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Coral-de-fogo do Brasil sobe de categoria na lista de risco

Atualização oficial eleva o risco de extinção dos corais-de-fogo do Brasil. Veja os dados e o que o monitoramento ensina sobre ciência em rede.

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Quatro espécies de coral-de-fogo vivem no litoral brasileiro. Três delas não existem em nenhum outro lugar do planeta, e as quatro acabam de subir de patamar numa lista oficial de risco de extinção.

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Em abril deste ano, o Ministério do Meio Ambiente e o ICMBio atualizaram a Lista Nacional de Espécies Aquáticas Ameaçadas de Extinção, e o gênero inteiro piorou de categoria. O Millepora é o gênero de coral-de-fogo que reúne essas quatro espécies, num trecho de costa que só o Brasil tem: os únicos sistemas recifais do Atlântico Sul, ao longo de cerca de 3 mil quilômetros de litoral. Se você trabalha com biodiversidade, conservação ou qualquer ciência que dependa de monitoramento de campo, essa atualização vale menos pelo coral em si e mais pelo que ela mostra sobre como um dado desse tipo chega até virar política pública.

O que aconteceu

A atualização classificou duas espécies, Millepora braziliensis e Millepora laboreli, como “criticamente em perigo”, a categoria imediatamente anterior à extinção na natureza. Uma terceira, Millepora alcicornis (que também ocorre no Caribe), subiu para “em perigo” depois de uma mortalidade superior a 90% registrada nos últimos eventos de branqueamento. A quarta, Millepora nitida, entrou em “quase ameaçada”.

EspécieNova categoriaO que motivou
Millepora braziliensisCriticamente em perigoDistribuição extremamente restrita; um evento de branqueamento pode bastar pra extinguir a espécie
Millepora laboreliCriticamente em perigoMesma categoria crítica
Millepora alcicornisEm perigoMortalidade acima de 90% nos eventos recentes de branqueamento
Millepora nitidaQuase ameaçadaUm degrau de alerta abaixo das três anteriores

Branqueamento é o processo pelo qual o coral expulsa as zooxantelas, microalgas que vivem dentro dele e respondem por boa parte da sua nutrição. Sem elas, o coral perde a cor característica e entra em estresse fisiológico severo. Às vezes o coral se recupera. Quando o episódio é intenso ou se repete, a colônia morre.

“Millepora braziliensis é um animal com distribuição extremamente restrita, o que aumenta muito o risco. Um único evento de branqueamento em massa pode ser suficiente para extinguir a espécie”, diz Miguel Mies, professor do Instituto Oceanográfico da USP e coordenador de pesquisas do Projeto Coral Vivo. Um estudo que ele publicou em 2025 na revista Coral Reefs, descrito como o maior esforço coordenado já feito pra monitorar branqueamento no Atlântico Sul, mostra que o episódio global de 2023-2024 causou perdas severas nos recifes brasileiros, sobretudo no Nordeste, e que a repetição desses eventos vem reduzindo a capacidade de recuperação dos ecossistemas.

Por que isso importa pra você

De onde vem um número como esse (mortalidade de 90%)? Depois do branqueamento de 2019, grupos de diferentes regiões do país montaram um protocolo nacional de monitoramento, coordenado pelo Projeto Coral Vivo, pra padronizar método e compartilhar dado entre times. O monitoramento nacional que Mies coordena hoje é financiado pelo Coral Vivo e pela Petrobras. O acompanhamento dos recifes brasileiros em geral combina observação de campo com dado de satélite: Ruy Kenji, professor da UFBA, descreve o uso do Coral Reef Watch, serviço da NOAA que acompanha anomalia térmica quase em tempo real.

Vale perguntar: quando você lê um número de mortalidade num artigo, sabe se ele vem de censo completo ou de amostragem? O próprio Kenji faz essa ressalva sobre o dado que ele ajuda a produzir: “Trabalhamos com amostragens. Quando falamos em 100% de mortalidade, estamos nos referindo ao que foi observado em determinadas áreas. Pode haver pequenos remanescentes que não conseguimos detectar.” Antes de citar um número parecido no seu próprio trabalho, vale o hábito de:

  1. Achar a nota metodológica que diz se é censo ou amostra.
  2. Checar se o número vem com margem ou intervalo, ou se é um valor único e seco.
  3. Ver se quem coletou o dado é o mesmo grupo que assina a conclusão, ou se houve alguma validação cruzada.

Faz sentido perguntar isso antes de citar qualquer número redondo demais, né?

