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Editora investiga mais dois artigos sobre glifosato

Taylor & Francis apura suspeita de ghostwriting em dois estudos usados para defender a segurança do glifosato, herbicida do Roundup, junto a reguladores.

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Dois artigos científicos que ajudaram a sustentar a segurança do glifosato diante de reguladores no mundo todo estão sob investigação por suspeita de terem sido escritos por funcionários da empresa que fabrica o herbicida. A retratação é o ato formal pelo qual uma revista científica invalida publicamente um artigo já publicado, geralmente por falha grave de conduta ou de método. Se você trabalha com revisão sistemática, meta-análise ou cita literatura regulatória em qualquer área que dependa de estudos toxicológicos, esse caso importa: ele mostra como um artigo com ghostwriting pode circular por anos como referência técnica antes que alguém questione a origem real do texto.

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O que aconteceu

A editora Taylor & Francis confirmou que está investigando dois artigos publicados na revista Critical Reviews in Toxicology: uma revisão de 2015 liderada pelo toxicologista Helmut Greim, da Universidade Técnica de Munique, e um artigo de 2013 assinado pelos toxicologistas Larry Kier e David Kirkland. Os dois defendem a segurança do glifosato, ingrediente ativo do Roundup.

A investigação nasce de documentos internos da Monsanto, empresa que desenvolveu o herbicida e foi comprada pela Bayer em 2018. Os documentos, liberados em 2017 durante um processo judicial sobre exposição ao glifosato, registram um funcionário da Monsanto sugerindo, em e-mail, incluir Greim e Kier (ou Kirkland) como autores de um artigo que a própria empresa escreveria. O e-mail cita explicitamente um precedente: “Recall that is how we handled Williams Kroes & Munro, 2000” [“Lembre-se de que foi assim que tratamos Williams Kroes & Munro, 2000”].

Esse precedente já teve desfecho. Em dezembro de 2025, a revista Regulatory Toxicology and Pharmacology retratou o artigo de 2000 de Gary Williams e colegas, oito anos depois de esses mesmos e-mails aparecerem em processo judicial. Os dois artigos agora sob investigação são do mesmo grupo de autores citados na mesma correspondência interna.

Por que isso importa pra você

Ghostwriting em literatura regulatória não é só falha ética isolada: ela distorce a base de evidência que reguladores, revisores e pesquisadores usam para decidir políticas públicas e desenhar suas próprias pesquisas.

  1. Se você cita literatura toxicológica ou regulatória em revisão sistemática, vale checar se o artigo aparece em bases de dados de retratação antes de usá-lo como referência definitiva.
  2. Se você trabalha em área com forte interesse comercial de terceiros (agroquímicos, farmacêutica, tabaco), esse caso é um lembrete de que conflito de interesse não declarado pode estar embutido na própria autoria do texto, não só no financiamento declarado.
  3. Se você orienta ou é orientanda em ciências regulatórias, o caso é material didático direto sobre por que a análise de autoria e financiamento faz parte da leitura crítica de qualquer artigo, não é burocracia.

O pesquisador Alexander Kaurov, da Victoria University of Wellington, argumenta que os dois artigos sob investigação têm peso regulatório maior do que o artigo de Williams já retratado. Segundo ele, um documento de 2018 da Agência de Proteção Ambiental dos EUA sobre o glifosato cita os dois juntos. Jason MacLean, que já atuou como consultor técnico para autores em litígios sobre glifosato, afirma que a dependência do artigo de Greim “distorceu indevidamente a regulação e o julgamento dos riscos de câncer do glifosato”.

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O que os autores dizem

Nenhum dos autores citados admite ghostwriting. Christian Strupp, coautor do artigo de Greim, disse que o grupo “defende a integridade científica da publicação, que passou por revisão por pares profissional”. David Kirkland, coautor do artigo de 2013, afirmou que o texto “não foi escrito por terceiros” e que ele e Kier “declaram claramente” no artigo terem “responsabilidade exclusiva pela redação e pelo conteúdo”.

