana, ativa em programas sobre água, gênero, ensino de ciências e energia que seguem como referência para políticas públicas.

Por que isso importa pra você

Esse relato toca o seu dia a dia de pesquisa em pelo menos três pontos, mesmo que você nunca tenha parado pra pensar numa rede continental de academias:

  1. A matéria mostra que a exclusão de Cuba da OEA não impediu a cooperação científica: ela continuou por dentro da IANAS. Se algum canal oficial da sua área travar, vale perguntar: existe uma rede paralela que sustente o contato?
  2. A IANAS nasceu de uma decisão concreta de incluir quem tinha ficado de fora, e hoje reúne programas sobre água, gênero, ensino de ciências e energia, com participação ativa da Academia de Ciências de Cuba.
  3. Você já pensou num projeto conjunto, um estágio fora ou uma coautoria internacional? Chaimovich presidiu a IANAS por seis anos: será que essa ponte se sustentaria sozinha, sem alguém decidindo continuar? Pode ser você essa pessoa.
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O que essa amizade entre cientistas me ensina

Quando li esse relato, o que mais me chamou atenção não foi a cronologia do bloqueio, ela já é bem documentada. Foi o fato de Chaimovich ter presidido a IANAS por seis anos. Na minha experiência, colaboração de peso não se sustenta por inércia: alguém decide, na prática, continuar. Foi isso que Chaimovich fez durante os seis anos em que presidiu a rede, mesmo com o outro lado cada vez mais sem luz e sem sinal.

Não significa que toda colaboração precisa atravessar um bloqueio pra valer a pena. Significa que colaboração é trabalho de manutenção, não só intenção, e esse é o ponto: rede não é abstração, é gente decidindo continuar. Vale perguntar que rede sua também depende de alguém sustentando o contato por dentro.

Próximos passos

Se esse relato despertou curiosidade sobre como sustentar suas próprias parcerias fora do Brasil, aqui vai o que dá pra fazer ainda essa semana:

  1. Leia o artigo original de Hernan Chaimovich no Jornal da USP (link no rodapé) pra entender o histórico completo do bloqueio e da IANAS.
  2. Procure se a sua área tem uma rede ou sociedade internacional equivalente, e verifique se ela publica editais, programas ou grupos de trabalho abertos a pesquisadores brasileiros.
  3. Se você já colabora com alguém fora do país, pergunte a essa pessoa como andam as condições de trabalho dela: foi um contato regular ao longo de décadas que manteve viva a parceria entre Chaimovich e Sergio, como o próprio relato do professor mostra.

Se você quer ir mais fundo em como estruturar essas parcerias desde o primeiro contato, dá uma olhada em Colaboração Internacional em Pesquisa: Por Onde Começar.

Fonte: Colaboração científica sem fronteiras, Jornal da USP

Perguntas frequentes

O que é a IANAS?
A IANAS (Rede Interamericana de Academias de Ciências) é uma rede que reúne as academias de ciência de todo o continente americano e do Caribe. Ela nasceu para incluir países deixados de fora de comitês científicos internacionais, como aconteceu com a Academia de Ciências de Cuba em 2002, e hoje sustenta programas sobre água, gênero, ensino de ciências e energia.
Cuba participa de redes científicas internacionais mesmo sob o bloqueio dos Estados Unidos?
Sim. Cuba foi expulsa da Organização dos Estados Americanos em 1962 e, mesmo depois de uma resolução de 2009 revogar essa decisão, segue fora por opção própria. Ainda assim, a Academia de Ciências de Cuba, fundada em 1861 e a mais antiga do continente americano, participa ativamente dos programas da IANAS, a rede continental de academias de ciência.
Desde quando existe o bloqueio dos Estados Unidos a Cuba?
O bloqueio começou de forma gradual em 1960, foi formalizado em 1962 e reforçado em 1992 e 1996. Mais recentemente, restrições a navios-tanque de petróleo aprofundaram a falta de combustível e a crise de energia na ilha, segundo o relato de Hernan Chaimovich no Jornal da USP.

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