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O que essa rede de pesquisadores ensina sobre fazer ciência de campo

Guilherme Longo, da UFRN, descreve um “declínio quase completo” em algumas áreas, onde sobram só esqueletos antigos recobertos por outros organismos. Marcelo Kitahara, do CEBIMar/USP, comparou o DNA de colônias de Millepora alcicornis coletadas antes e depois do branqueamento de 2019, em Arraial d’Ajuda e Abrolhos, e achou genótipos ligados a mecanismos de reparo de DNA que parecem conferir mais resistência térmica. Mesmo assim, ele é direto sobre o limite disso: “Tudo depende do número de sobreviventes. Em alguns locais, simplesmente não encontramos mais colônias vivas.”

É esse tipo de achado, insuficiente sozinho mas somado ao de outros grupos, que sustenta uma discussão que até pouco tempo soava distante da conservação: manter espécies ameaçadas fora do ambiente natural, em sistemas controlados. Mies chama atenção pra cautela que isso exige, e cita desafios técnicos, financeiros e éticos. Pesquisadores brasileiros olham pro que já roda fora do país: na Austrália, a Great Barrier Reef Foundation testa cruzamento seletivo de colônias resistentes ao calor; nos Estados Unidos, a NOAA incorporou corais termorresistentes à estratégia nacional de resiliência de recifes, com reprodução em laboratório e transplante de fragmentos.

Na minha leitura, esse conjunto de nomes (USP, UFBA, UFRN, Coral Vivo, e a referência ao trabalho de fora) mostra de onde esse dado de campo específico saiu: de protocolo combinado entre grupos, financiamento declarado e disposição pra citar o limite do próprio método, não de um pesquisador sozinho num recife. É por isso que a ressalva de Kenji sobre amostragem pesa tanto quanto o número de 90% de mortalidade: um sem o outro vira alarme sem lastro.

Próximos passos

Se você estuda conservação, biologia marinha ou qualquer ciência ambiental, tem por onde começar essa semana:

  1. Leia o artigo original na Pesquisa FAPESP pra ver o levantamento completo, espécie por espécie.
  2. Procure se o seu grupo de pesquisa (ou o do seu orientador) já cruza dado de satélite com campo, tipo o Coral Reef Watch, antes de desenhar um monitoramento do zero.
  3. Antes de escrever “100% de mortalidade” ou outro número redondo assim no seu próprio trabalho, confirme se ele vem de amostragem e diga isso no texto.
  4. Se a sua área discute conservação ex situ, veja o que a Austrália e os Estados Unidos já tentaram, e o que funcionou ou não.

Coral-de-fogo é tema de nicho, mas o jeito como esse dado foi produzido (rede nacional, financiamento declarado, ressalva metodológica na própria fala do pesquisador) é um modelo que vale além do oceano. Se você quer entender melhor o peso da universidade pública nesse tipo de rede, dá uma olhada em 90% da Pesquisa Brasileira Vem da Universidade Pública.

Fonte: Espécies únicas de coral-de-fogo do Brasil enfrentam risco crescente de extinção, Pesquisa FAPESP

Perguntas frequentes

Por que os corais-de-fogo do Brasil estão em risco de extinção?
O aumento do risco está ligado ao aquecimento dos oceanos e ao aumento da frequência de ondas de calor marinhas, que provocam o branqueamento dos corais, somado a pressões locais como esgoto, agrotóxicos, sedimento e sobrepesca. A atualização de abril da Lista Nacional de Espécies Aquáticas Ameaçadas de Extinção elevou a classificação das quatro espécies: Millepora braziliensis e Millepora laboreli entraram na categoria mais grave, e Millepora alcicornis teve mortalidade acima de 90% nos últimos eventos de branqueamento.
O que significa a categoria 'criticamente em perigo' pra um coral?
É a categoria de risco imediatamente anterior à extinção na natureza, segundo a própria Lista Nacional de Espécies Aquáticas Ameaçadas de Extinção. No caso de Millepora braziliensis, o pesquisador Miguel Mies (Instituto Oceanográfico da USP) cita a distribuição extremamente restrita da espécie como fator que aumenta o risco: um único evento de branqueamento em massa pode bastar pra extinguir a espécie.
Dá pra manter coral ameaçado fora do mar pra protegê-lo?
Pesquisadores brasileiros já discutem essa possibilidade, chamada de conservação ex situ, especialmente pra Millepora laboreli e Millepora braziliensis. A ideia ainda não saiu do papel: exige definir quem tem capacidade técnica pra manter os organismos, financiamento de longo prazo e prioridades claras, além de cautela redobrada, já que são organismos sensíveis a condições ambientais específicas.

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