A Bayer, atual controladora da Monsanto, chamou as alegações de “absurdas” e afirmou que o funcionário da Monsanto citado como coautor do artigo de Greim, David Saltmiras, estava “claramente identificado como tal” no texto publicado.

Do outro lado, o próprio caso da retratação de 2025 continua sendo disputado. Um grupo de 66 pesquisadores, liderado pelo farmacologista Christopher Borgert, escreveu um editorial pedindo que a revista reverta a retratação do artigo de Williams, argumentando que não havia evidência de falha científica que a justificasse. Martin van den Berg, coeditor-chefe da revista, respondeu que a decisão foi “totalmente independente” e seguiu diretrizes do Comitê de Ética em Publicações, e que qualquer sugestão em contrário “deve ser considerada difamação e intimidação”.

O que fica desse episódio

O que mais me chama atenção aqui não é a acusação em si, é o tempo. Passaram oito anos entre os e-mails aparecerem no processo judicial e a retratação do artigo que eles ajudaram a expor. Nesse intervalo, o artigo circulou como referência técnica sólida, foi citado por agências reguladoras e ajudou a moldar decisões sobre um produto que está em disputa judicial até hoje na Suprema Corte dos EUA.

Isso não significa que toda revisão financiada por empresa é suspeita, e também não significa que basta um e-mail ambíguo para provar ghostwriting. Significa que o tempo entre a publicação de um artigo e a análise séria da sua origem pode ser longo demais para quem está construindo pesquisa em cima dele hoje. Faz sentido revisar com mais cuidado sempre que um estudo aparece isolado como base para uma posição regulatória inteira, e não como parte de um corpo de evidência mais amplo.

Próximos passos

  1. Se você trabalha com revisão de literatura em áreas regulatórias, adicione a checagem de conflito de interesse na autoria (não só no financiamento) como etapa padrão de leitura crítica.
  2. Acompanhe o desfecho da investigação da Taylor & Francis: a editora não deu prazo, mas o caso Williams levou anos entre a denúncia inicial e a retratação.
  3. Se você cita literatura sobre glifosato ou outros agroquímicos em sua pesquisa, verifique se os artigos aparecem em bases como o Retraction Watch Database antes de tratá-los como consenso estabelecido.

Casos de retratação por conflito de interesse não declarado são mais comuns do que parecem, e o problema raramente aparece de forma óbvia numa primeira leitura. Se você quer entender melhor como esses casos se desenrolam depois de expostos, veja como outro artigo retratado sem acusação formal de má conduta mostra que o preço de um erro de método pode ser tão alto quanto o de uma fraude.

Fonte: Publisher investigating two more papers on glyphosate, Retraction Watch

Perguntas frequentes

O que é ghostwriting em artigo científico?
É quando alguém escreve total ou parcialmente um artigo científico sem constar como autor, geralmente a pedido de uma empresa interessada no resultado. Os autores que assinam o texto revisam e aprovam o conteúdo, mas não fizeram a redação original. O problema não é só ético: esconde quem tem interesse comercial direto na conclusão do estudo.
O glifosato é seguro ou cancerígeno?
Não há consenso. A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, da Organização Mundial da Saúde, classificou o glifosato como provavelmente cancerígeno para humanos em 2015. Já a Agência de Proteção Ambiental dos EUA mantém a posição de que é improvável que a substância cause câncer em humanos. Os dois artigos agora sob investigação foram usados para sustentar essa segunda posição.
Por que a Taylor & Francis está investigando os artigos agora?
Porque documentos internos da Monsanto, tornados públicos em um processo judicial de 2017, mostram funcionários da empresa discutindo como escrever o artigo e depois incluir cientistas externos como autores só para assinar. Os mesmos documentos já haviam levado à retratação de um terceiro artigo do mesmo grupo, em dezembro de 2025, e pesquisadores usaram esse precedente para pedir a revisão dos outros dois.

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